Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CRÍTICA / "REALITY SHOWS"

Renato Janine Ribeiro

Por lgarcia em 20/01/2001 na edição 105

QUALIDADE NA TV

CRÍTICA / "REALITY SHOWS"

"Sadismo indireto", copyright O Estado de S. Paulo, 14/01/01

"Quero apontar um lado pouco comentado dos reality shows: sua violência, seu sadismo discreto. As pessoas são levadas, pelas regras do jogo, a ações que normalmente não praticariam. Não falo do folclórico, como comer olhos de cabra. Penso nas relações humanas. Para isso vou comentar Fica comigo!, o programa de namoro da MTV, e No limite, a série da Globo que agora retorna ao ar.

É curioso que o produtor do novo show da Fox, Ilha da Tentação, diga que há um propósito sociológico em ver como se portam as pessoas, uma vez confinadas e acuadas. Mas como agiriam de outro modo, com as regras adotadas? Acho que é só por medo da reação que os produtores ainda não adotaram o regulamento de Auschwitz num desses shows.

Vejam com que delicadeza Fernanda Lima (Fica comigo!) ou Zeca Camargo (No limite) induzem as pessoas a se ferirem. ‘Pois é, chegou o momento difícil, agora alguém terá de ser eliminado’. Parece que Zeca lamenta o que vai acontecer, como se fosse inevitável, um decreto de Deus ou da natureza.

Mas é só uma regra do programa, uma regra convencionada, que poderia ser outra. É, porém, sempre a mesma, em todo show: jogar uns contra os outros.

Só que Zeca e Fernanda encarnam com tanta simpatia o papel de senhores da regra que esquecemos que o jogo poderia ser diferente.

Tomemos o Fica comigo! do último dia 8. Das quatro concorrentes, três foram descartadas às cegas, sem o objeto de desejo masculino as ver. Nenhuma se deprimiu muito com isso. Aí chegou a vez do rapaz olhar a quarta, a sobrevivente. Ele não quis namorá-la. E ela mal conseguia esconder a humilhação.

O erotismo feminino tem a ver com ser vista e admirada. As outras rejeitadas podem se consolar: o que não agradou foi minha conversa. A prosa, nessa idade, passa por algo externo à pessoa, passível de melhora. Já a última viveu a rejeição de seu corpo, que para o jovem é fator de insegurança e de afirmação da identidade, e teve de digerir – no ar – seu fracasso como mulher. É desumano.

Volto ao tema da regra. Uma apresentadora doce aplica a dura lex. ‘Meu amigo, fazer o quê? Você não pode ficar com todas… Tem que escolher’. Não há como odiar essa adorável representante da Lei. Nem como detestar o público que aplaude a rejeição, o drama.

Mas basta lembrar uma coisa: colhemos o que semeamos. De regras que geram conflito, só sai conflito. Esses shows não retratam a vida, ao contrário do que diz a Fox: eles produzem um tipo de vida que não é recomendável para ninguém. Não estamos vendo uma realidade, e sim um jogo, que poderia mostrar o melhor e não o pior das pessoas. Mas, para isso, é bom termos clara noção de que as regras são convencionadas e poderiam ser outras. Mais que isso:

que nós poderíamos mudá-las, adotando outras, melhores.

Nelson Piquet, logo após a morte de Ayrton Senna, disse num Roda Viva: o público da Fórmula 1 quer ver acidentes. É sádico. Mas quer acidentes que terminem bem. Eu diria mais: há um sadismo em muitos espetáculos que passam na TV. Eles apelam ao público porque este quer ver dor. Mas nem a TV nem o público têm a coragem de assumir isso até o fim – de confessar: queremos sangue.

Só vamos até o choro. Se a moça rejeitada em Fica Comigo caísse no pranto, nós nos sentiríamos muito humanos de compartilhar suas lágrimas. Teria dado dois prazeres ao público, o de vê-la (ou fazê-la) sofrer e o de sofrer com ela. Mas só deu o primeiro, aquele que o público e a TV fingem não sentir.

Nossa TV e nós mesmos seríamos melhores se fôssemos menos hipócritas. (Renato Janine Ribeiro é professor de Ética e Filosofia Política da USP)"

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