Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > BBC vs. DOWNING STREET

Reportagem sobre Iraque irrita Blair

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

BBC vs. DOWNING STREET

A Downing Street, entravando uma batalha com a BBC sobre alegações de que funcionários do governo e da inteligência se uniram em uma espécie de conspiração secreta contra o Iraque, desafiou publicamente a emissora no dia 26/6 a responder a perguntas sobre seus padrões jornalísticos.

O porta-voz do premiê Tony Blair citou uma dúzia de perguntas à BBC um dia após Alastair Campbell, assessor de comunicação de Blair, acusar a emissora de difamá-lo e de reportar tendenciosamente sobre o Iraque.

A troca de farpas ? nem a primeira, nem a última entre o governo britânico e a TV estatal ? começou quando a BBC, citando uma fonte anônima da inteligência, disse que Campbell distorceu um dossiê sobre armas de destruição em massa no Iraque. A reportagem do correspondente da Defesa Andrew Gilligan noticiou que Campbell pressionara serviços da inteligência para, a contragosto, incluir no dossiê sobre o Iraque a afirmação de que as armas do país poderiam ser acionadas em 45 minutos.

A reação de Campbell veio em 25/6, com a acusação de que a BBC havia mentido e deveria por isso pedir desculpas. Segundo o assessor, a emissora acusou-o de induzir Blair a mentir ao Parlamento. A corporação, no entanto, nega que tenha feito acusação tão pesada e mantém tudo o que disse na polêmica reportagem, dizendo não ter nada por que se desculpar.

No dia 26/6, de acordo com Katherine Baldwin [Reuters, 26/6/03], o porta-voz de Blair deixou claro o apoio a Campbell no conflito ao fazer as perguntas à emissora: "A BBC ainda sustenta a alegação de que tanto nós quanto as agências de inteligência sabíamos que a declaração sobre os 45 minutos estava errada? Por que os jornalistas da BBC não checaram a reportagem conosco antes de transmiti-la? Isso agora é prática comum na BBC?" Algumas das perguntas, de acordo com Jason Deans [The Guardian, 26/6],
pareciam solicitar à BBC que revelasse sua fonte.

"Perguntamos repetidamente à BBC questões sobre esse assunto, mas ainda não obtivemos resposta satisfatória", disse o porta-voz. "Apenas pedimos para a BBC dizer se acreditam que sua própria e única fonte pode contrabalançar o primeiro-ministro, o secretário do Exterior, o presidente do comitê de inteligência britânico independente (Joint Intelligence Committee), o coordenador de segurança e inteligência e os chefes de agências da inteligência."

De sua parte, Richard Sambrook, diretor de notícias da BBC, acusou Campbell de "deturpar seriamente" o jornalismo da BBC ao dizer que a corporação reportou "mentiras". "[Campbell] disse que o acusamos de mentir, assim como ao primeiro-ministro. Isso não é verdade. Ele disse que acusamos o primeiro-ministro de má conduta no Parlamento. Nunca dissemos nada do gênero", disse Sambrook ao programa Today, da Radio 4, da BBC. "Ele disse que tentamos inferir que o primeiro-ministro levou o país à guerra sobre uma base falsa. Nunca inferimos isso. Ele disse que a BBC tem compromissos antiguerra. Isso não é verdade, não temos compromissos."

Segundo Deans [The Guardian, 26/6], Sambrook defendeu veementemente Gilligan, dizendo não ter dúvidas quanto à reportagem e à fonte também. "Sempre afirmamos ter uma fonte confiável nos serviços da inteligência", disse o diretor da emissora. Em seguida, alfinetou: "Francamente, não acho que a BBC precisa aprender sobre uso de fontes com um departamento de comunicação que plagiou uma tese de 12 anos, distribuindo-a sem conceder créditos."

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