Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > ELEIÇÕES 2002

Reinaldo Azevedo

Por lgarcia em 23/10/2002 na edição 195

ELEIÇÕES 2002

“Diálogo Com Noblat E Janio De Freitas”, copyright Primeira Leitura (www.primeiraleitura.com.br), 22/10/02

“Tenho grande respeito pelo jornalista Ricardo Noblat, diretor de redação do Correio Braziliense, que trava, no Distrito Federal, no que se refere às eleições locais, uma verdadeira batalha civilizatória; a ele minha irrestrita solidariedade. Mas me parece que o texto que reproduzo abaixo, a que interponho alguns comentários, é dessas peças jornalísticas que têm tudo para fazer história. Ele traduz, como poucos nesta campanha, o espírito dos tempos que vivemos. Em preto, segue o texto de Noblat, conforme o publicado no Correio Braziliense no dia 19. Em vermelho, alguns comentários deste escriba. Se o estilo há de ser sempre favorável a Noblat, talvez algumas questões de conteúdo, que levanto abaixo, tenham relevância. Mais adiante, dirijo algumas indagações ao colunista Janio de Freitas, da Folha de S.Paulo.

A uma semana do segundo turno da eleição e uma vez que as pesquisas de intenção de voto confirmam o largo favoritismo do candidato Luiz Inácio Lula da Silva, somente o emprego de grossa baixaria no campo pessoal seria capaz de ameaçar o desfecho lógico do processo de escolha do sucessor do presidente Fernando Henrique Cardoso. Baixarias de todos os calibres, aqui e em qualquer parte, são armas de candidatos sem caráter e em estado de desespero.

É verdade! Se a premissa de Noblat estiver certa, a conclusão não pode ser outra. Mas reparemos: não estamos diante de uma lei física, não é, Noblat? Você se refere, certamente, à suposição de que apenas uma grande bomba eleitoral contra Lula poderia lhe tirar a vitória. Mas por que seria necessariamente uma baixaria? Compartilho de sua certeza de que o petista já está eleito. Mas de que elemento científico, inquestionável, irrespondível, você dispõe para afirmar que só ?uma grossa baixaria no campo pessoal seria capaz? de ameaçar a vitória de Lula? Digamos que, só por hipótese – EU NÃO SEI DE NADA -, exista uma prova, uma evidência, de que o futuro presidente do Brasil desrespeitou um ou mais preceitos da Constituição, ainda que fora de seu expediente político. Denunciá-lo seria ?uma grossa baixaria? e evidenciaria a ?falta de caráter? de quem denunciar? Ainda mais nesta eleição em que os atributos pessoais do virtual vitorioso estão alçados a um patamar superior ao de sua própria história política?

Lula já foi vítima de uma delas ao enfrentar Fernando Collor no segundo turno da eleição de 1989. Quando se viu quase perdido a menos de uma semana da eleição, Collor apelou para o depoimento comprado a peso de ouro da enfermeira Míriam Cordeiro, mãe de uma filha de Lula. Ela apareceu no programa de televisão de Collor para acusar Lula de tê-la aconselhado a abortar a filha. Míriam mentiu, descobriu-se depois. Mas com o que disse ajudou a derrotar Lula.

Divirjo de você na essência dessa história. Acho que Lula perdeu em 1989 porque era um candidato socialista, com um programa socialista, que rejeitou até mesmo o apoio de Ulysses Guimarães no segundo turno. Nesta segunda, o petista fez uma autocrítica demolidora, atribuindo a seus próprios erros até mesmo a derrota de 1994. O que Collor fez constituiu, de fato, uma baixaria inaceitável. Mas não foi ela que determinou o rumo daquela eleição. Não custa lembrar, no entanto, que também foi uma ?baixaria? inicialmente familiar que deu início ao famoso Collorgate, que depois se evidenciou um monstro de muitas faces. Collor não teve direito a nenhuma ?privacidade? naqueles episódios. Pelo que, certamente, a nação agradece.

No mundo sujo da arapongagem, dos grampos ilegais, fitas de vídeo e dossiês forjados, há agentes e ex-agentes de extintos órgãos de espionagem cobrando uma nota preta por informações que dizem poder subverter qualquer resultado. José Serra é um candidato desesperado. Ao fim e ao cabo, sua derrota deverá ser maior do que se anuncia. A diferença, porém, é que a biografia de Serra nada tem a ver com a de Collor. Até aqui, pelo menos, nada tem a ver. E o país mudou muito desde então.

Não custa lembrar que Serra, FHC, Mário Covas e Sergio Motta foram vítimas desse tal mundo da arapongagem. Você já leu, Noblat, em algum lugar, um pedido formal de desculpas pelo amplo carnaval que se fez em torno desse assunto? Eu não li. Ninguém teve a coragem de imitar Dalva de Oliveira e escrever: ?Errei, sim?! Acho saudável que você reconheça diferenças entre as biografias de Serra e Collor. Também reconheço. Mas quantos fizeram ou fazem o mesmo ao lhe atribuir a responsabilidade, dentre outros casos, pelo escândalo da Lunus, numa inversão absoluta de valores? Eis aí um bom caso: o PFL considera que se tratou de ?uma baixaria?, acusa Serra de ter movido a mão da Polícia Federal e ignora o mérito da questão: afinal, havia naquele escritório uma dinheirama e muitas versões.

O Brasil de 2002 não é o Brasil de 1989. A sociedade amadureceu politicamente e não parece disposta a se deixar influenciar por golpes sujos de última hora. De resto, a de 1989 foi uma eleição disputada voto a voto no segundo turno. Qualquer fato novo de forte impacto poderia dar a vitória a Collor ou a Lula. E Collor, tanto quanto Lula, encarnava na época o desejo de mudança do povo. Desta vez, por mais que tenha se empenhado, Serra não conseguiu convencer ninguém de que a mudança é ele.

Ou a baixaria deu a vitória a Collor em 1989 ou ele encarnava, também, o desejo de mudança. Dado o objeto de seu artigo, é impossível conciliar as duas teses. E, claro, a partir desse parágrafo, seu artigo me intriga: existe uma ?baixaria? de que ninguém sabe, é isso? Se existe, é ?baixaria? porque:

a) se trata de uma mentira?;

b) é uma verdade, mas nada tem a ver com a vida pública; só com a privada?;

c) é uma verdade, derivada da vida privada, mas é uma afronta à ordem constitucional e legal?

Dado que exista e, em existindo, caso se trate da alternativa ?a?, endosso seu ponto de vista sem reservas. Dado que exista e, em existindo, caso se trate da alternativa ?b?, também endosso seu ponto de vista. Mas, se existir e se tratar da alternativa ?c?, desculpe-me o grande jornalista Noblat, mas você estará terrivelmente errado. E o único propósito de seu texto seria tentar impedir o risco, inexistente, da derrota de Lula. Digamos que existisse o que agora seria silenciado. Seu valor de troca, mais tarde, seria bem mais alto, não é mesmo?

Na verdade, só houve um fato político relevante ao longo deste segundo turno: a adesão de Ciro Gomes e de Garotinho à candidatura de Lula. O resto foi perfumaria. O depoimento de Regina Duarte sobre o medo que Lula lhe desperta foi perfumaria. A tentativa de Serra de comparar o Brasil de Lula com a Venezuela de Hugo Chávez foi perfumaria. Não passou de perfumaria o discurso de que Lula escorrega como um sabonete em relação a qualquer assunto.

Só uma curiosidade me despertou o trecho acima: não houve nenhuma perfumaria na campanha de Lula? Só José Serra aspergiu por aí suas irrelevâncias cheirosas?

Os debates cobrados por Serra poderiam ter provocado alguma alteração importante nos resultados das pesquisas – ainda assim se Serra os ganhasse por larga diferença. Mas Lula fugiu deles. Como Fernando Henrique fugiu dos debates propostos por Lula em 1994 e 1998. Como todo candidato prestes a vencer costuma fugir de debates. Lula já não correrá maiores riscos quando se defrontar com Serra no debate da Rede Globo marcado para a próxima sexta-feira.

Nada a opor. A nota fica por conta da fuga de Lula ser justificada com a fuga de FHC: nem o PT usa tal argumento em público. Prefere dizer que já está tudo esclarecido. De resto, se me permite abusar do método que você usa logo adiante, digamos que o desfecho de FHC neste segundo mandato não recomende que os candidatos evitem debates, não é?

Desta, não se poderá dizer que foi uma eleição presidencial emocionante. A dianteira de Lula só esteve a perigo uma única vez – quando a candidatura de Roseana Sarney ainda gozava de boa saúde. As eleições presidenciais de 1994 e 1998 também não foram emocionantes. O Real e o medo de que ele fosse para o brejo asseguraram a vitória antecipada de Fernando Henrique. Emocionante foi a disputa de 1989, que acabou conspurcada pela baixaria. E Collor, depois, acabou como se viu.

À diferença de você, achei a eleição bem mais emocionante que a de 1989. Percebi a ilação que a retórica lhe faculta no texto: Collor ganhou na base da baixaria (ué, mas ele também não era ?mudança??) e não chegou até o fim. Quem vence com baixaria não governa é o corolário. Dou-lhe outro, que também me foi inspirado por Collor: quem vence escondendo baixarias não chega ao fim. Estamos falando de ?a?, de ?b? ou de ?c??

Serra está posto diante do dilema de conservar sua biografia de político sério e ético ou de remetê-la para o lixo por se render à tentação de jogar sujo. Um grupo de políticos paulistas, entre eles Alberto Goldman, Aluísio Nunes Ferreira e José Anibal, aconselha Serra a tudo fazer para ganhar a qualquer preço. O marqueteiro Nizan Guanaes, baiano de nascimento, incorporou o espírito do mal que baixou no grupo paulista. Ele quer sair no braço contra Lula.

Insisto na pergunta: você está falando da alternativa ?a?, da ?b? ou da ?c?? A ?a? e a ?b?, se é que existe alguma coisa (SEU TEXTO SUGERE QUE SIM; EU DESCONHEÇO ATÉ O BOATO), de fato, manchariam a biografia de um grande homem público. Diante da ?c?, a biografia de Serra, a sua e a minha obrigariam a que o caso fosse tornado público. Afinal, não se trata de eleger quem vai cuidar da grelha no churrasco do fim de semana, não é?

Informado a respeito do que se passa, o presidente Fernando Henrique Cardoso dedicou-se nas últimas 48 horas ao seu esporte predileto – dizer para cada interlocutor o que cada um quer ouvir. Há um traço na personalidade de Serra que o aproxima de Collor e poderá empurrá-lo na direção do desastre previsível: sua ambição desmedida e aparentemente irrefreável pelo poder. E, se possível, por todo o poder que possa concentrar. Aí é que reside o perigo.

Sou levado a crer que, de fato, você sabe o que ainda não sei, o que não me espanta, jornalista notável e com muitas fontes que é. Tanto sabe que nos revela até mesmo o comportamento de FHC sobre o assunto. A grande biografia de Serra, que você louvou há pouco, fica menor nesse parágrafo. Ninguém com ?ambição desmedida e irrefreável pelo poder? é flor que se cheire, não é mesmo? Vai ver ele está perdendo a eleição por isso. Encontrou pela frente um adversário com ambições modestas e sem vontade de poder… Insisto na pergunta: trata-se da alternativa ?a?, da ?b? ou da ?c??

Em tempo: o jornalista Inácio Muzzi, assessor direto de José Serra, telefonou-me por volta das 20h15 deste sábado. Oficialmente, em nome do candidato, ele me assegurou que Serra jamais empregará qualquer tipo de baixaria pessoal contra Lula. E que os políticos citados na coluna acima como partidários da vitória a qualquer preço também se opõem ao uso de baixaria. Fica o registro, pois.

Entendi. Está tudo certo, tudo no lugar. Muzzi diz que não haverá baixarias pessoais. O intuito do seu artigo, pois, deve ter sido apenas afastar Serra de uma tentação. Lembrar-lhe de que, a despeito de sua ?ambição desmedida e irrefreável pelo poder?, ele tem uma biografia a zelar. Mas eu não suponho, Noblat, não mesmo, que você defendesse que tal zelo implicaria silenciar mesmo diante da alternativa ?c?. Leitor, isso aqui é mero exercício de lógica. Um exercício amistoso. Não tenho a menor idéia sobre qual ?baixaria? Noblat está falando. Eu não sei de nada. Se soubesse e fosse a ?c?, com a prova na mão, botaria a boca no trombone, nem que o acusado fosse João Paulo 2?.

Mas não sei de nada. Só de lógica!

Janio de Freitas

O colega Janio de Freitas, colunista da Folha, escreve em sua coluna de domingo: ?Regina Duarte e qualquer outro goza do direito de ir à TV e dizer por que prefere tal candidato e por que não vota em tal outro. Mas, se isso implica julgamento de valor, o ?por que? é fundamental. E nem mesmo ele torna absoluto o ?direito de dizer o que quiser?: em um exemplo extremado para ser ponto final, alguém tem o direito de ir a TV sugerir a crianças que experimentem drogas??.

Como não discordar de Janio? Em primeiro lugar, o desvão retórico lhe permite reconhecer o ?direito? de Regina Duarte expressar sua preferência, direito este, parece, cassado na linha seguinte, já que os porquês da atriz não pareceram suficientemente bons a Janio. O argumento, pois, é outro, e não aquele que vai escrito: Regina Duarte ?goza do direito de ir à TV e dizer por que prefere tal candidato? DESDE QUE FUNDAMENTE COM COMPETÊNCIA A SUA OPÇÃO.

Para Janio, é o fundamento do voto da atriz que lhe faculta ou lhe tolhe o direito de declará-lo. E Janio, pelo visto, se alinha entre os juízes dos fundamentos alheios. Assim, à cidadã Regina Duarte restaria, antes do exercício do direito, a reeducação política para que pudesse, então, exercê-lo.

Escrevi o primeiro texto na imprensa censurando a patrulha da CUT contra Regina (clique aqui). Reiterei minhas objeções numa carta aberta aos milhares de internautas de Primeira Leitura (clique aqui). Só me arrependo da brandura. Chamei, num primeiro momento, a patrulha de ?fascistóide?, o que, em bom português, sugere algo feito ?à moda fascista?, e, no segundo texto, de ?protofascista?, o que designa os primeiros indícios de uma eventual prática fascista. Cometi o erro do comedimento: não só colegas da atriz foram escalados para satanizá-la em nome das aspirações da nova maioria, como um evento público, de massa, pretende isolar a voz discordante. No que se refere ao direito de opinião, isso é fascismo mesmo, nem ?óide? nem ?proto?.

Janio, em trecho anterior ao citado, consoante com o que faz depois (e se lê acima), julga a intenção de Regina Duarte – ?influir no exercício da cidadania alheia? – e sentencia: ?Afirmar que Lula, se eleito, vai jogar ?na lata do lixo? tudo o que é bom é usar de mentira, é desonesto?. Pergunto ao nobre jornalista se haveria campanha política caso se proibisse o que ele chama de mentira e desonestidade.

Afirmar, por exemplo, que os indicadores sociais do país pioraram nos últimos oito anos, Jânio, é verdadeiro e honesto? Quando Chico Buarque conclama os eleitores a ?mudar?, está ou não está tentando ?influir no exercício da cidadania alheia?? Só se pode ser honesto e verdadeiro e criar correntes de influência desde que afinadas com a nova maioria, Janio? Então é disto mesmo que se trata: primeiro é preciso julgar o mérito do que se diz para então decidir se a coisa pode ou não pode ser dita. De Hitler a Pol Pot, de Stálin a Saddam Hussein, com escala no ninho dos falcões do Pentágono, não se defenderia concepção mais imaginosa de democracia.

Contesto, finalmente, o exemplo a que Janio recorre para afirmar que o ?direito de dizer o que quiser? não é absoluto, ao indagar se ?alguém tem o direito de ir à TV sugerir a crianças que experimentem drogas?. Começo ressaltando que não li em nenhum lugar a tosca defesa ?do direito de cada um dizer o que quiser?. Janio está dialogando com quem? Seu ?exemplo extremado? está longe de ser um ?ponto final?, como ele pretende, até porque acrescenta novos ingredientes ao debate.

Lembro-me, quando professor de redação em duas escolas de segundo grau que atendiam à classe media alta, dos intermináveis debates sobre a pena de morte. Era a década de 80, e a violência urbana iniciava a sua escalada, empurrada pela crise do modelo econômico dos militares e pela desordem do governo Sarney – dois períodos capazes, segundo se lê e se vê, de evocar em Lula momentos de verdadeira nostalgia (o jornalismo ?independente e isento? chama essa lembrança de ?terrorismo?; paciência!).

Os adolescentes mais afoitos, diante da tentativa deste escriba de demonstrar que a pena de morte não resolveria o problema, logo sacavam o que, para eles, seria o que Janio chama de ?exemplo extremado para ser ponto final?: ?Professor, e se um bandido matasse a sua mãe ou a sua mulher, você não iria defender a pena de morte??.

Sim, dava-lhes a resposta óbvia, distinguindo o meu suposto desejo de vingança pessoal – e até mesmo a oportunidade de realizá-la – de uma execução programada pelo Estado, num país de tantos erros judiciais etc… Mas, ainda assim, sentia que minha tarefa fundamental não estava cumprida. Eu ainda lidava, até aquele momento, com dados do puro opinionismo, meu e deles.

Fundamental era dizer para aquelas crianças, que davam os primeiros passos no terreno das idéias, que constitui prática retórica das mais infelizes, que concorre sempre para a confusão e jamais para a clareza, a argumentação que se distancia do fato em debate e dos princípios em causa. Trata-se de uma figura da Retórica bastante conhecida e bastante empregada, diga-se, por políticos como Paulo Maluf: a digressão. Afinal, Regina Duarte foi à TV dizer que tem medo de Lula, e não defender que crianças experimentem drogas.

Não me parece que ela tenha reivindicado – ou que alguém o tenha feito em seu nome – o direito de ?dizer o que quiser?. A cidadã Regina Duarte apenas exerceu o direito de fazer uma avaliação política – não importa se é tosca; essa é outra questão. Deve, por isso, ser ameaçada pela CUT de ver rompidos os laços de ?respeito?, conforme e-mail que lhe foi enviado por João Felício, presidente da central?

E, sempre sem desviar do princípio fundamental – o da liberdade de expressão -, posso imaginar a justa indignação de Janio se uma entidade qualquer, que representasse alguns milhões de associados, o ameaçasse com o rompimento dos laços do respeito por conta da expressão de uma opinião – ?justa? ou não, ?adequada? ou não, com todos ?os porquês? no lugar certo ou não.

De resto, Janio escarnece, com a sutileza possível no caso, do fato de que Regina Duarte seria a estrela de uma campanha da Telemar, que teve de ser abortada. Não sei, mas é possível que a atriz venha a ter prejuízos com isso. De minha parte e mais uma vez, mesmo sem compartilhar de seus medos (tampouco dos de Paloma Duarte, a nova musa de palanque do petismo), louvo-lhe a coragem de se declarar na contramão da metafísica influente. Se até dinheiro há de lhe custar sua opinião, isso a coloca, para mim, num patamar moral superior ao dos que recebem para satanizar pessoas ou se desviam de sua função principal, como João Felício, para fazer o mesmo.

Respeito Janio de Freitas como o grande jornalista que é, mas sua concepção de democracia, no texto de domingo, está em linhas tortas. Nem mesmo Deus (faço eu agora a minha digressão), ao contrário do que revela o adágio popular, escreveu certo em tais circunstâncias (serei o único a considerar o Senhor algo autoritário no Velho Testamento?). O que não dizer de jornalistas, sempre tão falíveis, embora, às vezes, como se Deus fossem, se arroguem o direito de julgar os vivos e os mortos?”

“Cartas Ácidas”, copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br), 21/10/02

“O Brasil de Lula não vai quebrar

A essência do ataque de Serra e da mídia serrista a Lula parte do pressuposto de que a crise que vem aí é pesada e que para enfrentá-la é preciso ter competência e experiência. O tamanho da crise também está sendo manejado pelos jornalistas já conformados com uma vitória do PT para demonstrar que Lula tem que ir devagar com andor.

Mas tudo isso pode ser mentira. Simples terror financeiro. É o que diz o economista Alexandre Schwartsman, em ?Por que o Brasil não vai quebrar?, na ?Folha? do domingo (20), e em sua entrevista ao ?Estadão? no mesmo dia. Ele tem doutorado em economia em Berkeley e é economista-chefe da BBA-Corretora.

Alexanddre Schwartsman explica detalhadamente com base em números e na lógica econômica que os bancos não tem como impor uma moratória ao Brasil, a crise brasileira não pode ser comparada com a da Argentina, porque as duas economias são muito diferentes, em especial seus regimes cambiais, e nem o Brasil caminha inexoravelmente para a reestruturação de sua dívida interna.

As falácias do terror financeiro

O artigo de Schwartsman leva um subtítulo inspirado em Zola: ?J?accuse?, em que ele acusa os ?sábios que prevêem ou recomendam a reestruturação da dívida interna de terem construído sua argumentação sobre analogias sem validade?. A carapuça cai sob medida em Soros. Mas serve melhor ainda na cabeça de jornalistas e comentaristas acadêmicos que vem pregando o terror financeiro na mídia, inclusive nesse final de semana.

Alexandre demonstra que a dívida externa do Brasil, tanto a pública quanto a privada, são relativamente baratas hoje e que os valores que vencem até o final de 2004 podem ser pagos sem transtornos. E diz mais: que o governo pode viver sem recorrer aos mercados internacionais até o final de 2003, pelo menos. Desde que não queime suas reservas.

Uma crise auto-alimentada

A divida interna é um pouco mais pesada e problemática, mas seus pagamentos são todos em moeda nacional, portanto não podem por si só levar a uma moratória. Schwartsman ainda acusa o Banco Central de alimentar a crise da dívida interna, elevando abusivamente os juros, a partir de uma obsessão que ele considera equivocada, como combate à inflação. O que o governo deveria fazer era reduzir a taxa Selic de juros e não a aumentar, como fez na semana passada.

E as falsas comparações com a Argentina

Schwartsman diz ainda que o Brasil nunca seria uma Argentina pela diferença fundamental de que nosso câmbio é flutuante e, portanto, auto-regula e limita o âmbito das crises cambiais à medida que a própria taxa cambial sobre muito. Na Argentina funcionava o padrão ouro, que além não ter esse mecanismo, fazia com que a cada dólar de déficit nas transações externas, um peso a menos circulasse na economia, originando a profunda recessão. Ao comparar Brasil com Argentina, não só jornalistas, mas especialmente Serra, mostram ignorância ou má-fé.

O terror total de ?Veja?

?Veja?, ainda inconformada com a perspectiva cada vez mais forte de vitória de Lula, inaugura um novo gênero jornalístico, inspirado nos filmes de terror americanos, cada vez mais apavorantes. Sua reportagem desta semana, intitulada ?Transição na crise?, pinta um quadro de terror total para o nosso futuro imediato. Compara o Brasil ao barquinho de pesca pego por uma tempestade do filme em ?Mar em Fúria?, ?produzida pela conjunção? tão rara de fatores adversos que só pode acontecer uma vez em cada século.

Os argumento de ?Veja? são poucos, para tanto terror, e falaciosos. Diz a revista que ?o Estado brasileiro produz déficits anuais bilionários para pagar aposentadorias de funcionários públicos e gasta sempre mais do que arrecada?. São os pagamentos de juros, devido ao nível anômalo das taxas, e não as aposentadorias que mais tiram recursos do Tesouro. E, mesmo assim, os déficits não são bilionários.

A crise como assombração

A ?Folha?, mais sutil, ao mesmo tempo em que publicou a íntegra do artigo de Schwartsman, não resistiu a um pouquinho de terror e desde a sexta-feira passada vem nos assustando com a volta da inflação. Num ato falho, colocou a palavra ?assombrar? na sua manchete do caderno ?Dinheiro? de domingo (20), que mais uma vez fala de inflação. ?Indexação voltará a assombrar em 2003?.

A ?Folha? vem trabalhando o perigo da inflação todos os dias a partir de uma entrevista de Heron do Carmo, da Fipe, dada na sexta-feira à CBN, em que analisou a evolução dos preços. Nesta segunda (21), Heron voltou ao jornal, mas a entrevista é um tiro que saiu pela culatra porque ele descarta o risco de uma explosão inflacionária no ano que vem, mesmo mantido o dólar alto. A solução da ?Folha? foi dar um olho anti-Lula forçado: ?Descontrole só vira se novo governo fizer muitas besteiras?.

Nas entrelinhas, indícios de que a virada já começou

Numa tirinha discreta da primeira página do caderno de economia do ?Estadão? desta segunda (21) está a notícia indicativa de que, ao contrário do que prega ?Veja?, o cenário do Brasil é de superação da crise cambial. A notícia diz que analistas prevêem superávit na balança comercial de até US$ 18 bilhões no ano que vem. A estimativa menos otimista é de um superávit de US$ 12 bilhões. Lula, se vencer, vai assumir no início de um novo boom exportador. Basta ele dar alguns empurrões na direção certa e podermos entrar num novo ciclo de crescimento econômico. Com crescimento, diz Schwartsman, tudo se resolve.”

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