Sábado, 17 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Regina Ribeiro

Por lgarcia em 09/10/2002 na edição 193

O POVO

"Versões e opinião", copyright O Povo, 6/10/02

"Recebi, na segunda-feira passada, 30, um e-mail de um leitor narrando a tentativa de publicar um artigo no O Povo. Segundo conta, o material foi entregue na sede do jornal e que como não teve retorno de dois e-mails enviados ao editor responsável pela seção de Opinião, decidiu ligar e falar com o jornalista. ?Ele me disse que o jornal havia encerrado a discussão, porque tinham sido enviados muitos textos com versões diferentes e contrárias sobre o caso?, afirma o leitor.

Diante da resposta do editor, o leitor argumenta: ?Esta postura é, no mínimo, antidemocrática. Já que a discussão estava encerrada por que receberam o meu artigo? (…) Uma coluna de opiniões deve é incentivar o debate (…) e não me pareceu que o jornal seja afeito ao debate democrático. Será que esta impressão é escorreteira?’, indaga o leitor.

Artigo e dúvida

O fato em destaque merece mais informações. No último dia 20 de setembro, O Povo publicou um texto noticioso informando sobre uma discussão verbal ocorrida entre o ex-governador e candidato ao senado Tasso Jereissati (PSDB) – durante uma passeata da coligação O Ceará não pode parar – em Guaramiranga – e o ator Ricardo Guilherme, que estava também participando de uma manifestação política do PT. De acordo com o texto, o candidato teria chamado o ator de ?ladrão? e ameaçado ?demiti-lo?. O relato informativo diz que O Povo ?tentou ouvir o ex-governador, mas ele seguiu em passeata para Buturité?. Diz ainda que o prefeito de Guaramiranga, ?Draulio Holanda (PSDB) negou a versão de Ricardo Guilherme?, afirmando que foi o grupo a que pertencia o ator é que teria vaiado e xingado ao ex-governador. E acrescentou que ia ?impedir a entrada? do Guilherme na cidade. ?É persona non grata a partir d7e agora por promover essa desordem?.

No artigo ?Coronelismo maquiado??, o leitor lança mão do texto publicado pelo O Povo para tecer uma rápida consideração sobre o episódio de acordo com uma das versões apresentadas pela própria matéria.

Diante da reclamação do leitor procurei saber da Redação o que significava, de fato, a informação de que o assunto estava encerrado, com base na resposta do editor responsável de que ?tinham sido enviados – ao jornal – muitos textos com versões diferentes sobre o caso?.

?O caso foi encerrado, editorialmente, pela Chefia da Redação?, recebi como resposta. De acordo com a explicação, o episódio foi abordado nas entrevistas – dos candidatos ao Senado na Rádio AM dO Povo, O Povo, e Portal Noolhar – durante três dias seguidos. Na versão impressa do jornal, foi publicada a matéria do dia 20, já citada, e o tema foi levantado na entrevista com o candidato ao Senado, Tasso Jereissati. Nas demais entrevistas, pergunta e resposta sobre o episódio estiveram apenas na versão veiculada pela internet. Afirma ainda a mensagem da Redação: ?Avalio que cada lado deu sua versão, contou sua história. Cumprimos nossa missão de dar as versões?.

A chefia da Redação argumentou que o jornal ?não pode dar margem para que, qualquer dos lados, possa usar politicamente o fato na reta final da disputa eleitoral, nem vamos dar uma dimensão exagerada a um caso que foi, originalmente, um confronto verbal já abordado pelo O Povo?. Argumenta que as várias versões em torno do episódio poderia levar o jornal a publicar vários artigos superdimensionando um fato que não teve tanta importância dentro do contexto da cobertura eleitoral que foi estabelecida pelos critérios da isenção jornalística; tendo como alvo a ?educação política dos leitores?, pautando os assuntos com base nas propostas e idéias dos candidatos e fugindo do expediente das ?intrigas e acusações mútuas?, próprias do período.

Isenção ou ?ditadura? da isenção?

Em primeiro lugar é importante deixar claro que, ao O Povo – e a todos os veículos impressos – é reservado o direito de publicar ou deixar de publicar carta ou artigo que receba dos seus leitores. Reconheço ainda a necessidade de concordar com o fato de que a cobertura política eleitoral do O Povo foi norteada pelo desejo de lidar com as idéias e de se afastar das ?pendengas politiqueiras? que transformam o noticiário político num ?show? de qualidade duvidosa. No período eleitoral, o espaço público dos veículos de comunicação pode se transformar num palco de tragédias e comédias revisitando o teatro grego, guardadas as devidas – e imensas – proporções.

No entanto, devo dizer que a isenção jornalística é a postura correta de um veículo que respeita os seus leitores. Não se trata de uma ?ditadura?, capaz de deixar de fora do jornal uma opinião que seja julgada pela Redação como um estímulo à leitura da parcialidade ou que não esteja dentro do que foi planejado e determinado. Insisto que a isenção trata da postura do veículo, mas a leitura é ?livre na sua produção de sentidos?. É fruto de uma diversidade que está diretamente ligada à experiência do leitor. E essa leitura não se dá apenas a partir do que está escrito, mas também do que não está.

Com base nas informações recebidas pela Redação e pelo leitor é que faço uma crítica à decisão do jornal de ?encerrar questão? sobre o caso deixando de publicar a opinião de um leitor sobre uma das versões de um fato, mediante matéria publicada pelo próprio jornal. E também de um outro com uma versão contrastante.

Não estou defendendo aqui que o caso ganhasse manchetes e manchetes de páginas do segmento de Política, e sim que o jornal desse espaço para que os leitores se pronunciassem a respeito de um assunto, que, do ponto de vista da informação, a Chefia da Redação entendeu que O Povo havia cumprido ?sua missão?. Pode ter cumprido pela ótica da Chefia da Redação, mas não cumpriu para o leitor que quis se pronunciar sobre o caso, refletindo sobre uma das versões apresentadas por este jornal; e, para os outros leitores que, segundo a Redação, enviaram artigos e ouviram que o assunto estava encerrado."

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