Quinta-feira, 18 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Reportagens com cheiro e sabor

Por Wanda Jorge em 20/04/1997 na edição 20

A emoção sobrevive como principal ingrediente da imprensa italiana. Temperando boas informações e checagem dos lados envolvidos, as reportagens dos principais diários italianos continuam a lançar mão de parágrafos longos e textos apaixonados. Ou, pelo menos, com uma posição ética clara e explicitada na matéria sobre o tema que tratam, seja estupro, contratação do jogador Ronaldinho ou novas alianças do governo .

Certamente um sacrilégio, segundo alguns manuais de matutinos paulistas. Mas a sensação do leitor estrangeiro, já desacostumado a tanto envolvimento entre matéria e leitor, é boa. Dá até para estranhar o estilo, inicialmente. Parece que há abuso de adjetivos e expressões idiomáticas difíceis de traduzir.

Além disso, os editores têm o mau costume de pressupor que personagens centrais de uma matéria, quando figuras públicas, não necessitam de apresentação formal. De repente, tem-se uma matéria tratando de declarações polêmicas de Scalfaro ou D’Alema, sem a devida apresentação de seus nomes completos ou avisando ao leitor quem são (no caso, presidente da Itália e secretário geral do Partido Democratico della Sinistra – PDS, respectivamente). Outra prática de alguns jornais, de critério bastante duvidoso (comum no Brasil até poucos anos atrás), é a ausência de créditos em fotos. O autor só aparece quando se trata de evidente material especial, feita sob encomenda. O exemplo mais recente foi uma longa reportagem sobre Jacarta, “a pérola do Oriente”, um belo trabalho em preto e branco do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado para a revista D, encartada no jornal La Repubblica.

Em contrapartida, o material editorial escrito tem sempre um autor: seja com seu nome grafado ou com a ausência de neutralidade em seus parágrafos. Parece óbvio que o repórter, ao optar por um lead e pelo enfoque que dará à sua reportagem, já está tomando posição (e não há manual de redação que impeça um bom trabalho). Mas as matérias daqui vão além.

O repórter usufrui de seu direito de espectador privilegiado da notícia e pode contar uma boa história. E como toda boa história, é rica em detalhes e sensações, além de conclusões e juízos de valor. Não apenas o repórter, mas também o editor saboreia esta emoção e freqüentemente evidencia em títulos ou intertítulos como o assunto o tocou.

Para o leitor, este texto confere envolvimento e familiaridade. Se bem escrito, toma partido, comenta com o jornaleiro ou com vizinho, interioriza o que leu. E a notícia, sem se limitar à frieza dos dados enfileirados no texto, toca coração e mente, na devida proporção. É uma boa experiência de leitura diária, de fatos corriqueiros ou de tensões agudas, como o êxodo do povo da naufragada Albânia para portos italianos.

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De olho no rodízio
Mauro Malin

Oito meses depois de Veja (“O limite de uma civilização. Congestionamentos e poluição tornam incerto o futuro do automóvel”, 7/8/96), a Folha de S. Paulo conseguiu perceber que automóvel é problema (“Carro é candidato a inimigo público no 1”, 13/4/97).

Melhor: já não hesita em estabelecer vínculo entre o rodízio, que tira de circulação um quinto da frota da Grande São Paulo nos dias úteis, e benefícios para seu ilógico, desumano, antieconômico, estressante, criminoso trânsito.

Como este OBSERVATÓRIO mostrou na época (1), a imprensa começou jogando furiosamente contra o rodízio. Veja-São Paulo fez reportagem de capa intitulada “O mico de agosto”.

Depois, houve editorialização e manipulação generalizada de informações, para combater encarniçadamente o rodízio ao longo de quase trinta dias, até que os bons resultados obtidos fizessem ver que era preciso reorientar pautas e edições (2).

Para variar, nos meses seguintes tratou-se pouco da questão. Uma manchete aqui (por exemplo, quando o governador Mário Covas atabalhoadamente proclamou que iria excluir do rodízio os carros a álcool), outra ali, nada de sistemático.

Abre-se agora, em maio, nova temporada de rodízio. Vamos ver que tratamento merecerá dos meios de comunicação esse problema estratégico da maior cidade do país.

(1) “A má vontade da mídia antes do início do mutirão não chegou a afetar os magníficos índices de adesão da sociedade paulistana. Pode até ter contribuído para aumentá-los. Nos primeiros dias do programa a aceitação foi de 80%, na segunda semana passou a quase 97%” (Alberto Dines, 20/8/96). “Trânsito é um problema mais sério, do ponto de vista da saúde pública e da qualidade de vida, do que poluição” (M.M., 20/8/96).

(2) “Acabou o rodízio dos carros em São Paulo, mas a temporada de farisaísmo e cinismo continua. Jornais e rádios paulistas (sobretudo estas) que se empenharam contra o programa em nome da pobre classe média, depois de encerrado passaram a defender a sua continuação. Quando a Secretaria de Meio Ambiente do governo estadual anunciou que não haveria prorrogação, choveram denúncias contra o “eleitoralismo” da decisão. E, de repente, o governo estadual passou a vilão por interromper tão salutar medida” (A.D., 5/9/96).

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Como estorvar um texto
M.M.

O professor de Literatura da USP Andrea Lombardi escreveu no início de um artigo no Estadão (13/4/97) sobre o livro A Trégua: “Há 10 anos, no dia 11 de abril de 1987, suicidava-se Primo Levi, escritor e químico italiano de descendência judaica…”
Primo Levi não foi levado para o campo de extermínio de Auschwitz porque viria a ter uma prole judaica, se é que a teve, mas porque nasceu de pais judeus, ou seja, por causa de sua ascendência judaica.

O professor provavelmente é italiano: cita os livros mais conhecidos de Primo Levi sem recorrer às traduções brasileiras, reproduzindo-lhes literalmente em português os títulos originais (“Se Isto é Um Homem” por É isto um homem?, Rio de Janeiro, Rocco, 1989; “Submersos e Afogados” por Os afogados e os sobreviventes, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1990). Ter-se-á confundido, embora as palavras sejam semelhantes nas duas línguas (ascendência = ascendenza; descendência = discendenza).

Entretanto, o redator de O Estado de S. Paulo que cuidou da edição do artigo repetiu a palavra “descendência” numa legenda comum a duas fotografias do escritor que ilustram a página. E não se deu ao trabalho de usar as traduções brasileiras para fazer referência aos livros de Primo Levi.

Professor e redator: façam o favor de, em dúvida, consultar o dicionário. De português ou de italiano, tanto faz. Mas principalmente façam o favor de ter dúvidas.

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Pisada digital
Alceu Nader

É surpreendente, incrível mesmo, como os meios mudam mas os maus-modos perduram. Até mesmo em publicações destinadas à Internet, que deveriam servir de exemplo como postura editorial perante uma mídia revolucionária, permite-se a repetição de empoeirados métodos de autopromoção. O amadorismo revela que a empresa editorial está sendo vítima, antes de tudo, de uma assessoria de imprensa caolha, amadora, ao ser flagrada empurrando goela abaixo do leitor release como se fosse notícia de verdade.
O exemplo em questão é a edição da revista no 20, volume 2, sem data de veiculação na capa ( para evitar comparações cronológicas com sua matriz norte-americana ?) da Internet World, versão nacional. O engodo está na reportagem “Agências Virtuais atendem grandes empresas”, talhada do início ao fim para enaltecer a MediaLab, produtora de sites para empresas e uma das empresas do grupo que edita a publicação. Nada demais haveria, se o leitor que tirou R$ 5,50 para pagar por informação, fosse avisado disso. Melhor seria ainda se, num exemplo de sinceridade editorial – que poderia até mesmo reverter em credibilidade – avisar o leitor que se tratava de “informe publicitário”.

Mas não. O leitor das modernas tecnologias de mídia e telecomunicação é feito de bobo do início ao fim do texto, pois o texto, em momento algum, revela que a produtora de sites pertence ou é associada à revista. Parece pouco? Contra dois cromos mal ajambrados de outras duas empresas do setor, a “reportagem” reproduz a relação de “alguns” dos clientes, num claro gesto de marketing.
A prática de releases sobre suas próprias empresas é comum nos conglomerados da mídia brasileira, quase sempre com a transparência desejada. A simples menção de que a empresa motivo da notícia faz parte do grupo empresarial pode ser suficiente. Com essa informação, o leitor poderá descontar os adjetivos favoráveis do serviço ou da publicação irmã e estar informado sem prejuízo. Sem esse ponto essencial, o leitor estará pagando o mico. Feito de bobo, gastará seu dinheiro pensando que comprou informações autênticas.

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