Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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Regina Ribeiro

Por lgarcia em 16/01/2002 na edição 155

O POVO

"Matéria-prima", copyright O Povo, 12/1/02

"?O jornalista deverá
atuar sempre como um elemento de instigação crítica,
questionando constantemente o poder em várias dimensões:
política, econômica, social, religiosa – ou não
será fiel à sua função?. Valdemar Menezes,
editor-sênior do O Povo


Caro leitor, estamos começando hoje nossas conversas dominicais.
Estarei aqui por todo este ano, se Deus quiser, para trocarmos idéias
sobre jornalismo. Principalmente o jornalismo que fazemos no O
Povo.
Não tenho dúvidas de que será um
tempo bom, embora no Ceará, quando a gente fala em tempo
bom pensa-se logo em muita chuva e trovoada. Brincadeira à
parte, acredito que o exercício profissional de ser ombudsman
enriquece, amadurece e oferece muitas oportunidades de conhecer
um pouco mais de perto as pessoas que são a razão
de ser do jornal: os leitores.

Para você que ligou para mim ou veio ao O Povo – recebi
visitas e já tenho uma pequena agenda para a semana que está
começando – saiba que foram uma alegria os primeiros contatos.

Mas vamos lá. A função de ombudsman completa
dez anos no ano que vem. Passou rápido. Parece que foi ontem
que a professora e jornalista Adísia Sá assumiu pela
primeira vez o cargo de ombudsman, em outubro de 1993, e O Povo
passou a ser o segundo jornal do Brasil – o primeiro foi a Folha
de S.Paulo
– a ter um ouvidor, além de ser o primeiro
e único do Nordeste. Hoje, a situação ainda
é exatamente a mesma.

Na minha primeira semana de trabalho deu para perceber que estamos
batendo em algumas teclas há nove anos.

Nós temos graves problemas com a nossa matéria-prima
ou seja, o texto jornalístico que é o meio com o qual
nos comunicamos. Vivemos disso: das palavras, que se transformam
em informações e transmitem idéias.

Não é possível que a maior parte do tempo
da ombudsman seja para analisar o texto do ponto de vista da sua
estrutura, de informações faltantes ou descontextualizadas
diante da realidade ou ainda de uma construção primária.

O Povo tem um quadro de excelentes profissionais, conquistamos
vários prêmios importantes no últimos anos,
conseguimos produzir cadernos e coberturas especiais que não
ficam a dever a ninguém. Mas no dia-a-dia a situação
não é fácil para os leitores, algumas vezes.

Este jornal não pode se dar o luxo de viver de eventos extraordinários.
O Povo precisa investir, e rápido, na qualificação
profissional de todos os seus repórteres, principalmente
no tocante à produção textual. Nós vivemos
de contar versões dos fatos. E elas precisam ser bem contadas
para não perdermos leitores e, como conseqüência,
mercado.

O leitor quer informação correta, num texto bem construído,
com amplitude de visões, contextualizada. E isso não
cai do céu. É preciso formar bons profissionais, atualizá-los
para poder cobrar deles bons resultados. O jornalista profissional
também não pode ficar à espera que alguém
pense na sua formação. Precisa investir em si próprio,
estudar para ter uma maior capacidade de avaliação
dos fatos e da própria realidade. É o nome de cada
um de nós que está sendo colocado publicamente e os
leitores sabem discernir o que é bom e o que não é.

Discordância

Na última quarta-feira, O Povo deu a seguinte manchete:
?Racionamento termina em abril?. Logo na chamada – texto que vem
depois da manchete – o jornal diz que o fim do racionamento é
uma ?previsão? do Operador Nacional do Sistema Elétrico
(ONS). Na matéria, publicada na página 20 com o título
?Racionamento pode acabar em abril?, o texto condiciona o fim do
racionamento de energia ao nível de água dos reservatórios.
O próprio governo, naquele momento, não confirmou
o prazo. Ou seja, diante desse quadro argumentei com a Redação
que O Povo havia dado uma manchete errada e solicitei um
erramos, que é nossa prática quando cometemos erros.
O diretor-executivo Arlen Medina não concorda. Segundo ele,
o erramos seria indevido. Ele explica que quando o jornal optou
por ?manchetar o estudo do ONS, que apontava o fim do racionamento
em abril, era essa a realidade?. E acrescentou: ?Não fugimos
dela?. Arlen Medina argumenta ainda que, na mesma quarta-feira,
o próprio ONS baseado em novas chuvas que caíram nos
reservatórios informou uma nova data para o fim do racionamento,
antecipando de abril para fevereiro, no caso do Nordeste.

Essa argumentação, no entanto, não me convenceu.
O ONS trabalha com previsões, aqui no sentido de possibilidades,
baseadas em informações técnicas. Ou seja não
é certeza absoluta. A manchete do jornal partiu do pressuposto
da certeza quando disse que o racionamento terminava – ou seja,
chegaria ao fim definitivamente – em abril. Insisto que a manchete
precisava de um erramos. A Redação tem o direito de
argumentar, de discordar, a questão ainda não está
definitivamente fechada. Nós não conseguimos convencer
um ao outro."

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