Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Regina Ribeiro

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

O POVO

"Ano bom e leitor enganado", copyright O Povo, 29/12/02

"Recebi o e-mail abaixo no início do ano, ainda me acomodando na nova função, aprendendo a lidar com os leitores e todas as suas expectativas. A mensagem desse leitor, que mora na Bahia, ficou arquivada junto com as 1.545 mensagens recebidas até do dia 26 de dezembro último, mas essa tinha um caráter especial. Era tal a descrença do leitor com a função de ombudsman na imprensa brasileira que deixei para responder ao e-mail no final do ano, depois de concluído o mandato e observadas algumas questões que não poderiam ser respondidas sem a experiência.

Inutilidade e descrença

Disse o leitor: ?Tenho lido com assiduidade o jornal pela internet, pois atualmente moro na Bahia. A sua coluna é uma que procuro ler. Cada vez que tenho acesso a ela o meu sentimento com relação a você é de pena. Defender o indefensável é muito complicado e deve estar fazendo mal a você. Mas não precisa se ‘aperrear’ esse seu mal é de todos os que se propõem a ser ouvidor de qualquer órgão de nossa imprensa. (…) Ou seja, a sua função é inútil porque o que vale é a ideologia (…) que define o que vai ser publicado ou não. Então éeacute; por isso que notícias envolvendo determinados políticos ou poderosos só saem se forem positivas (…) não importando se as ações desse pessoal são danosas ou não. Portanto, minha jovem, talvez seja melhor para você procurar algo mais produtivo para fazer. Se você tomar essa decisão vai ser uma pessoa muito melhor. Sucesso e paz.’

Valor da crítica

Agora, no final de um ano em que o País viveu com tanto vigor e empenho do ponto de vista político, e que a imprensa teve um papel fundamental na mediação dos fatos, achei por bem responder ao e-mail desse leitor tão desesperançado.

Em primeiro lugar a função de ombudsman na imprensa não deve ser encarada como uma banca julgadora e condenatória, mas sim com um exemplo de cidadania numa nação democrática. Se temos tão poucos ombudsman na imprensa brasileira, os leitores devem questionar o motivo e nas suas reflexões podem incluir a novidade da função num País cuja liberdade de expressão e de crítica à imprensa estão numa fase de iniciação. Os poucos exemplos que temos, no caso O POVO e a Folha de S. Paulo não devem causar desestímulo e sim deixar a certeza de que é possível se ter um ombudsman na imprensa brasileira, seja num veículo de circulação nacional, seja num jornal regional. A crítica propositiva não pode e – por conseqüência – não deve ser encarada como o ponto de alteração imediata do que está em curso, mas sim como um ponto de negociação, discussão e debate da prática jornalística tendo como ponto fundamental, a figura do leitor, que deixa de ser vista como uma massa amorfa de consumidores de um produto cultural e passa a ser encarada com uma pessoal que atenta, chama a atenção do veículo para seu conteúdo.

Por outro lado, é bom deixar claro que não está no ombudsman a exatidão de tudo, nem se encerra nele a opinião correta sobre todos os fatos, embora a sua opinião esteja em evidência.

Crítica útil

Em segundo lugar, a função, como quer fazer acreditar o leitor em questão, não é ?inútil?. Ela é utilíssima em vários sentidos. Num deles estimula o debate saudável entre os leitores e o jornal de forma a contribuir com o produto positivamente. Noutro, envolve os leitores numa atividade pouco comum entre nós que é a reflexão do conteúdo imprenso. (Essa tarefa, quase sempre fica a cargo de acadêmicos). É importante perceber também que o envolvimento dos leitores com o jornal se dá não apenas no plano comercial – consumidor e produto, mas também no campo intelectual. Eles sabem que podem discutir idéias e informações veiculadas por meio do ombudsman. Essas particularidades não tornam um profissional inútil. Pelo contrário, o papel de um ouvidor é contribuir com o processo de participação social envolvendo veículo e comunidade de leitores. É um exercício de cidadania por excelência.

Aos leitores, obrigada

O leitor sugere também que existe nos veículos um sistema ?autoritário? interno que define o que é publicado ou não, envolvendo algumas pessoas consideradas ?poderosas?. Em tal cenário, mais do que nunca um ombudsman torna-se necessário para estimular o equilíbrio de forças entre os interesses da empresa jornalística e o interesse do leitor que tem direito à informação, principalmente se as pessoas envolvidas na notícia estão num cargo público. Seria falso não admitir que há pressões em favor de personalidades políticas, ou que algumas vezes os interesses privados da empresa entram em choque com as informações a serem veiculadas. No entanto, a função de um ombudsman dá liberdade ao leitor para questionar tal posicionamento por parte do veículo; oferece meios para que esse questionamento seja feito interna e externamente, e isso na minha opinião, representa um ganho importante, no âmbito da participação dos leitores junto ao jornal que lê.

Por fim, o leitor sugere que eu faça ?algo mais produtivo?. Com os 12 anos de jornalismo profissional que tenho, este, decididamente foi um dos mais produtivos. Apesar do encontro semanal que tínhamos por meio da coluna pública, devo dizer que o principal e mais importante papel de um ombudsman é o trabalho diário de lidar com os leitores, por e-mail, telefone ou pessoalmente, intermediando suas questões com a Redação ou outros departamentos da empresa. Esse intercâmbio de idéias é algo valioso e produtivo, desde que seja respeitável, aberto, claro, como aconteceu com a conversa que tive com a maioria do leitores. Mesmo os mais exaltados ou tratando de assuntos mais tensos, mas difíceis.

Pode parecer estranho que a ombudsman utilize a penúltima coluna pública justamente para criticar o leitor que, em tese, ela teria de defender. No entanto, esse e-mail, lido várias vezes, se transformou num ponto de reflexão importante durante este ano, principalmente nos momentos em que percebia haver uma expectativa muito grande com relação à ombudsman do O POVO. Responder a esse leitor publicamente tem, para mim, um objetivo claro: dizer obrigada pela dura clareza com que expôs seu pensamento a respeito deste trabalho e poder dizer também obrigada a todos os demais leitores que acreditaram na contribuição que um ombudsman pode dar à imprensa brasileira, observando o conteúdo, tecendo comentários, acompanhando de forma crítica o dia-a-dia do jornal."

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