Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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Renata Gallo

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

CELEBRIDADE

“A Globo Deita No Divã”, copyright O Estado de S. Paulo, 12/10/03

“Já disseram que a atriz Malu Mader corresponde ao modelo ideal de beleza feminina, perfeita para campanhas publicitárias. Talvez seja por isso que tenha emplacado mais uma, a de um novo perfume. O problema é que quem está nos outdoors espalhados há duas semanas pelos grandes centros – incluindo a cidade cenográfica do Projac – não é a atriz Malu Mader, mas sim a empresária musical Maria Clara Diniz, sua personagem na novela Celebridade, folhetim de Gilberto Braga que estréia amanhã na Globo, às 21 horas – embora a emissora não ouse mudar a tradicional denominação de ?novela das 8?.

Mas, se Malu e Maria Clara são bonitas, famosas e bem-sucedidas, o que distingue uma da outra? Pergunta difícil até mesmo para Malu. ?Somos muito parecidas: a idade é a mesma, o jeito de vestir é parecido. Mas, em geral, acho que ela é mais desenvolta, que transita melhor com a mídia?, ela define.

Uma das intenções do autor é misturar as celebridades reais com as da ficção. Logo nos primeiros capítulos haverá um evento para a entrega do Prêmio Fama, promovido pela revista fictícia homônima. Os mestres-de-cerimônias serão Cláudia Raia e Edson Celulari e, entre os premiados, estarão o produtor de cinema Fernando Amorim, personagem de Marcos Palmeira, e o escritor João Ubaldo Ribeiro no papel de ?ele mesmo?.

Outros artistas ?reais? também já foram escalados para fazer participações especiais, como a cantora canadense Alanis Morissette, o grupo Simply Red, Marina Lima, Erasmo Carlos e Julio Iglesias.

Celebridade tem a pretensão de fazer um raio X sobre esse universo que, nos últimos anos, tem sido explorado à exaustão por revistas e programas de TV.

Sabe aquela mocinha que, apesar de não ter profissão definida, sonha em ser figurinha fácil em revistas de celebridades, ou aquela que, mês sim, mês não, está na capa, posando ao lado do novo pretendente ou dando explicações de por que o romance não vingou? Pois é, esse ?mundinho? todo estará no folhetim.

Prato cheio para o autor que, por tradição, adora colocar o dedo na ferida.

Em suas tramas, sempre tem alguém para dizer que o chamado Primeiro Mundo é melhor sim senhor, que a corrupção é inerente ao povo ou que dinheiro é moeda de troca para tudo. Basta recordar alguns de seus sucessos. Vale Tudo (1988), por exemplo, chocou ao mostrar o corrupto Marco Aurélio (Reginaldo Faria), dando uma banana para o Brasil e embarcando impune para o exterior.

Pátria Minha (1994) – sua última novela das 9 – questionou o caráter do brasileiro e a conjuntura do País, que acabava de passar pelo impeachment do então presidente Fernando Collor.

Além da célebre Maria Clara Diniz, a trama também irá mostrar os jornalistas e fotógrafos que vivem de escarafunchar a vida alheia. No caso, o papel do malvado-mor será de Fábio Assunção, o editor Renato Mendes na novela. Na verdade, não é a primeira vez que Gilberto Braga fala da imprensa. Em dose menor, O Dono do Mundo (1991) explorou o hábito de Vanda (Lucinha Lins) plantar notícias falsas em colunas sociais. Na época, houve até protestos do Conselho Regional de Profissionais de Relações Públicas do Rio. Em O Dono do Mundo também diversos cirurgiões plásticos mostraram-se incomodados com a falta de caráter de Felipe Barreto, médico interpretado por Antônio Fagundes.

Será que vem mais protesto por aí? ?Não sei como a imprensa vai receber isso, só sei que, até hoje, tive apenas duas classes que nunca reclamaram nada e, por isso, sempre pintei e bordei com eles. Eu tiro o meu chapéu para empresários corruptos e prostitutas?, diverte-se Gilberto Braga.

Para ele, a expectativa do profissional em geral é querer ver uma imagem positiva da sua profissão na tela. Gilberto lembra que em Espelho Mágico (1977), novela de Lauro César Muniz, até os artistas protestaram contra o modo como foram retratados na ficção. Na trama em questão, recheada com boas histórias de atores decadentes e comediantes fracassados, Lauro César misturou depoimentos reais dos atores do elenco – os protagonistas eram Tarcísio Meira e Glória Menezes – sobre suas vidas profissionais. O público não entendeu, ficou confuso e a novela não deslanchou.

Veto – Talvez por isso a Globo tenha recomendado que Gilberto mudasse a profissão da personagem de Malu Mader. ?A princípio, Maria Clara seria uma jornalista, mas a TV Globo recusou essa versão porque o público poderia confundir a ficção com o jornalismo da emissora?, diz. Faz sentido: basta o fato de William Bonner e Fátima Bernardes, a cada aniversário de seus trigêmeos, saírem involuntariamente na capa de Caras.

Segundo o autor, a alteração foi, na verdade, um ganho. ?Não estava seguro, tinha medo e acho que seria muito difícil de escrever. O tema é fascinante, mas melhor fazer um filme com ele.?

Gilberto acredita que os shows irão dar um charme à trama. A direção de Celebridade é de Dennis Carvalho, mas quem comandará os espetáculos será Roberto Talma, mais expert em palcos. Em sua dobradinha com o autor em Água Viva (1980), Talma comandou a participação de Jimmy Cliff no folhetim.

?Quando comecei a escrever a novela era o Talma quem iria dirigi-la, então pensei no que ele gostaria de fazer e sei que ele adora shows.?

O enredo – A trama central vai contar a história de Maria Clara, a empresária que, há 15 anos, foi marcada pela morte do seu noivo. Por causa disso, Clara é receosa e não costuma se envolver com ninguém. No início da novela viverá um romance com o empresário Otávio (Thiago Lacerda), mas irá se decepcionar com o rapaz. A mocinha também sofrerá uma tentativa de seqüestro e receberá um golpe de sua funcionária Laura (Cláudia Abreu), a vilã da trama. Na descrição distribuída aos jornalistas, Laura tem definições paradoxais, como ?humilde, sedutora, suave, desprotegida, agressiva?…

Aliás, Laura irá matar a saudade dos órfãos de Mulheres Apaixonadas. Assim como Raquel (Helena Ranaldi), ela irá apanhar do companheiro, que, coincidentemente, também se chamará Marcos, mas será vivido por Márcio Garcia. Mas o foco é mais leve: ?Laura é um personagem de Nelson Rodrigues.

Tem suas fantasias, vive um amor bandido e pede para apanhar?, explica Cláudia Abreu. Em uma das cenas de ?despudor? gravadas pela atriz – e os capítulos iniciais estão recheadas delas -, Laura pede para o companheiro lamber seus pés. ?Ela é realmente louca?, completa Cláudia.

Depois de fracassado o romance com Otávio, Clara vai se envolver com o produtor de cinema Fernando Amorim (Marcos Palmeira). Nascido em família humilde, Fernando alcançou sucesso na Europa. Casado com Beatriz (Deborah Evelyn), volta ao Brasil consagrado para receber o Prêmio Fama e também para exibir seu sucesso ao sogro, o poderoso empresário Lineu Vasconcelos (Hugo Carvana), que nunca o aceitou como genro. Lineu, aliás, tem uma ligação antagônica com Maria Clara: é tio de Renato Mendes – a quem estima muito -, dono da revista Fama e patrocinador dos shows da empresária.

Deixando o glamour um pouco de lado, Celebridade também vai contar com um núcleo divertido, o dos moradores do Andaraí, bairro do subúrbio do Rio. É lá que estará o núcleo cômico da novela, composto pelas manicures Darlene (Deborah Secco) e Jaqueline (Juliana Paes) e o soldado do Corpo de Bombeiros Vladimir (Marcelo Faria). Vladimir é namorado de Darlene e é ele que, sem esforço algum, ficará famoso. ?Vladimir sempre teve como ideal ser bombeiro, mas, de tanto a Darlene aprontar, ele acabará expulso da corporação?, explica Marcelo Faria. Vladimir irá posar nu para a namorada, mas suas fotos irão parar na capa de uma revista.

É no Andaraí também que o jornalista, este considerado honestíssimo, Cristiano Reis (Alexandre Borges) irá morar com seu filho Zeca (Brunno Abrahão). Cristiano é viúvo e nutrirá um discreto amor pela também viúva Noêmia, papel de sua mulher na vida real, Júlia Lemmertz, que viverá em função do filho Paulo César (Paulo Vilhena).

Bom, se você anda farto do tom blasé das revistas de celebridades, a novela pode ser, no mínimo, uma boa distração. E com uma vantagem: você não precisará ir até um consultório médico ou disputar a revista da semana no salão de beleza.”

***

“Papéis Que Prometem”, copyright O Estado de S. Paulo, 12/10/03

“ANA BEATRIZ É A INVEJOSA ANA PAULA

Ana Paula Diniz Moutinho, interpretada por Ana Beatriz Nogueira, é a irmã invejosa de Maria Clara. Casada com o mulherengo Nelito (Taumaturgo Ferreira), tem três filhos e explora o quanto pode a irmã famosa. Aliás, ela, o marido, os filhos, juntamente com a mãe Corina, papel de Nívea Maria, dependem financeiramente da empresária. Apesar do fracasso profissional de seu marido e de não ter seu próprio dinheiro, Ana Paula tem grandes ambições, demonstra soberba e um elitismo que não lhe caberiam. Nem um pouco honesta, logo nas primeiras cenas tentará vender fotos íntimas do romance da irmã para a revista Fama.

DEBORAH EVELYN É A EGOCÊNTRICA BEATRIZ

Beatriz Vasconcelos Amorim, papel de Deborah Evelyn, é esposa do produtor de cinema Fernando Amorim (Marcos Palmeira) e filha do todo-poderoso empresário do ramo de comunicação Lineu Vasconcelos (Hugo Carvana). Superficial e egocêntrica, é dela que irão sair as principais críticas ao País, abordagem típica do autor Gilberto Braga. Volta ao Brasil depois de viver anos na Europa com o marido e seus dois filhos, mas seu casamento está desgastado. Quando percebe que Fernando está apaixonado por Maria Clara, ela alia-se aos inimigos da empresária, como seu primo, Renato Mendes (Fábio Assunção).

ISABELA GARCIA É A SACOLEIRA ELIETE

Eliete Coimbra é uma suburbana que tem pitadas de emergente. A personagem de Isabela Garcia adora usar roupas falsificadas, imitações de grifes famosas, que adquire em suas viagens ao Paraguai. Irmã do bombeiro Vladimir (Marcelo Faria), mora no Andaraí e ganha a vida como sacoleira, mas é muito bem relacionada. Uma de suas melhores amigas é Maria Clara. As duas foram colegas de colégio e até hoje mantêm uma forte relação. Eliete será escudeira de Maria Clara, não gosta de Ana Paula (Ana Beatriz Junqueira) e sabe que Laura (Cláudia Abreu) não é flor que se cheire.”

“Celebridade: uma indústria bem-sucedida”, copyright O Estado de S. Paulo, 12/10/03

“Celebridade, de Gilberto Braga, estréia amanhã na Globo apostando num filão que cresce assustadoramente no mundo todo. No Brasil, desde o lançamento da revista Caras, em 1993, o universo dos famosos tem sido cada vez mais consumido pelo público. De lá para cá, outras publicações do gênero e programas de TV multiplicaram-se. Até as revistas consideradas ?menos fúteis? apelam freqüentemente para os célebres. Brad Pitt, por exemplo, já foi chamariz para reportagem sobre budismo na norte-americana Time.

No novo folhetim, as celebridades serão a matéria-prima e o autor, que promete crítica ao ?mundinho?, também terá uma revista, a Fama – Fábio Assunção, que será Renato Mendes, o editor da fictícia publicação, pedirá logo de cara um ?corno? na capa. A Editora Globo estuda a possibilidade de fazer de Fama mais uma revista de verdade.

?Basta ir a uma banca e ver se é possível enxergar o jornaleiro, tamanha a quantidade de revistas sobre celebridades?, brinca Décio Piccinini, da Chiques. Caras, Isto É Gente, Quem e Chiques venderam mais de 476 mil exemplares por semana no mês de julho. Os dados, referentes ao total de circulação paga, são do Instituto Verificador de Circulação (IVC). Caras, a líder no gênero, passa pelas mãos de 2,5 milhões de leitores, segundo projeção para o Brasil baseada em dados do Ipsos Marplan. Isso porque os exemplares são quase sempre passados adiante. Nos salões de cabeleireiro, as capas despencam, de tanto serem folheadas.

?Uma novela como essa não emplacaria há sete anos. Hoje tem tudo a ver?, opina Daniela Mendes, da Isto É Gente, segundo ela, uma revista híbrida, que não fala somente de famosos. Afirma que as capas com Chico Xavier, pelo menos três, foram as que mais venderam desde 1999, quando nasceu a revista.

?As pessoas querem saber da vida dos célebres. Desde o regime que alguém fez até a separação de um casal importante. No mundo inteiro é assim. Até os jornais se renderam. Usam famosos para opinar sobre qualquer assunto?, afirma Andrea Dantas, de Caras, inspirada na espanhola Holla.

De acordo com dados do Ibope Monitor, o público dessas revistas é essencialmente feminino (cerca de 70%), das classes A e B (49%), de 12 a 19 anos (23%) e de 25 a 34 anos (22%) e gasta, em média, R$ 348 com cartão de crédito.

Na trama global, Fama terá um spa em Angra dos Reis – inevitável comparação com a Ilha de Caras. Adriane Galisteu, que já foi 33 vezes capa de Caras, não quis participar dessa reportagem. Alegou que não quer ser chamada de celebridade pura e simplesmente: ?é apresentadora de TV?, justificou seu assessor de imprensa. Xuxa, uma das campeãs, tem mais de 50 capas de Caras.

?Quando demos a capa do homem que conquistou a Adriane, o Roberto Justus, a revista foi o maior sucesso?, comenta Andrea.

?A Xuxa vende revista mesmo sem ter assunto ligado a ela?, observa Michelini Alves, da Quem, que aponta as separações e os namoros dos famosos como os assuntos favoritos – por isso Adriane Galisteu está em todas. Há flagras de verdade e flagras armados para mostrar os novos casais. ?Tem assessor que liga para falar que fulano vai estar em tal restaurante e para a gente ir e fingir que é um paparazzo?, comenta Daniela, que ri ao lembrar de quando Angélica e Maurício Mattar convocaram a imprensa, no estilo ?apareçam no show de beltrano que eles assumirão o namoro?.”

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