Terça-feira, 16 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
Menu

PRIMEIRAS EDIçõES >

Renata Lo Prete

Por lgarcia em 02/10/2002 na edição 192

ELEIÇÕES 2002

“O vermelho e o azul”, copyright Folha de S. Paulo, 30/09/02

“Pouco antes do horário gratuito de 1998, a equipe que então cuidava do marketing de Lula decidiu ?desavermelhar? a propaganda do candidato. Usou a cor histórica do partido apenas para pintar o número 13 e foi ao ar com muito branco, acrescido de toques de verde-e-amarelo.

?O que não queremos é apresentar um Lula raivoso e assim reforçar o preconceito contra ele?, justificou à época um dos publicitários da campanha.

A diretriz durou um programa. Forte reação, dentro do PT, ao que se considerou uma descaracterização de imagem determinou a ressurreição do vermelho.

Com uma cor ou com outra, aquela foi uma disputa em tudo desfavorável ao petista, derrotado já no primeiro turno.

Hoje, filtrado pela lente de Duda Mendonça, o vermelho domina a propaganda de Lula. Não está apenas na estrela e nas bandeiras, mas em toda a ambiência dos programas de televisão.

Dá o tom da sala onde os ?notáveis? se reúnem para ajudar Lula -e, desde a semana passada, também para aplaudi-lo, inflexão reveladora do cenário com que trabalha o marqueteiro. É a cor do fundo sobre o qual são projetados itens do ?programa de governo?, quadro de presença obrigatória no horário petista.

Preservando, de forma reciclada, a simbologia do partido, Duda Mendonça encontrou outros meios para suavizar a imagem de Lula e vaciná-la contra: a) preconceitos, na visão de simpatizantes; b) pontos fracos do candidato, no entender de adversários.

Para isso contribuiu, sem dúvida, o talento do marqueteiro. Mas seria equivocado enaltecer a comunicação e esquecer que a campanha petista é realizada em condições políticas ótimas.

Fala a um eleitorado majoritariamente desejoso de mudança e que viu seguidas opções não-lulistas caírem pelo caminho.

Enquanto seu principal adversário se enreda na tentativa de explicar que é governo, mas não muito, Lula está à vontade para vender na TV um futuro sem conflitos. No mundo encantado da propaganda petista, empresários e trabalhadores estarão sempre do mesmo lado, as invasões de terras vão acabar e o país, prometeu o candidato em debate recente, ?não vai quebrar?.

Nesse contexto, o vermelho dos programas não transmite ?raiva?, como se temia quatro anos atrás, mas calor e um sentimento ?para cima?. No horário de Lula não há sinal do Brasil triste, confinado às propagandas de Garotinho e principalmente de Ciro.

Em comparação, o azul tucano, que bem serviu FHC em 1994 e 1998, parece agora frio e ?para baixo?. A despeito do esforço publicitário, não está fácil achar quem acredite que ?a mudança é azul?, como canta Nana Caymmi em um dos jingles de Serra.

A culpa obviamente não é da cor, cuja principal função é dar à propaganda uma unidade visual, fazendo com que o eleitor a reconheça no mar de ofertas do horário gratuito. Mas o contraste ilustra bem a diferença de circunstâncias, tão favoráveis a Lula quanto adversas para Serra.

No fundo, a propaganda é julgada exclusivamente com base na situação do candidato na disputa. Os políticos tucanos que haviam aplaudido a ofensiva anti-Lula se voltaram contra os marqueteiros uma vez constatado o prejuízo nas pesquisas.

E os marqueteiros, que anunciaram com entusiasmo à imprensa o ?início da guerra total?, agora se consideram mal-interpretados, pois queriam apenas ?debater idéias? e ?apontar contradições?. Como diz a peça teatral, assim é, se lhe parece.”

“Política ainda não rima com Internet”, copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 29/09/02

“Se havia alguma esperança de que o pleito de 2002 seria a primeira grande campanha da Internet, frustrou-se. Foi um ano de experiências que deixam lições para a próxima. Na rede, os sites dos quatro principais candidatos à presidência da República, desiguais entre si, fizeram pouco e ficaram aquém do potencial da mídia. Os motivos são vários – o primeiro talvez cultural. Dos quatro, apenas Ciro Gomes usa computador em seu dia-a-dia.

Mas, como lembra Hiro Kozaka, diretor do site de pesquisas e opinião iVox, ?o grande problema da Internet é que ela atinge apenas as classes A e B?. Botando em números, dos 110 milhões de eleitores, apenas 10% estão online – e isso não quer dizer que se interessem. No mês de agosto, os brasileiros leram 75 milhões de páginas na web com notícias. Parece um bocado, mas esmiuçando os detalhes, não é. Segundo estes números, que são do Ibope, notícia pode ser qualquer coisa, inclusive as últimas da viagem de Sandy e Júnior pela Europa. No maior portal brasileiro, o UOL, o site dedicado às eleições junta no mesmo período pouco mais de um milhão de páginas lidas.

Não é de surpreender, pois, que nas mídias que os candidatos têm à disposição para se expor ao público, tevê e rádio sejam cuidadas com mais carinho e relevância. Os sites se resumem, em grande parte, à dobradinha noticiário e divulgação de biografias e programas de governo. É verdade que, em alguns casos, as mídias se integram. ?Muita coisa que foi para a tevê e para o rádio veio do site?, conta Jean Boëchat, coordenador de Internet da campanha Serra. O motivo é dos mais simples: concentrado o material produzido pelos jornalistas a serviço da candidatura num só lugar, fica fácil separar joio do trigo. Ao todo, os sites custarão 3 milhões de reais aos quatro.

Jean é blogueiro dos mais antigos na Internet tupinambá e trabalha com a mídia desde que ela nasceu no Brasil. Por conta, o site de José Serra é fácil de navegar, bonito graficamente, organizado. Oferece acesso ao conteúdo dos programas na tevê e rádio. Tem jeitão, como os de Ciro e Garotinho, de site de jornal, organizado editorialmente com manchete, menu à esquerda e um enfileirado de notícias num colunão central. Neste sentido o de Lula é mais original – organizam-se, tanto o conteúdo quanto o menu – numa tela só do computador, facilitando ao usuário que encontre rápido o que procura. Mas original apenas no sentido de diferente. É uma cópia do site da Apple sem um certo gingado no design e alguns dos itens no menu requerem um clique para que sejam decifrados. Não é característica exclusiva do seu – os concorrentes sofrem do mesmo mal. Eficiência no de Lula encontra-se na loja eletrônica, bem divulgada e apta a ajudar no financiamento da campanha.

?Os sites estão construídos para quem procura mais informação, não tanto para divulgar?, explica Hiro. Pensar numa boa estratégia para contaminar a rede com campanha não é fácil, principalmente quando o dia-a-dia está pegando fogo nas ruas. No caso de Serra, procurou-se uma mobilização virtual, distribuindo missões para os internautas mais engajados – ?distribuir textos, cartões, jingles, difundir idéias?, conta Jean.

Outro bom exemplo é regional. ?Construímos o site para que ele centralizasse a campanha, fosse o núcleo de toda a informação que temos de maneira a facilitar nosso próprio trabalho de alimentar os comitês, a imprensa, nós mesmos.? Quem diz é Luís Marcelo Mendes, também veterano da rede e diretor da TecnoPop, empresa carioca contratada para cuidar na rede da campanha da candidata pefelista ao Palácio Guanabara, Solange Amaral.

Só que Internet não é só isso. Parado lá, o site é mudo, não desperta paixões, matéria-prima básica da política. Há quem tente, principalmente entre candidatos ao legislativo, aproximar-se do eleitor de maneira mais calorosa invadindo sua caixa-postal. É a maneira mais barata e aparentemente fácil de atingir o eleitor. Também a mais amadora, é o spam, mensagem indesejada que desperta uma compreensiva reação mal-humorada de quem tem mais o que fazer ou espera um email urgente. Se não havia dúvidas de que o spam viria, alguns surpreendem por conta do tipo de gente que os envia. O deputado federal paulista José Dirceu (PT), por exemplo, ou o senador carioca Artur da Távola (PSDB) – parlamentares, ambos, de quem se esperaria com justiça mais sofisticação digital.

Não quer dizer que estruturar uma campanha na rede de forma criativa e eficiente seja elementar – não é. Para tanto, faz-se preciso compreender a cultura da Internet pelas entranhas e conseguir produzir disto um efeito. Tanto Jean quanto Luís Marcelo concordam que a tendência é a Internet ganhar força com o tempo e seu próprio crescimento. ?Muita gente importante aqui considera a Internet o grande case destas eleições?, diz o coordenador de Serra. ?A quantidade de idéias que vão nascendo é muito grande?, complementa o coordenador de Solange.

Em rede, a informação ganha vida pelo zigue-zague que faz de uma caixa-postal para a outra, no reenvio de mensagens entre amigos. A informação tem que agir como um vírus altamente contagioso que todos querem divulgar. Do correio eletrônico pula para os blogs, ?olha que engraçado?, ?agora isto é sério?, ?apóio esta campanha!?, selos gráficos que vão se multiplicando pelas páginas pessoais espontaneamente.

E como produzir tal efeito? É o mesmo princípio que qualquer campanha publicitária pretende atingir e que, nesta campanha de 2002, pelo menos um movimento político o fez. Seu líder garante ser um estudante de direito e se assina subcomandante Luís Pareto. Até que provem o contrário, é pseudônimo. ?Recebemos mais de 1.500 emails de pessoas aderindo e avisando de outras cédulas de resistência em todo o estado?, ele conta.

O ?subcomandante? criou num site de hospedagem gratuita no portal Globo.com o Movimento Rosinha Não, para impedir a eleição da senhora Garotinho para o governo Rio de Janeiro. Bem trabalhado graficamente, coisa de profissional, o site disponibiliza para download imagens de adesivos, estampa de camiseta, o que servir de subsídio para que os internautas produzam seu material de casa. ?Soubemos que uns caras na PUC pegaram a arte e fizeram uma tiragem absurda. Isso sem falar nas pessoas que fazem transfer em camisetas a ferro de passar.? Quer dizer, conseguiram o supremo que é, nascendo no mundo virtual, ganhar as ruas no real.

É, portanto, no mínimo curioso que o melhor produzido pela Internet nesta campanha não defenda candidato nenhum – apenas invoque aqueles de quaisquer outros partidos que sejam contra uma sigla. Ou, talvez, seja até covardia – dada a situação do país, contra é mais fácil.”

“Entre a intenção e o voto”, copyright Folha de S. Paulo, 1/10/02

“Apenas cerca de 3% dos eleitores irão às urnas no domingo determinados a votar em branco ou anular o voto para presidente. É um contingente que agirá de forma consciente, seja por protesto ou falta de opção. Seus votos serão desprezados no cálculo que determinará a necessidade de realização do segundo turno.

A apuração final mostrará que a esses não-votos, ou ?votos bronca?, como são chamados na Argentina, serão acrescentados cerca de 15% de votos anulados acidentalmente por erro no manuseio da urna eletrônica ou por pressa ocasionada pelo número de cargos e pela pressão das filas. Serão eleitores que, com intenção de voto definida, não conseguirão transformá-la em voto válido.

O fenômeno já ocorria com as cédulas de papel. Muitos dos votos deixados em branco eram fruto mais da apatia do que sinal de protesto. Havia também votos anulados por erros de grafia ou desconhecimento da forma correta de votar. Quem queria protestar anulava o voto escrevendo mensagens ou nomes fictícios na cédula. A introdução do voto eletrônico impossibilita essa prática, mas amplia a possibilidade da anulação involuntária. Por outro lado, diminui a incidência de votos brancos. Já abordado anteriormente neste espaço, a compreensão desse fato é importante para a avaliação correta do resultado final e dos números das últimas pesquisas.

Em 1998 a eleição foi totalmente informatizada em alguns Estados. Estes fornecem bons exemplos das mudanças na dinâmica do voto para presidente. No Rio de Janeiro, em comparação com 1994, os votos brancos caíram de 6,1% para 3,3%, e os nulos subiram de 8,9% para 12,0%.

Essa mesma comparação feita em Alagoas, Estado com maior taxa de analfabetos, torna-se ainda mais reveladora: em 94, 13,3% dos eleitores deixaram suas cédulas em branco, já em 98 apenas a metade (6,3%) digitou a tecla branca da urna. Em compensação, os votos nulos aumentaram de 16,3% para 21,1%.

No total do país, 9,2% dos eleitores votaram em branco para presidente em 94, todos votando em urnas tradicionais, taxa que caiu para 8,0% na eleição seguinte, quando 57,6% usaram urna eletrônica. Por sua vez, os votos nulos subiram de 9,6% para 10,7%. Agora, com a nova forma de votação chegando aos grotões, é plausível supor que cairá ainda mais a taxa de brancos e subirá a de nulos involuntários.

Os votos brancos representarão de maneira mais próxima o contingente de eleitores insatisfeitos que, de forma consciente, não votarão em ninguém. Os nulos, em sua maioria, serão votos desperdiçados, perdidos em meio aos desacertos do eleitor menos informado ou mais afobado, sem condições de externar seu voto.

Isso retira do processo eleitoral uma parcela de eleitores já em condição de exclusão social mas que, por dever ou desejo, comparecerão às urnas, enfrentarão as filas e tentarão digitar suas opiniões sem conseguir. Seus intuitos ficarão registrados apenas nas pesquisas de intenção de voto.

Em decisões apertadas, o candidato cujo eleitorado tenha uma concentração maior entre os mais escolarizados poderá ser favorecido em alguns pontos percentuais. É o caso de Lula. Não é o de Garotinho. Já Serra e Ciro têm os votos distribuídos de forma mais homogênea. Em uma eleição que chega ao final com a perspectiva de decisões milimétricas, este pode ser o detalhe que decidirá a necessidade de haver segundo turno e, em havendo, quem será o adversário de Lula. (MAURO FRANCISCO PAULINO, diretor-geral do Datafolha, escreve às terças-feiras nesta coluna)”

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem