Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES > SOB CENSURA

Repartir e compartilhar

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

CORREIO SOB CENSURA
(*)

TT Catalão (**)

Quando se parte o pão, o gesto sagrado lembra a comunhão e a própria palavra companheiro: aqueles que compartilham o pão. Quando se parte o fruto, a semente ou qualquer alimento, a intenção é solidária: repartir para a troca, para a soma, para criar laços fraternos.

Quando se parte uma cidade, as pessoas sangram. Quando a cidade se parte, a divisão fere, pois a fúria emerge. Se fosse a divisão saudável dos opostos que dialogam na busca de uma nova idéia, ainda teríamos chances de reconstrução. Mas a Brasília partida de hoje tem fundamentos no mais pernicioso modelo de política dos séculos ultrapassados: a compra de consciências, não muito elaboradas no exercício do pensamento crítico, pela sedução cínica da demagogia, da mentira que distorce até no uso de palavras-conceitos libertadoras da miséria moral humana: “paz”, “bem”, “amor”, “justiça”, “dignidade” etc.

A cidade, quando se parte na diáspora da dor, machuca os que a sonharam íntegra. Abate, momentaneamente, os que a querem integral e a isso devotam suas vidas. A cidade partida não consegue ser pão nutriente. Leite e mel, ou lote e fel, ou light e réu, ou lucro e véu. A cidade fica distorcida em sua causa. E se “narciso acha feio tudo o que não é espelho” (Caetano in “Sampa”), detestamos não nos reconhecer naquilo que excluímos. Mas à nossa outra parte que clama reconhecimento. O lado obscuro que permitimos crescer. A sombra que fingimos não existir mas que faz parte da nossa única realidade.

Entre o caos dos cacos só temos a chance da reconciliação se pararmos de resistir à outra parte como um oposto monstruoso, quando na verdade é apenas um outro lado de nós mesmos. Pelo nosso consentimento e a nossa vontade realizaremos a união sem fazer com que um lado, para existir, tenha necessariamente que matar o outro. Somos UM, na essência, e somos TANTOS, nas formas. Seremos sempre únicos na pluralidade que nos distingue. A diferença nos une. A diferença nos unge. Ainda mais agora nesta cidade partida. Na cidade que clama ao elo perdido que a criou e deveria ser projeto de todos, compartilhada. Uma cidade pão. Uma cidade pedra. Uma cidade viva. Viva esta cidade. Esta cidade está viva. E será o que você fizer dela. Se você quiser.

PS: Sábado próximo é 2 de novembro e parece que estamos em contagem regressiva ou repressiva até o dia 31, quinta. Pela honra dos nossos seis anos neste espaço, não sei se estamos sob um até logo, um até breve ou um até quando pudermos. Não importa. O melhor disso, até aqui, foi tentar corresponder à honrosa companhia do leitor para compartilhar este pão em palavras e compromisso de fé como únicos e plurais. Harmônicos e diversos. Estranhos e íntimos. Tão perto e tão longe.

Uma dádiva esta nossa comunhão escrita de todo sábado. Este pedacinho de encontro no meio da cidade partida, temporariamente, mas jamais cidade perdida. Cidade que por ser nascida de um sonho tem história para fazer da realidade um sonho ainda mais bonito.

Bom voto e melhor veto ao que conspira contra a sua felicidade. Seja qual for o lado de fora, pergunte fundo, ao seu lado de dentro, o que vale a pena ser unido na cidade ferida, retalhada, partida. GraTTo, sempre!

(*) Publicado no sábado, 26/10, no Correio Braziliense

(**) Jornalista

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