Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Renata Lo Prete

Por lgarcia em 17/07/2002 na edição 181

ELEIÇÕES 2002

"Instituto mapeia cobertura dos jornais", copyright Folha de S. Paulo, 14/7/02

"Enquanto os jornais monitoram cada passo dos candidatos, um grupo de pesquisadores esquadrinha cada edição dos jornais. O trabalho se estenderá por toda a campanha, mas seus resultados parciais já permitem esboçar um mapa do comportamento da mídia impressa nas eleições presidenciais deste ano.

O estudo do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro) mede a quantidade e a qualidade das menções a cada um dos postulantes ao Planalto nas páginas dos principais diários.

No que diz respeito à visibilidade, os dados coletados entre 20 de fevereiro e 28 de junho mostram estreita relação entre o espaço destinado a determinado candidato e seu desempenho nas sondagens de intenção de voto.

?Como acontece na imprensa norte-americana, o padrão geral é determinado pela ?corrida de cavalos?, diz Marcus Figueiredo, coordenador do projeto. Mas não apenas por ela. No entender do cientista político, outros fatores interferem na ?noticiabilidade? do presidenciável.

Para ele, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria lugar de destaque na cobertura mesmo se não liderasse a disputa, tanto por concorrer pela quarta vez quanto por ser o nome mais claramente identificado como de oposição.

Da mesma forma, Figueiredo acredita que a condição de candidato do governo contribui para explicar por que José Serra (PSDB) teve, em vários momentos do período analisado, espaço maior do que o conferido a adversários em posição semelhante nas pesquisas. ?Da condição de governista deriva todo um noticiário que acaba por se agregar à candidatura?, afirma.

Em sua avaliação, o loteamento baseado na ?corrida de cavalos? se explica pela lógica de mercado que rege os jornais. ?Não dá para ignorar o interesse do leitor pelo que tem audiência.?

?Mecanismo Tostines?

A afirmação leva a crer que a cobertura está presa ao que poderia ser chamado de ?mecanismo Tostines?. Como saber em que medida o candidato tem mais exposição porque está na frente, e em que medida está na frente porque tem mais exposição?

Figueiredo reconhece o dilema, mas acha que, de maneira geral, a posição relativa na disputa determina o grau de visibilidade do personagem, não o contrário.

Ele lembra que Folha, ?Estado? e ?O Globo?, os jornais de maior penetração nacional, competem por um público grande e heterogêneo, não podendo, sob pena de perder terreno para os concorrentes, encampar uma candidatura e eliminar as demais das páginas.

Ainda que se observe um padrão geral de divisão, as fatias de cada um dos candidatos não são iguais nos três diários.

De acordo com a primeira série horizontal de gráficos reproduzida nesta página, a Folha destinou a Serra um espaço relativo expressivamente maior do que o obtido pelo tucano nos outros dois jornais -a linha vertical do quadro indica o número de aparições do candidato nos textos.

Na segunda parte do estudo, destinada a qualificar o tratamento dispensado aos presidenciáveis, a Folha aparece com os mais elevados percentuais de reportagens consideradas ?neutras?, em proporções semelhantes para os quatro candidatos.

O ?Estado?, nas palavras de Figueiredo, ?chama a atenção por ser mais benevolente com o candidato de sua preferência? -em editorial publicado há pouco menos de um mês, o jornal declarou apoio a Serra.

O ?positivo? predomina e está em ascensão na cobertura do tucano. O ?negativo?, nas de Lula e Anthony Garotinho (PSB). O ?neutro? só sobressai nos textos sobre Ciro Gomes (PPS).

No ?Globo? se verifica um quadro geral de equilíbrio, mas com características diferentes das observadas no noticiário da Folha. Para os quatro candidatos, as taxas de ?neutro? são menores. Porém, há mais semelhança entre as de ?positivo? e ?negativo?.

Padrões de escolha

Figueiredo pondera que os percentuais de reportagens ?positivas? e ?negativas? não derivam necessariamente da intenção editorial de promover ou perseguir uma candidatura.

O movimento ascendente de Ciro nas pesquisas de intenção de voto é, em si, um fato ?negativo? para Serra. Assim como o é, para Lula, a declaração do petista de que propina de R$ 40 mil é troco, em referência às investigações sobre a Prefeitura de Santo André.

Mesmo quando buscada e medida por uma série de parâmetros, a neutralidade jornalística é um conceito sujeito a debate.

O pesquisador também reconhece que desdobramentos da campanha -desde a escolha de um vice até a erupção de um escândalo- têm influência sobre a divisão de espaço, independentemente do quanto se planeje destinar a cada candidato.

Mais do que no destaque dado a notícias isoladas -?positivas? ou ?negativas?-, Figueiredo acredita que a orientação editorial se faz perceber em padrões de escolha e hierarquização dos assuntos. ?As decisões políticas da imprensa, um dos atores do processo eleitoral, começam com a seleção do que publicar?, diz.

Inspirada em estudos semelhantes conduzidos nos EUA e na Europa, a avaliação dos jornais é parte de um projeto do Iuperj a respeito do papel da mídia na definição do voto.

A iniciativa tem precedentes no país. O Datafolha, por exemplo, realiza medições desse gênero desde o pleito de 1989. Também não é a primeira vez que o Iuperj se debruça sobre a cobertura jornalística de eleições, mas o trabalho este ano será mais amplo.

Além de veículos impressos (está em curso um capítulo sobre as revistas, ainda sem resultados consolidados), o projeto incluirá o noticiário dos telejornais, a propaganda eleitoral e uma pesquisa nacional com 2.000 entrevistas."

***

"Levantamento divide textos em três categorias", copyright Folha de S. Paulo, 14/7/02

"O estudo do Iuperj divide reportagens entre ?positivas?, ?negativas? e ?neutras? de acordo com seu efeito potencial para determinada candidatura, independentemente de intenção de viés ou parcialidade jornalística.

São considerados ?positivos? textos que reproduzem programa de governo, promessas do candidato ou ataques a adversários, bem como matérias com declarações simpáticas do autor ou de terceiros. Resultados favoráveis obtidos em pesquisas de intenção de voto entram nessa categoria.

São classificadas como ?negativas? as reportagens que contêm críticas ou ataques ao candidato feitos pelo autor ou por terceiros. Resultados adversos em pesquisas também contam.

Figuram como ?neutras? as matérias de agenda e as que não incluem ?nenhum tipo de avaliação moral, política ou pessoal do candidato?, define o cientista político Marcus Figueiredo, coordenador do estudo.

Segundo ele, muitas vezes os pesquisadores se deparam com reportagens que possuem traços ?positivos? e ?negativos?. Nesses casos, avaliam qual é o enquadramento dominante.

Elementos editoriais de destaque -como títulos, subtítulos e legendas de fotos- prevalecem sobre o corpo do texto.

Os critérios do Iuperj para definir as três categorias são bastante semelhantes aos utilizados nas avaliações de cobertura eleitoral realizadas pelo Datafolha.

Mas há diferença no valor atribuído aos relatos de pesquisas. O instituto do Rio os julga ?positivos? ou ?negativos?, a depender do resultado obtido pelo candidato.

O Datafolha os classifica como ?neutros?, desde que observadas a margem de erro do levantamento e outras exigências técnicas.

Para quantificar o espaço, o Iuperj leva em conta o número absoluto de citações a determinado candidato no conjunto de textos do jornal.

O Datafolha trabalha com espaço medido em cm2 e computa, além dos textos, fotos e gráficos."


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"Com ressalvas, diretores de Redação aprovam estudo", copyright Folha de S. Paulo, 14/7/02

"Responsáveis por jornais avaliados no projeto do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro enxergam mérito e utilidade no levantamento, mas chamam a atenção para as armadilhas da classificação do noticiário.

Para Otavio Frias Filho, diretor de Redação da Folha, estudos como esse ajudam a aperfeiçoar o trabalho da imprensa, ?em especial quando têm a chancela de um instituto sério como o Iuperj?.

Ele nota, porém, que a atribuição de conceitos como ?positivo?, ?negativo? e ?neutro? é ?sempre passível de controvérsia quando aplicada a casos concretos?.

Frias Filho ressalta que o tripé formado por apartidarismo, pluralidade e crítica ?faz parte da essência programática da Folha?.

Em sua avaliação, disso resulta empenho para que os textos sejam tão descritivos e isentos quanto possível, o que ajudaria a explicar o elevado índice de noticiário considerado ?neutro?.

?Mas jornalismo não é estatística?, pondera. Ele acha normal que a candidatura Serra tenha merecido mais espaço na Folha. ?Sua viabilização foi a grande incerteza política no período analisado.?

Também o diretor de Redação de ?O Globo?, Rodolfo Fernandes, vê com reservas o procedimento de classificar as reportagens nas três categorias.

Em seu entender, os critérios serão sempre relativos. ?Serra dar nota 7,5 para o governo Fernando Henrique é ?positivo? ou ?negativo?? E Ciro dizer que vai alongar o perfil da dívida interna? E Lula afirmar que o PT mudou??

Apesar da ressalva, ele considera o trabalho relevante para avaliar os rumos da cobertura. Acrescenta que ?O Globo? faz semanalmente seu levantamento do espaço destinado aos candidatos à Presidência a ao governo do Rio.

?Até aqui, os propósitos de equilíbrio, imparcialidade e profundidade vêm sendo atendidos?, diz. ?Os resultados do Iuperj confirmam nossa pesquisa interna.?

Ele observa ainda que o ?positivo? para a imprensa e o leitor nem sempre o é para os candidatos. ?Por eles só publicaríamos o blá-blá-blá de campanha, e nosso objetivo é justamente aproveitar a eleição para debater políticas públicas relevantes para o país e suas reais chances de implantação.?

Procurada, a direção do ?Estado? não quis se manifestar
sobre as conclusões da pesquisa."

 


"Mídia, denuncismo e democracia", copyright Folha de S. Paulo, 9/7/02

"Fernando Collor de Mello tinha duas características perigosas. Uma, francamente negativa, a falta de limite com os esquemas de arrecadação política. A segunda, muito mais perigosa, o voluntarismo extremado. O voluntarismo ajudou a remover alguns obstáculos à modernização, mas poderia ter gerado um ditador não fosse a primeira característica e a credibilidade da mídia, que permitiu agir como poder moderador, ajudando a alijá-lo do poder.

Doze anos depois, corre-se o risco de um presidente tão voluntarista quanto Collor, sem sua fragilidade moral, e com dois dos principais fatores de moderação -mídia e Ministério Público- desmoralizados pelo abuso do denuncismo por parte dos seus.

Tem-se hoje, em diversos Estados, alguns dos principais denunciados pela mídia crescendo nas pesquisas, demonstrando a perda de eficácia das denúncias. Mais que isso, o denuncismo misturou alhos com bugalhos, honestos com ladrões, faltas leves com crimes, condenou inocentes e alforriou suspeitos óbvios pela incompetência de recolher provas, afetou a imagem das instituições e dos governantes, transformou rumores em denúncias, desmoralizou o processo jurídico e as alianças políticas. O leitor e telespectador estão completamente desorientados.

Se alguém voluntarista como Collor emergir das eleições, quem vai segurá-lo? A ?Carta Aberta a Luiz Ignácio Lula da Silva?, de autoria de Eduardo Jorge, merece uma publicação na íntegra e uma análise mais aprofundada sobre esse processo. Quando o próprio PT estimulou a aventura irresponsável da CPI da Corrupção -uma CPI para apurar mais de 20 denúncias genéricas- alertei que esse processo se voltaria contra o próprio partido, porque o monstro que nasceu desse casamento espúrio entre cobertura leviana e procuradores irresponsáveis ganharia vida própria, até se desmoralizar por si.

No momento da catarse, esses alertas são dificultados por patrulhamento de toda espécie. Cria-se a catarse, bom senso é confundido com adesismo, ponderação com rendição, e tenta-se calar os alertas com patrulhamento. O patrulheiro se sente fortalecido pelo apoio dos linchadores, goza o momento de glória, é autor e intérprete da indignação popular. Depois, quando a imagem da imprensa se esboroa, a autoria torna-se difusa. Os divulgadores de dossiês falsos, os estimuladores do denuncismo se retraem, mas aí o mal está feito. E afeta a imprensa como um todo.

O mesmo ocorre com o Ministério Público. A cada dia que passa, mais difícil se torna a vida do procurador que se dedica com seriedade ao seu trabalho, porque sua palavra vai perdendo força, e sua legitimidade vai sendo questionada devido aos abusos cometidos por meia dúzia deles.

Quando um procurador comete uma leviandade, denuncia sem provas ou, pior, sem crimes, afeta o trabalho de todos os seus pares comprometidos com a seriedade e com a discrição e o próprio Poder Judiciário que, tendo de debruçar sobre provas, não acolhe as denúncias propaladas.

A denúncia foi um exercício risonho e franco nos últimos oito anos, devido ao espírito democrático de Fernando Henrique Cardoso. Pode-se e deve-se criticá-lo pelos erros de política econômica, jamais pelo autoritarismo. Com ele, o Executivo se manteve inteiro por conta de alianças políticas, não da coerção.

Agora que se vai chegando ao final do governo, e há o risco de um candidato voluntarista no poder, paira no ar a incômoda sensação de que não se tem uma democracia consolidada, as ferramentas fundamentais de controle do poder -como a mídia e o MP- estão debilitadas e terão que ser reforçadas, para o bem da democracia.

Só que esse reforço depende exclusivamente da retomada da responsabilidade, do critério, porque sem uma mídia forte, dependendo de quem entrar, será difícil manter a estabilidade democrática."


"Os ?mancheteiros? da campanha", copyright Folha de S. Paulo, 16/7/02

"No jornalismo existe o ?lead?, a manchete e o artigo de fundo. ?Lead? é a abertura da matéria, onde se resume a idéia principal. Manchete é o título, que deve destacar em uma linha o teor da reportagem. E o artigo de fundo é o aprofundamento do tema.

Há que se tomar cuidado com as propostas dos candidatos à Presidência da República. Há excelentes ?mancheteiros?, bons autores de ?leads?, mas poucos autores de artigos de fundo.

Quando uma pessoa defende determinado tipo de reforma tributária, podem ocorrer três coisas. A primeira, ele não saber sobre o que está falando. A segunda, saber o que é a idéia ?in?, aquela mais bem aceita pelos especialistas na matéria. A terceira, ele ser o estudioso, capaz de identificar vantagens e desvantagens da idéia proposta.

Na geléia geral da campanha e das coberturas, só passam a manchete e o ?lead?. Dizer que fulano é a favor da desoneração das exportações, da simplificação tributária ou do equilíbrio fiscal significa o mesmo que eu dizer que o sistema de ultracentrífugas é mais eficiente que o jett nozzle para o enriquecimento de urânio. Nenhum físico vai me contestar. Mas, de qualquer modo, eu continuarei não tendo a menor capacidade de entender o funcionamento de um sistema e outro.

Temas como reforma da previdência, reforma tributária, guerra comercial, incremento de exportações, aumento da eficiência da gestão pública não podem ser tratados apenas como um enunciado de boas intenções. Dê-me um bom piloto de fonte que eu produzirei uma coluna tecnicamente impecável sobre a arte de pilotar. Mas não me dê nenhum avião, porque serei pior que o comandante Garcez (aquele famoso piloto que em vez de voar para o norte voou para o sul).

O próprio mercado, essa entidade abstrata e que se comporta em manada e, de resto, bastante superficial em suas análises, fica julgando os candidatos dentro da ótica do ?economicamente correto?. Basta repetir algo que o consultor diz para ser assimilável.

Conduzir o Brasil é muito mais que isso. Exige conhecimento detalhado de cada tema, avaliação das implicações sobre os diversos ângulos de análise, formação de equipe operacional competente, humildade para não se julgar dono de todas as soluções.

É evidente que, no decorrer de uma campanha eleitoral, apenas a opinião pública mais bem informada saberá discernir os candidatos, de acordo com graus de aprofundamento com que tratam os grandes temas nacionais. Haverá aqueles que não conseguem chegar ao bom diagnóstico, os que chegam ao diagnóstico superficialmente e os que dispõem de diagnósticos e planos de ação.

Um dos grandes problemas dos diversos discursos é essa ênfase monocórdica nos aspectos fiscais, monetários e cambiais da política econômica. Há razoável consenso sobre o que tem que ser feito. Mas quase nada é cobrado em termos de política de desenvolvimento, política científico-tecnológica, gestão pública, governo eletrônico, programas de qualidade para a educação e área social em geral, políticas de estímulo à inovação e às pequenas empresas.

Infelizmente, 20 anos após o final da ditadura, 30 anos após o ?milagre?, a discussão pública continua pautada pelo economicismo ligeiro, que trata a economia pelos grandes agregados apenas, sem conseguir avançar em questões substantivas, que modificam a realidade e preparam o futuro.

Procedimentos jurídicos

Tenho defendido radicalmente a observância dos procedimentos jurídicos como forma de impedir abusos de autoridade e desrespeito aos direitos individuais. Do mesmo modo, tenho criticado a falta de conhecimento técnico nas críticas que comumente se faz ao Poder Judiciário, assim como o impulso acusatório do Ministério Público.

Mas, a partir das competentes reportagens de Frederico Vasconcelos sobre o caso do TRT, não ficou clara a posição do juiz Mazloum ao absolver Luiz Estevão das acusações que pesavam sobre ele e, mesmo, ao justificar o não-indiciamento do perito que recebeu dinheiro dos acusados.

Há o formalismo que impede a Justiça, mas há também o formalismo que impede a punição."

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