Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > O CLONE NA MÍDIA

Religião e ciência, mingau perigoso

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

O CLONE NA MÍDIA

Deonísio da Silva (*)

A imprensa brasileira está levando muito a sério os anunciados experimentos genéticos da seita que alega, sem provas, ter clonado os primeiros seres humanos. Aliás, em matéria de marketing, anúncio aggiornato, pois um dos bebês teria nascido de duas lésbicas. A questão é relevante. As homossexualidades, recentemente tidas por heréticas e ilegítimas, receberam ao longo das lutas pela igualdade entre homens e mulheres, sobretudo nas últimas décadas, o manto redentor, ainda que mais de palavras do que de ações, que visa a tratar a todos de acordo com as idiossincrasias comuns a cada indivíduo. Os humoristas têm boa pauta: nem para a reprodução o homem é mais necessário. Relevem o tom que pode parecer pernóstico, mais do que crítico, mas na maior parte das matérias faltam referências míticas, religiosas, teológicas, simbólicas e, em resumo, culturais. A questão é mais antropológica do que científica.

Vamos a alusões mais antigas. Eva foi o primeiro clone. E apesar de ter sido obra do próprio Deus, não escapou às contradições de quem relatou a experiência. Nas versões maravilhosas da tradição judaica, ela nem foi a primeira mulher, mas a segunda. A primeira, Lilith, desobedeceu o marido, desafiou o próprio Criador e juntou-se a Lúcifer, liderando a primeira revolta do Paraíso. Líderes sediciosos e suas turbas foram lançados nas profundezas do abismo, pois, como se sabe, o mal está embaixo. E no caso estava embaixo de quem narrava. E o bem, acima. Como lembrou Saussure em seu famoso curso de lingüística geral, o ponto de vista cria o objeto. Cria também as dimensões, as referências, as comparações.

Na tradição cristã, a versão é outra. Ou outras, pois a narrativa do Gênesis não deixa dúvidas de que o narrador equivocou-se. Faltou-lhe um bom revisor. Com efeito, a primeira mulher é Eva, clonada de Adão, no primeiro dia, conforme Gênesis 2, 21: "Então, o Senhor Deus mandou ao homem um sono profundo", a anestesia, "e enquanto ele dormia tirou-lhe uma costela e fechou-lhe de novo com carne o lugar". E continua o narrador: "Depois, da costela do homem, o Senhor Deus formou uma mulher e apresentou ao homem."

No primeiro capítulo, mudam as coisas. Deus cria o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, no sexto dia. Sem clonagem alguma. Confiramos em Gênesis 1, 27: "Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus, e criou-os homem e mulher." O último pronome, grafado no plural, já deu algum pano pra manga nas discussões teológicas. Com efeito, há quem assegure que o original diz "criou-o" homem e mulher. E este plural complica muito as coisas, pois faz de Adão e Eva aquele ser monstruoso, presente também em Platão, no Banquete, onde originalmente está radicada a idéia de terceiro sexo, que tanto sucesso fez a partir dos anos 60 do século passado, a década que mudou tudo.

Diz o filósofo grego pela boca de Aristófanes: "A princípio havia três espécies de sexo e não duas, como agora: o masculino e o feminino e, além desses, um terceiro, composto pelos outros dois, que veio a extinguir-se. Era a espécie andrógina, que desapareceu e hoje não existe mais." As descrições que faz a seguir parecem dignas não de um livro de filosofia, mas do Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges: "Cada homem, no seu todo era de forma arredondada, tinha dorso e flancos arredondados, quatro mãos, outras tantas pernas, duas faces exatamente iguais sobre um pescoço redondo e, nestes, duas faces opostas, uma só cabeça, quatro orelhas, dois órgãos sexuais e todo o resto na mesma proporção. Quando corria, fazia como os saltimbancos que dão voltas no ar. Lançando as pernas para cima e apoiando-se nos membros, em número de oito, rodava rapidamente sobre si mesmo."

Nas suas divagações, o filósofo explica os motivos de tais características para os três sexos: "O masculino tinha origem no Sol, o feminino na Terra e a espécie mista provinha da Lua."

Escrevendo assim, quem parecia estar no mundo da Lua era o filósofo. Reunidos os deuses, que já tinham destruído os Titãs a golpes de raios, deliberam sobre que providências tomar face à ousadia dos tais seres, que de tão atrevidos estavam subindo aos céus para guerrear com eles. Depois de muitas discussões, Zeus resolveu partir os seres em metades iguais, para enfraquecê-los. Cada metade, porém, passou a buscar a outra metade. E quando se encontravam, agarravam-se uma à outra até uma delas morrer. A sobrevivente ? estava instaurado o processo da viuvez humana ? saía em busca de outra metade com quem se abraçar. Conclui Platão: "Desse modo a raça ia se extinguindo." Para evitar seu desaparecimento, Zeus, misericordioso como todo criador, tomou outra providência: "Transpôs os órgãos sexuais para a frente, pois antes disso estavam atrás e os homens geravam, não uns nos outros, mas sobre a terra, como as cigarras." E assim Platão descreve o surgimento do macho e da fêmea, separados, na raça humana: "Zeus colocou esses órgãos à frente e fez com que os homens procriassem uns nos outros, isto é, o macho e a fêmea."

Caminho altaneiro

A geneticista francesa Brigitte Boisselier, trabalhando para a seita religiosa do ex- jornalista Claude Vorilhon ? pequenas igrejas, grandes negócios, como é a regra geral ? deu o nome de Eva ao clone que fez de uma mulher. Foi inevitável que Eva fosse comparada à ovelha Dolly. Mas a mistura é ainda mais explosiva. Brigitte, a cientista responsável pelo experimento, é também bispa da seita que quer substituir a Igreja Católica. Quer substituir sob o argumento de que a ciência, sim, é a verdadeira religião. Mas por que então copia a nomenclatura católica, que, aliás, inspirou também muitas igrejas ditas evangélicas, que substituíram os padres por pastores, mas não abrem mão dos bispos? A resposta talvez seja o poder. O bispo manda!

O clone humano é o grande pesadelo do terceiro milênio. Mas é também de um remorso terrível verificar o quanto nossa imprensa, em matéria de religião e de ciência, deixa a desejar. As editorias brasileiras, no caso da ciência, dirigem-se a chefes de departamentos, diretores, autoridades. Seria como cobrir a Renascença, por exemplo, sem ouvir Leonardo Da Vinci, e pautar apenas o chefe dele, caso trabalhasse numa estrutura de poder semelhante à universidade brasileira que aloca as principais instâncias de pesquisa entre nós.

O caminho é semelhante em literatura. Os editores aguardam o que os assessores de imprensa têm a dizer. É raro o caminho soberano, altaneiro, que consagra a liberdade do leitor: o editor passar numa livraria e escolher os livros que achar pertinentes e podem ser interessantes à editoria pela qual é o principal responsável. E nas editorias de religião, agora misturadas com ciência, apronta-se um mingau dos mais perigosos. Nitroglicerina pura!

(*) Escritor e professor da UFSCar, escreve semanalmente neste espaço; seus livros mais recentes são A Vida Íntima das Palavras e o romance Os Guerreiros do Campo

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