Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Regina Ribeiro

Por lgarcia em 16/10/2002 na edição 194

O POVO

"De olho nos outros ", copyright O Povo, 12/10/02

"Passada a primeira fase do processo eleitoral, a última semana se converteu basicamente na rearrumação do tabuleiro de alianças políticas que vão dividir os dois oponentes que disputam a presidência da República e os governos estaduais ? onde vai acontecer o segundo turno ? daqui a poucos dias. Em nível nacional, de um lado está Luís Inácio Lula da Silva (PT) e do outro, José Serra (PSDB), candidato do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Talvez pelo fato de estar examinando essas eleições com maior de atenção, são visíveis as discussões em torno da imparcialidade jornalística nesse atual estágio da política brasileira. Hoje decidi trazer aos leitores o resultado de um exercício de observação de três jornais e uma revista, de outros estados. O Estado de S.Paulo é o primeiro deles, que tem se destacado pela adesão à candidatura Serra; o site Primeira Leitura ? que tem demonstrado apreço às idéias serristas na discussão dos problemas da República brasileira; O Globo (RJ), e o Correio Braziliense (DF).

É importante deixar claro que esta coluna deverá trazer considerações do conteúdo de apenas um dia de observação, dia 9. A brevíssima avaliação estará em torno de informações transmitidas pelo sites ? versão online ? desses jornais e revista. É bom lembrar ainda que o exercício a que me proponho esbarra em, pelo menos um ponto, que vale a pena chamar a atenção: estou levando em conta as informações publicadas sem ter, neste momento, a intenção de considerar a postura editorial dos veículos citados.

Explicados estes pormenores vamos às informações e visões dos veículos, em torno de alguns fatos específicos, que envolveram notícias sobre a sucessão presidencial.

Puro-sangue x mercado

No dia 9, o site Primeira Leitura abre com a seguinte matéria: ?Temor de conservadores de que Lula faria um governo esquerda puro-sangue leva antiga base a se reunir em torno de Serra; PT percebe o risco e fala em ?Pacto Moncloa?.

O texto informa que a votação dada ao PT teria acendido ?nos partidos da antiga base governista o temor? de um governo radical por parte do PT. O único partido citado é o PFL e de forma nenhuma deixa claro o que seria esse governo de ?esquerda puro-sangue?. No restante das informações desse dia, sequer esclarece como será, de fato, o apoio dos partidos da base governista ao candidato Serra, até porque os acertos ainda não estavam definidos e confirmados.

No mesmo dia 9, o jornal Correio Braziliense dá a seguinte manchete: ?Para mercado, Lula tem 75% de chances?. A matéria que tem como título: ?O jeito é Lula? mostra a expectativa do mercado em torno de uma futura eleição do candidato do PT, que nem de longe lembra o temor excessivo do avanço do partido no Brasil. Os sempre muito sensíveis ? a humores políticos em países emergentes ?, os analistas de bancos estrangeiros como Goldman Sachs, Credit Suisse First Boston e Bank of America trabalham com cenários menos aterrorizantes, embora inconclusos, para um possível governo Lula. É bom que se diga que o Bank of America, segundo o texto, elabora cenários com Lula, mas tem uma expectativa favorável à possibilidade de Serra sair como vencedor da disputa política com o petista.

Debate e interpretação

No O Estado de S. Paulo, o destaque da seção Eleições 2002, de quarta-feira passada, era a seguinte informação: ?Lula não deve participar de debates na TV, diz Dirceu.? O texto-resumo, abaixo do título, reforça que ?segundo o presidente do PT, é tradição nas eleições brasileiras o candidato que está na frente na disputa não comparecer a esse tipo de evento?. O site do jornal colocou à disposição dos leitores, duas matérias sobre o assunto. A que se refere ao destaque acima informa que a direção do PT estava reivindicando que se formasse um pool de emissoras para realização de um único debate alegando o tempo escasso para a campanha do 2? turno. O texto curto, de um único parágrafo, afirmava que ?é muito difícil de organizar ? o pool de emissoras ? até o dia da eleição em segundo turno?, embora nenhuma emissora de TV (Bandeirantes, Record e Globo) fosse ouvida para explicar quais são essas dificuldades. Além disso, a informação dada, como sendo do presidente do PT, José Dirceu, foi anunciada pelo presidente do PSDB, José Aníbal. Dirceu não foi ouvido nessa matéria específica.

Um outro texto, bem maior, tinha o seguinte título: ?Serra cobra debate, mas Lula ironiza desafio?. O material publicado interpreta como ironia do candidato do PT, as respostas dadas em torno do assunto.

No Jornal O Globo, o tema é tratado em texto que foi intitulado: ?PT quer só um debate na TV e PSDB quer vários?. A matéria deixa claro que os debates estão sendo utilizados pelos candidatos como estratégia de campanha. Enquanto a coordenação da campanha de Serra quer a exposição do concorrente, os assessores de Lula querem preservá-lo do excesso de exposição em confrontos diretos com Serra.

O bom/mau jornalismo

Apesar das dificuldades existentes nesse tipo de observação jornalística num processo eleitoral, sem dúvida é um exercício muito interessante avaliar como alguns veículos de comunicação jornalística trabalham determinadas informações.

Para encerrar o assunto seria interessante que o leitor atentasse, neste domingo, para os trechos a seguir que tratam da questão da imparcialidade jornalística. Certamente ainda voltaremos a esse tema.

No artigo ?Ciro e Weimar?, publicado na revista Primeira Leitura, edição de agosto, página 24, o autor coloca sua versão sobre o instigante assunto que não é de interesse apenas dos profissionais da área, mas principalmente dos leitores. ?Popularizou-se essa bobagem da suposta neutralidade da mídia. É como se os leitores nos pedissem mais cuidado na elaboração para esconder o que pensamos sob um véu de imparcialidade. Nunca se é imparcial ? aqui ou no site ? e, o centro das questões jamais são as pessoas, personalidades, vida privada. E sim as idéias, a dimensão pública das decisões, a República, enfim?. E aí vem a fatia mais complicada dessa defesa: ?Ser imparcial e preciso ao registrar um fato não implica ser neutro em relação a ele. Uma coisa é mentir ? e a boa imprensa, neutra ou não, jamais mente. Coisa muito diferente é se colocar diante da realidade como mero observador ou como depositário de propostas, idéias, convicções. Pode-se fazer bom jornalismo de um e de outro jeito?."

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