Sábado, 19 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
Menu

PRIMEIRAS EDIçõES >

Regina Ribeiro

Por lgarcia em 25/09/2002 na edição 191

O POVO

"Isenção e objetividade jornalística", copyright O Povo, 22/9/02

"Recebi esta semana uma mensagem que estimula o debate sobre a isenção e a objetividade jornalística. Escreveu o leitor: ?Creio que a discussão sobre ?isenção jornalística? e eleições precisa ser ainda mais aprofundada por sua Coluna. Comungo, em parte, com o sentimento dos leitores que se dizem decepcionados em relação à cobertura do jornal O Povo. Minha decepção é parcial porque o jornal já não foi isento na cobertura das últimas eleições municipais, manipulando dados das pesquisas de forma a prejudicar o candidato Inácio Arruda. A edição do jornal de domingo, dia do primeiro turno das eleições de 2000, explica melhor o que acabo de afirmar. Basta ir ao arquivo e confrontar os dados daquela pesquisa e o resultado final. O mesmo vale para o segundo turno. Se o Datafolha errou, O Povo também. De qualquer forma, creio que esse termo (?isenção jornalística?) é uma mera atualização de outro (?imparcialidade?), que perdeu toda sua credibilidade e, na prática, não existe. Diante disso, tenho consciência que O Povo possui suas preferências eleitorais e acredito ser bem mais transparente se o leitor soubesse exatamente quais são elas. No entanto, basta uma leitura mais atenta, durante uma semana seguida do jornal, para perceber as diferenças que cercam o tratamento dos principais candidatos ao Governo do Estado e à Presidência da República. O coração de O Povo , parafraseando Alberto Dines, bate por Ciro e Lúcio. E bate forte, embora de forma espasmódica.?(*)

Aceito o desafio do leitor de voltar à questão e, principalmente porque o tema proposto é instigante e o momento é propício. O leitor dá início à sua argumentação afirmando que O Povo ?manipulou? dados de uma pesquisa para prejudicar o candidato Inácio Arruda (PCdoB), na votação, em primeiro turno, das eleições para a Prefeitura de Fortaleza. No dia 1? de outubro de 2000, O Povo publicou uma pesquisa do Datafolha em que Juraci Magalhães (PMDB) aparecia em vantagem na preferência pelos votos. Os arquivos mostram que o Instituto Datafolha errou sim, em Fortaleza e em várias outras capitais.

No segundo ponto da discussão, o leitor acrescenta: De qualquer forma, creio que esse termo (?isenção jornalística?) é uma mera atualização de outro (?imparcialidade?), que perdeu toda sua credibilidade e, na prática, não existe. Diante disso, tenho consciência que O Povo possui suas preferências eleitorais e acredito ser bem mais transparente se o leitor soubesse exatamente quais são elas?.

Para dar continuidade à conversa acredito que o termo ?imparcialidade? deva ser ??objetividade?. Este sim, inteiramente revisado e superado. Ao contrário da ??isenção? ou ?imparcialidade? que deve ser a meta da atividade jornalística.

Para o leitor compreender melhor, a objetividade jornalística no Brasil foi uma herança do jornalismo norte-americano, que fez escola ensinando que repórter não pensa e não sente, ??repórter conta o que viu e relata a verdade dos fatos?. Essa discussão está superada porque já há o perfeito entendimento de que repórter sente, pensa e, por mais competente que seja, não é capaz de relatar ??toda a verdade? que há em torno de um fato jornalístico. O que relata é uma representação (versão, recorte) da realidade que tem um sem-número de outros fatos encadeados como precedentes e como conseqüentes.

No caso da isenção, a prática é extremamente diversa. O termo isenção significa ?independência de caráter?. Em outras palavras, é impossível que exista – na face da Terra qualquer pessoa ou empresa, que não tenha preferências e gostos; ou, que não tenha passado por qualquer tipo de formação e aprendizados que serão a base das suas açccedil;ões. Mas existem plenas condições de que tudo isso possa ser utilizado com ética no exercício profissional. A isenção jornalística diz que é possível manter o nível de independência política, econômica e religiosa em nome de um bem maior que é oferecer informação com credibilidade aos seus leitores. Um jornalista ético não deverá impor os seus interesses particulares quando está no exercício profissional. Um empresa jornalística ética não poderá colocar todo o seu corpo de profissionais a serviço de interesses específicos sejam eles políticos ou econômicos. E sim a serviço de bem informar e garantir o direito à informação de interesse dos leitores.

Não tenho nenhum dúvida de que manter o equilíbrio entre os interesses próprios da empresa e os interesses dos leitores é uma atividade complexa e sujeita a inúmeras leituras. Este jornal não acerta sempre.

Retrocesso (?)

Os leitores do O Povo , têm, neste processo eleitoral em curso, discutido a ??posição? do jornal, apresentado seus descontentamentos, criticado textos, fotos, manchetes, abordagens, charges, até mesmo termos específicos utilizados em algumas coberturas políticas.

Agora, imagine o leitor se O Povo fizesse uma opção exclusiva por determinada candidatura política e anunciasse aos seus leitores: ?este jornal apóia este e aquele candidato. Estamos trabalhando para elegê-los, privilegiando estas informações em detrimento daquelas. E o leitor se conforme, porque em eleição o que importa é bem do país ou estado e blá,blá,blá…?

Tal coisa seria inaceitável. Estaríamos diante de um verdadeiro atentado à liberdade de expressão e à ética jornalística. Seria um ataque mortal ao direito dos leitores à informação isenta, sem contar que tal atitude se configuraria num retrocesso, num jornalismo engajado politicamente que desmontaria a Carta de Princípios desta empresa que garante: ?Todo cidadão tem direito a um tratamento leal e imparcial, independentemente da posição do O Povo em relação a ele?. E acrescenta: ??Em toda a função jornalística a preocupação ética há de ser dominante. Ela é o centro aglutinador dos demais conceitos afins – Justiça, Imparcialidade e Lealdade?.

Desequilíbrio

Concordo plenamente com o leitor que algumas atitudes deste O Povo precisam ser amplamente criticadas. Politicamente, questiono o fato deste jornal ser muito menos crítico com relação ao governo do Estado do que com relação à Prefeitura Municipal. Questiono também o fato de o setor privado não ter o mesmo tratamento que o poder público, quando o primeiro está claramente envolvido em denúncias. Questiono ainda o fato de, até hoje, O Povo não ter publicado uma ampla matéria esclarecedora sobre as ??supostas fraudes? apontadas no Banco do Nordeste.

No entanto, mesmo considerando essas questões passíveis de crítica severa por parte dos leitores – algumas delas foram feitas aqui mesmo neste espaço – a meta é a isenção jornalística sim. Ela é o leme do jornalismo que os leitores querem deste jornal e é ela – a imparcialidade – que deve ser perseguida com acuidade, afinco, perseverança, analisando os entraves para alcançá-la. E os leitores têm uma participação importante nisso.

(*) Usei apenas um trecho do e-mail do leitor, que é mais extenso e aborda outros aspectos sobre a atual cobertura política do O Povo."

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem