Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO DOS ANOS 90

Renata Lo Prete

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

JORNALISMO DOS ANOS 90

"Elogio da diferença", copyright Folha de S. Paulo, 2/08/03

"Mais conhecido pela cobertura de assuntos econômicos, o jornalista Luís Nassif dedica-se também, já há bastante tempo, a analisar o comportamento da imprensa. Influente colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, ele reuniu textos dessa segunda vertente de seu trabalho no volume ?O Jornalismo dos Anos 90?, recém-chegado às livrarias.

Cada capítulo aborda um caso de grande repercussão e contém, além dos escritos publicados por Nassif em seu espaço no caderno Dinheiro à época dos acontecimentos, uma introdução em que o autor procura contextualizar o episódio e dele extrair lições.

A linha de força do raciocínio de Nassif é o enfrentamento dos consensos que costumam formar-se rapidamente em torno de histórias impactantes, num ambiente geral de desinteresse por complexidades que não raro resulta na condenação prévia de uma das partes envolvidas.

O autor deu contribuição importante à elucidação de dois casos em que o julgamento da imprensa, formado em viciosa parceria com a polícia, revelou-se inteiramente equivocado -o da Escola Base (1994), cujos donos e funcionários foram moídos no noticiário até que se demonstrasse fantasiosa a acusação de que teriam abusado sexualmente de crianças, e o do bar Bodega (1996), em que três jovens confessaram, sob tortura da qual jornalistas tiveram conhecimento silente, assassinatos que não cometeram.

O livro mostra que os abusos não se limitam à condenação de inocentes. Nassif capta com acuidade o senso comum ao observar, a propósito do desmoronamento dos edifícios Palace 1 e 2 (1998), que, uma vez instalado o clima de revolta geral, ?pouco importa se nem todas as acusações forem corretas porque, de qualquer forma, ele [o ex-deputado Sérgio Naya] é culpado?. Proprietário da construtora dos prédios, Naya foi posteriormente considerado o responsável cível, que teria de indenizar as vítimas. A responsabilidade criminal, no entanto, coube ao projetista da obra.

O jornalista também é feliz ao detectar a ginástica verbal praticada pela imprensa na tentativa de apagar os rastros de seus enganos. O capítulo dedicado ao ?dossiê Cayman? (1998) me fez lembrar de tantas vezes em que o vi descrito como ?documentos de autenticidade não comprovada? sobre conta bancária que Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, José Serra e Sérgio Motta teriam em paraíso fiscal, quando já se sabia muito bem que tais papéis eram comprovadamente falsos.

Pertinentes no varejo, as críticas de Nassif acertam menos no atacado. No capítulo de abertura, ele advoga a tese de que os casos rememorados no livro são tributários do processo que culminou com a renúncia de Fernando Collor, cobertura que teria sido responsável pelo recuo generalizado dos padrões de qualidade da imprensa brasileira.

A idéia de que ?esquentamento de notícia?, ?desvirtuamento da objetividade? e ?manchetes que privilegiam o conflito? são fenômenos recentes -em contraposição a um passado em que o jornalismo teria sido mais sóbrio, isento e aprofundado- não resiste a uma consulta aos arquivos ou a simples exercício de memória.

Tampouco procede a relação de causa e efeito estabelecida entre os erros cometidos na década passada e ?a queda generalizada da circulação das publicações em 2000?, fruto, muito mais, de situação econômica que o colunista conhece bem.

O diagnóstico de que ?as Redações passaram a atuar com excessiva benevolência para com os erros cometidos pelos jornalistas? ignora o movimento de autocrítica que prosperou na esteira dos escândalos analisados. Ainda que se descarte parte das manifestações como palavreado sem consequência, o saldo é um debate público de escala inédita, com maior cobrança sobre os profissionais.

A própria análise do caso Collor, pródiga em adjetivação negativa, peca por confundir essencial com acessório. Muita barbaridade pseudo-investigativa foi tolerada, especialmente na etapa final, mas, sem a devida atribuição de pesos, fica a impressão de que o presidente foi derrubado por histórias desrespeitosas sobre supositórios de cocaína e intimidades da primeira-dama, e não por um misto de rapinagem descontrolada e isolamento político.

No capítulo sobre a Escola Base há um trecho revelador do pensamento de Nassif sobre o papel da imprensa. Ele conta que, impressionado com os primeiros dias do noticiário, sugeriu à chefia de reportagem da Rede Bandeirantes, onde trabalhava, ?ousar o caminho oposto: apostar na inocência dos proprietários da escola?. Ninguém lhe tira o mérito de ter despertado antes da manada, mas cabe observar que em inocência -ou culpa- não se ?aposta?. Inocência se presume, o que é bem diferente.

Igualmente problemático é o ensinamento de que ?toda denúncia é por princípio falsa, a menos que apresentem provas de que é verdadeira?. Errado. Toda denúncia é por princípio apenas denúncia. Não pode ser tratada como mais do que isso, mas devem-se buscar elementos que a desmintam ou comprovem. Descartá-la de saída contradiz a essência do trabalho jornalístico.

Nassif diz nutrir, desde a infância, ?admiração única por quem ousa enfrentar a unanimidade?. Critica os que enxergam a ?indignação como valor em si?. De fato, não é raro ver comentaristas que nem mesmo entendem o que lhes desperta revolta. Mas, adaptando a expressão, pode-se dizer também que Nassif prega, em seu livro, remar contra a maré, ser diferente, como valor em si. Para alguém que defende o refinamento das análises, trata-se de uma simplificação e tanto."

 

"Quero ser grande (I)", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 4/8/03

"Vou confessar: quando crescer quero ser Luís Nassif.

Esse desejo é antigo, mas sempre procurei esconder porque, você sabe, macho que é macho não chora e jornalista que é jornalista não elogia outro em público (essa é uma paráfrase de uma tirada do Nassif no livro…). Essa resistência, porém, desmoronou com a leitura simultânea do livro ?O Jornalismo dos Anos 90? e da coluna Painel de Controle, que passou a ser publicada em O Dia recentemente. Vou começar pela segunda.

Colunistas em geral, como se sabe, limitam-se, no mais das vezes, a botar notinhas para mostrar ao distinto público como são bem-informados, pouco se lixando se as notas têm ou não alguma relevância pública ou mesmo se entram em contradição com a realidade. Na economia, este proceder junta-se a outro, muito pior: a manipulação, inconsciente ou nem tanto, por parte das fontes, que faz com que a maior parte das colunas se tornem playground de lobistas. E parques de diversões bem baratinhos, já que os titulares não recebem grana, sentido-se felizes apenas por terem acesso fácil a gente poderosa, ficando, dessa maneira, com a sensação de que fazem parte do ?pudêr? (e, passando esta sensação para o público, pode-se cobrar bons cachês por palestras e consultorias, mas isso é outra história…).

Pois a coluna de Nassif n?O Dia difere de qualquer coisa que tenho visto na imprensa brasileira em geral, especialmente na Economia. A idéia da coluna é discutir temas na perspectiva de políticas públicas, mostrando, durante uma semana, todos os lados de questões que mexem diretamente com a vida do leitor, hoje e amanhã. A coluna se chama Painel de Controle porque o objetivo é botar na frente do leitor, qual um painel de carro, os pontos importantes para tomadas de decisão (projeto, tarefa, responsável e prazo para execução) fazendo com que ele, leitor – sempre tão desprestigiadinho, levado em conta só como consumidor, coitado – se sinta em condições de cobrar dos governantes a solução dos problemas que realmente interessam.

Mas tem mais. Nassif procura atingir o seu objetivo evitando ostensivamente a prática do esporte nada olímpico favorito dos coleguinhas que trabalham com economia: o ?arremesso de números?. Para a prática do esporte, os jornalistas pegam um monte de números – absolutos (com muitos zeros), relativos, percentagens, médias – e misturam tudo até formar um bolo que pareça bem consistente. Aí, é mirar e tacar no quengo do leitor. Se alguém reclamar, diz-se que se está dando as ferramentas para que o leitorado tire sozinho suas conclusões. No fim, o resultado é o mesmo de se dar um DVD com controle remoto para um sujeito em cuja casa nunca tenha havido energia elétrica: o caboclo fica sem saber o que fazer com aquilo. Em suas colunas (não só na Painel de Controle) Nassif usa os números como devem, creio eu, ser usados: como a pimenta nos pratos. Para realçar o sabor e não para fazer com que as papilas percam a sensibilidade.

Nassif escreveu também um excelente livro, ?O Jornalismo dos Anos 90?, no qual mostra como o jornalismo brasileiro descobriu uma maneira fácil de obter força política e grana ao mesmo tempo: o escândalo. Mas isso fica pra semana que vem, se Deus quiser. Ainda mais que vou discordar de um ponto do livro do mestre…

O Caso Maurren – Em seu livro, Luís Nassif desce a borduna na maneira como a imprensa brasileira trata assuntos de apelo popular pela via fácil do escândalo. Nesta semana, isso voltou a acontecer nas matérias obre o caso de doping da saltadora Maurren Maggi. Reclamei no blog das primeiras matérias sobre o caso, que, na prática, condenavam a atleta de antemão.

Não adiantou nem dizer que achava que havia 95% de chances de ela ter se dopado mesmo (nunca vi, em 30 anos acompanhando esporte, um exame desses dar errado e sempre, no fim, o atleta confessa que realmente fez bobagem), pois ainda assim recebi o seguinte emeio de uma veterano, conhecido e respeitado jornalista esportivo, que me honra com a leitura assídua do Picadinho Diário:

?Ivson, meu caro, li hoje as suas notas do Picadinho sobre a Maureen…

Até parece que você não foi repórter de esporte – e dos bons. TODO atleta de ponta SE DOPA! Se não se dopar, simplesmente, não vira atleta de ponta. A diferença está entre os que são pegos e os que escapam. E o segredo está no prazo em que deixam de tomar os esteróides, anabolizantes etc. Tudo é calculado de forma que o organismo deles elimine os últimos vestígios antes das competições mais importantes. Às vezes os cálculos não dão certo, como parece ter acontecido agora com a nossa Maureen (a quantidade encontrada é CAVALAR, não dá pra acreditar nessa balela de pomadinha…).

Remember Carl Lewis e outros mais nas eliminatórias americanas – escândalo que só veio a tona agora. Ou você acha, por exemplo, que o nosso bravo Nenê Hilário ganhou toda aquela massa muscular só puxando ferro e tomando todinho????

Acorda, amigão!?

Isso tudo é verdade (exceto a afirmação de eu ter sido repórter dos bons. Nunca fui. Só razoável). Então se todos os repórteres com mais de três meses na editoria de esporte sabem que todos os atletas de ponta se dopam, deduz-se, então, que todo este estrépito quando aparece um caso de doping é pura hipocrisia, pois não?

E daria para fazer diferente. A desculpa de sempre para não se fazer uma matéria sobre o doping no esporte é que ?todo mundo fala sobre isso em off, mas não em on?. Ora, como lembrou uma amiga recentemente sobre outro assunto, ?desculpa de aleijado é muleta?.

Tanto é assim que a Globonews fez uma boa matéria seguindo o caminho. Sem usar o depoimento de qualquer atleta ou treinador, mas ouvindo especialistas em medicina esportiva, fisiologia e outras ciência afins, e ainda pesquisa nos arquivos, foi produzida uma reportagem em que fica claro que os atuais limites do homem só podem ser superados com auxílios externos – e nem todos ilegais, pois há muita tecnologia sendo usada para atingir esse objetivo. Não só. Na matéria, os estudiosos avisam que a próxima geração de doping usará manipulação genética. Vai levar uns 20 ou 30 anos ainda. Deve dar tempo para a imprensa esportiva se preparar e não ser pega de surpresa.

Se, no entanto, a opção será por não ter trabalho e continuar no rame-rame, tudo bem. Mas neste caso, não dava para nos poupar pelo menos desta hipocrisia, não?

?Errei, sim!…? – O conselheiro Márcio Pinheiro avisa lá do Sul que os editoriais-senha do Correio da Manhã em 64 foram ?Basta!? (31 de março) e ?Fora!? (1? de abril). Bem, as palavras foram outras, mas idéia geral me parece a mesma…"

 

"Os perigos de manipular a notícia como espetáculo", copyright O Estado de S. Paulo, 2/08/03

"O jornalista político e econômico Luís Nassif lança hoje seu livro O Jornalismo dos Anos 90, às 11 horas, na Pinacoteca do Estado. A obra traz uma coletânea dos principais textos publicados pelo autor na última década, sobre casos polêmicos que envolveram a opinião pública, como a CPI do ex-presidente Fernando Collor, os escândalos do Bar Bodega e da Escola Base e casos como o do Osasco Plaza Shopping e de Chico Lopes. Todos atualizados e comentados por Nassif.

A intenção do autor é apontar o perfil do jornalismo exercido nos importantes veículos de comunicação. Segundo ele, nos anos 80, a imprensa descobriu o jornalismo de serviços e, nos 90, o denunciatório. ?No ano 2000, falta à imprensa se descobrir?, escreve Nassif. ?Os anos 90 se constituíram em um período perigoso para o jornalismo. Abusou-se do chamado ?esquentamento? da notícia, método que levou o jornalismo aos limites da ficção. Em nome do espetáculo atropelaram-se princípios básicos de direitos individuais, deixou-se de lado a objetividade e a isenção, abriu-se espaço para chantagistas, para dossiês falsos. Não raras vezes, levou-se o País à beira da desestabilização política.?

Nassif denuncia o período de glamourização da notícia, em que se perdeu o controle da qualidade e deu margem a todas as formas de abuso. Mas ele acredita que esse modelo tenha se esgotado. ?O papel da imprensa não é disputar a matéria escandalosa, mas refletir e esclarecer os fatos. Temos de reconquistar a credibilidade e a melhor maneira é ser sério, competente e capaz de entender o que é relevante para o País?, afirma."

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