Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > BARRIGA

Renaud Revel

Por lgarcia em 06/06/2001 na edição 124



ITÁLIA

"O império do cidadão Silvio Berlusconi", copyright O Estado de S. Paulo / Le Express, 3/06/01

"Carlo Freccero, presidente da RAI 2, trabalhou com Silvio Berlusconi por mais de 20 anos. Esse intelectual ex-situacionista de 53 anos, homem de extraordinária franqueza, é considerado uma das inteligências mais fulgurantes da televisão européia. Foi longo e complexo o caminho percorrido por esse arauto da TV comercial italiana, que acompanhou, a mando de Berlusconi, todas as mudanças registradas em meados dos anos 80 na TV 5, em Paris, antes de se tornar efêmero conselheiro de Jean-Pierre Elkabbach na presidência da France Télévision. Hoje, no comando da RAI 2, ele solta frases ferinas sobre seu antigo patrão.

?Uma monarquia midiática, única na Europa, colocada sob o jugo de um homem de negócios, Berlusconi, que sujeitou todo um povo pelo poder dos meios de comunicação sob seu controle, comediante transformado em rei, que coloca todo o seu peso sobre uma opinião pública à deriva, sem mais nenhum ponto de referência…? Tal é a sociedade italiana vista por Carlo Freccero, definição tanto mais impressionante quanto se sabe que foi ele um dos responsáveis pela criação dessa mesma sociedade. Nela, não há mais idéias, nem projetos, apenas paetês e um espetáculo onipresente e asséptico. Mas, além disso, é um espelho inquietante aquele que Carlo Freccero coloca diante de nós e uma pintura bem mais negra que nos oferece: a de uma Europa onde o Estados e elites, atordoados pelas miragens da economia de mercado, teriam desistido de suas funções; um continente, comandado de Bruxelas, condenado à ?TV lixo? e cujo futuro pode se resumir a uma única palavra: niilismo.

Por que a Itália, que rejeitou Silvio Berlusconi em 1994 pelo exato motivo de que ele encarnava ao mesmo tempo o papel de chefe de Estado e imperador da mídia, resolveu reinstalá-lo no trono? E, assim fazendo, recolocou o audiovisual italiano no centro de todas as tempestades?

Carlo Freccero – Porque a Itália foi atingida pela cegueira. Sem que nos déssemos conta, esse país se deixou lentamente domesticar por um homem cujo único talento é ter compreendido toda a importância da televisão, um meio de comunicação onipotente sob muitos pontos de vista. O audiovisual italiano, seja ele público ou privado, tornou-se o primeiro suporte, o primeiro vetor da vida política do país. Mais ainda: ele é o alicerce e o fermento da trajetória de Silvio Berlusconi há duas décadas. Seu único caminho, seu único apoio. Penso que não existe um único dirigente de uma democracia ocidental cuja cultura e educação política tenham sido forjadas a esse ponto, e por meio da telinha. Da mesma forma, eu não acredito que exista em qualquer outra parte do mundo um Estado no qual a política seja tão dependente das operações de marketing, como se fosse qualquer outro produto de consumo de massa. Onde a forma suplanta o fundo, rebaixado então à sua mais simples expressão. Onde a imagem esmaga o pensamento. É assim que o poder absoluto da televisão impôs à vida política formas dramaticamente redutoras. Combinando a brevidade da mensagem com a grosseria do caráter de Berlusconi reduz o debate a uma seqüência de slogans publicitários. Assim, ele atinge seu objetivo: fazer com que a emoção prevaleça sobre a inteligência. E assim lobotomiza toda uma nação.

Como fica a Itália nesse estado de coisas?

Freccero – Estamos no direito de nos perguntarmos se essa democracia virtual não está prestes a se tornar simplesmente uma monarquia midiática dominada por um malabarista que – reconheçamos este talento – não tem rival em seu poder de hipnotizar a multidão. Para simplificar a realidade, encontrar as palavras justas, jogar com as combinações. E conciliar os extremos, casando acentos liberais os mais duros com a ordem moral melhor estabelecida. Mas, tomemos cuidado: uma comunidade que se entrega inteiramente a um único homem traz em si os germes do totalitarismo. As mídias, quando mergulham um povo no mais absoluto conformismo, podem se transformar em verdadeiros instrumentos de nivelamento. E mesmo de opressão.

Como é possível que os oponentes históricos de Berlusconi, de quem o senhor foi partidário – a centro-esquerda, os meios culturais, ontem tão prontos a se mobilizar, grandes veículos, como a RAI – pareçam hoje tão pouco combativos?

Freccero – Por fatalismo. Em 20 anos, a esquerda e a centro-esquerda, na Itália, deram prova de sua incapacidade de encontrar respostas. Incapazes de frear a ascensão do homem de negócios, hoje quase renunciaram. Vimos isso quando fizeram tímidas tentativas de reforma constitucional, logo enterradas. Em seguida, e isto é mais inesperado, os meios audivisuais que se esperava funcionassem como contrapeso – a começar pelo pólo público, encarnado pela RAI, tão combativa e tão possante no passado – conheceram um desvio do tipo ?berlusconiano?. Pode-se dizer hoje em dia que a televisão italiana, em seu conjunto, antecipou largamente a vitória de Silvio Berlusconi. Para constatar isso, basta escutar os círculos dirigentes, em Roma ou Milão. O que se discute quando a questão é o futuro da paisagem audiovisual e em particular a das redes públicas? Fala-se de seu conteúdo editorial? Não, mas de sua estratégia industrial. Trata-se apenas da privatização dos principais instrumentos de comunicação, até aqui geridos pelo Estado, e do lugar dos fundos de pensão americanos no futuro capital dessas cadeias, da RAI 1, em primeiro lugar. A hora não é mais a dos grandes debates sobre a missão do serviço público, mas da observação meticulosa das cotações da Nasdaq. Ora, esse desvio nada tem de especificamente italiano; faz parte do lote comum de muitos dos países europeus. Como por exemplo, a França, onde o debate sobre a privatização da France 2 não é mais um assunto-tabu. Há cinco anos, essa questão dilacerava a nação. Paris, Roma… tudo se passa como se a totalidade dos códigos genéticos que identificavam a paisagem audiovisual dos nossos dois países, e mais largamente a das televisões públicas européias, estivessem hoje em dia misturados. A única coisa que interessa à redes são as fatias de mercado, planos quinquenais, rentabilidade e orçamentos equilibrados. É o mesmo vírus que prolifera, o da economia de mercado e da rentabilidade a qualquer custo.

Na última década, na maior parte dos países ocidentais a questão da independência das informações nos grandes veículos foi acertada. Por que a Itália parece escapar a esse movimento?

Freccero – Na maior parte dos países da Europa, o jornalismo de fato conseguiu tornar-se independente face ao mundo político, mas nem por isso rompeu com outra forma de servidão: ao pensamento único. É assim que, na Itália, todos os quadros dirigentes das cadeias de televisão, sejam elas públicas ou privadas, pensam agora de maneira uniforme. Patrões da mídia, capitães de indústria, parlamentares, dirigentes políticos de todos os níveis – todos esses homens, que constituem o mundo das elites, dos que tomam as decisões, converteram-se a um conformismo beato. Essa nomenclatura deixou-se aspirar por um mesmo centro de gravidade: a abertura para o mercado.

A França e a Itália encarnaram, até a metade dos anos 90, o último bastião europeu contra a invasão da cultura ?ianque?. Que resta hoje do eixo Paris-Roma, trincheira da diversidade cultural?

Freccero – Nada. Neles também, na Itália e França, o Estado e seus dirigentes desistiram. Todos eles se revelaram suntuosamente incapazes de frear esse grande movimento que faz as televisões, públicas ou privadas, funcionarem segundo formatos e motivações essencialmente internacionais, quer dizer, americanos. As noções de autoria, criação e identidade cultural desapareceram das cartilhas. Rupert Murdoch fez suas compras nos quatro cantos da Europa e a exceção cultural, esse conceito tão caro a François Mitterand e a Romano Prodi, caro às elites, caiu em desuso, caiu no esquecimento. Ao mesmo tempo, o epicentro do poder se deslocou em direção ao norte da Europa: é Bruxelas atualmente, artesã zelosa da grande desregulamentação, que rege não somente o espaço midiático europeu, mas igualmente as políticas audivisuais nacionais.

Como o sr. explica o fracasso industrial da RAI hoje em dia?

Freccero – A obsessão pela rentabilidade a qualquer custo levou os dirigentes da RAI a imaginar uma televisão digna do setor privado, naquilo que ele tem de mais aliciante. A introdução da ?TV lixo? à imagem da programação de Big Brother no Canal 5 (e de Loft Story e logo em seguida de Survivor, na França, pela TF 1) é um dos piores exemplos disso. A partir do momento que se coloca como um fato consumado o poder absoluto da telinha, esse poder se reforça com outra idéia: o recurso à audiência. Não mais a audiência da maneira como ela deveria ser entendida – um tal número de espectadores contabilizados a uma determinada hora – mas a audiência publicitária, quer dizer, a parte do mercado, o novo parâmetro universal. Uma das conseqüências desse desvio é sem dúvida o desaparecimento progressivo de segmentos inteiros de nossa herança nacional. Daquilo que constitui a um tempo o patrimônio e a memória de uma nação. A televisão, quando passa a andar fora dos trilhos, a aplainar as consciências, a destruir as referências, termina por corroer aquilo que forma a cultura e a história de um povo. Assim aconteceu com a RAI 1. Esse monumento, pilar da democracia italiana, de uma televisão da memória, da pesquisa, da reflexão, das oposições, e transformou-se em uma televisão vulgarmente comercial. Essa lógica conduz à desaparição progressiva da invenção e do risco, e a Itália se acomoda pouco a pouco a uma situação na qual a incultura domina. Calaram-se as únicas vozes inquietas com o perecimento de uma democracia que se submete hoje apenas às mídias modernas. Eu tenho a impressão, dirigindo a RAI 2, de ser um dos últimos refúgios da criação audiovisual no país, de habitar um bastião, de defender uma ilhota assediada. De ser o último dos moicanos em uma batalha perdida.

O sr. diria que a televisão pública está em vias de marginalização?

Freccero – Na ausência de um pensamento forte e de um verdadeiro projeto cultural e político, a RAI, e mais largamente o campo midiático italiano, correm grande perigo. Há alguns sinais encorajadores – uma certa forma de renascimento do cinema doméstico, um forte retorno da ficção na TV, como é o caso da França. Mas isso não basta. Aonde foi parar o sonho? A embriguez da nova economia deixou a opinião pública italiana em coma profundo. Uma espécie de tédio mortal invadiu as mentes. Tudo isso mascara, na realidade, uma grande depressão universal. Uma depressão de idéias. É nesse momento preciso que Berlusconi resolveu concentrar seus esforços. Berlusconi, cujos talentos de tribuno e seus números de ricaço, tão bem engrenados, têm sobre a opinião pública o efeito de um anestésico.

Deve-se daí deduzir que esse movimento é irreversível?

Freccero – Entre os estereótipos mais difundidos figura este: a televisão seria um meio de comunicação acachapante, que imporia seus valores. Não acredito nisso. Chegará o tempo, estou convencido, em que o cidadão se reapropriará dessa mídia. Ficará a cargo do cidadão a tarefa de mudar as coisas. Porque, na verdade, os povos fazem as mídias à sua imagem. E o pensamento único, convençamo-nos disso, não é felizmente um pensamento inexorável. Tenho a impressão de que nossas sociedades estão hoje no apogeu de um sistema do qual vemos muito bem os limites. É sem dúvida o fim de um ciclo e o começo de outro, que deverá assistir, cedo ou tarde, a uma tomada de consciência coletiva. Certos sinais levam a pensar que o capitalismo esteja atingindo seus limites. Estamos vendo: os consumidores se rebelam contra as devastações causadas pela comida industrial, trangênicos e os excessos da globalização; os assalariados se revoltam contra os cortes nas empresas, conseqüência da pressão de grupos de acionistas cada vez mais gulosos. E a televisão, esse meio de comunicação planetário, uniformizado, sem identidade real, é também censurada de todos os lados. Como se esta estranha falha fosse percebida, por sua vez, como um dos avatares desse universo global. Da mesma forma como o mundo animal acaba de realizar a sua revolução, fazendo os homens pagarem o preço de suas loucuras, as pessoas farão, algum dia próximo, sua própria mutação midiática, sua revolução cultural. Em todo caso, é preciso esperar por isso. Um sobressalto regenerador que verá as opiniões se levantarem contra a industrialização das mídias, se revoltarem contra essa lenta lobotomização das consciências. Esta é a minha convicção. É nisso que a vitória de Berlusconi pode, finalmente, ter um efeito salvador. O retorno do Condotiere pode permitir que uma brecha seja reaberta e incite a Itália a buscar a vacina contra a imbecilidade. A fim de que o cidadão se reencontre – principalmente por meio da televisão – com a curiosidade, o prazer, a fruição. Com a cultura, simplesmente."

BARRIGA

"Falso repórter elogia filmes da Columbia", copyright Agência Estado, 4/06/01

"A Sony admitiu que os filmes lançados pela Columbia Pictures recebiam críticas entusiasmadas de um falso crítico de cinema criado por seu departamento publicitário, David Manning

Washington – A Sony admitiu embaraçosamente que os filmes lançados pela Columbia Pictures recebiam críticas superentusiasmadas de um falso crítico de cinema. Seu departamento publicitário criou um jornalista imaginário David Manning, cujos elogios exagerados eram imediatamente utilizados em campanhas publicitárias ao lado da opinião de outros críticos que realmente existiam.

O entusiasmo de Manning permitiu à Columbia sustentar nos últimos tempos pelo menos quatro longas-metragens. Por exemplo, o jovem Heath Leadger, protagonista de A Nignight?s Tale, foi definido por Manning como ?o astro mais quente do ano?. O filme The Animal, que foi destruído pela crítica em geral, para Manning foi, sem dúvida, ?outro filme ganhador? da Columbia.

Juízos superlativos de um jornalista inexistente foram utilizados pela Columbia em campanhas publicitárias de seus filmes Hollow Man e Vertical Limit (Limite Vertical). O engano foi descoberto quase casualmente, pela revista Newsweek.

Manning era identificado como um crítico do Ridgefield Press, um obscuro semanário de Connecticut. Quando um repórter da Newsweek telefonou para o semanário para falar com Manning, descobriu que ele não existia.

?Foi uma decisão totalmente estúpida tomada por alguém da agência de publicidade?, admitiu uma porta-voz da Sony. ?Estamos boquiabertos; já iniciamos uma investigação e o responsável será punido?.

Já a Newsweek assinala hoje que ?é uma iniciativa inútil, porque as companhias cinematográficas não têm nenhuma dificuldade em obter críticas favoráveis de publicações menores graças ao mecanismo de ?incentivo? (jabá). Segundo a publicação, os jornalistas são levados a Los Angeles ou a Nova York, com avião e estadias em hotéis de luxo pagos pelas companhias para que conheçam os protagonistas do filme em vias de estrear nos Estados Unidos. Estes periodistas elaboram, quase inevitavelmente, comentários favoráveis sobre os filmes, destaca Newsweek."

    
    
              

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