Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

PRIMEIRAS EDIçõES > fazer

Repórter policial, profissão perigo

Por lgarcia em 16/12/2003 na edição 255

TIM LOPES

José Louzeiro (*)


Prefácio de Dossiê Tim Lopes ? Fantástico/Ibope, de Mário Augusto Jakobskind, Editora Europa, Rio de Janeiro, 2003; R$ 25,00; lançamento em 18/12/03, às 17h30, no 11? andar da sede ABI (Rua Araújo Porto Alegre, 71), no Rio


O autor deste livro ? Mário Augusto Jakobskind ? é jornalista dos mais competentes e, por isso, mesmo, insere-se no círculo daqueles (poucos) que não se deixaram corromper. Jamais correu atrás de altos salários e muito menos disputou cargos de chefia nas redações, a fim de preservar sua liberdade de pensar e dizer.

Este livro é demonstração clara de sua postura de observador isento e cuidadoso com os detalhes. Trata, aqui, dos pormenores, se assim posso dizer, que levaram o repórter Tim Lopes à morte na favela da Vila Cruzeiro. Faz indagações, demora-se em considerações, analisa o caso por ângulos que escaparam a outros, muitos outros, que trataram do bárbaro crime.

Detalhes e sutilezas somados vão nos fazendo, aos poucos, entender a razão pela qual Tim Lopes terminou empurrado para a toca do leão. A partir dos levantamentos feitos por Jakobskind, a argumentação da TV Globo, procurando explicar o trágico fato, passa a nos parecer pouco consistente ou, melhor dizendo, não esclarece nada.

O dossiê nos leva a saber, por exemplo, que Tim Lopes foi quatro vezes à Vila Cruzeiro, portando micro-câmera para filmar baile funk. Por que passaram a ele essa tarefa se, ao retornar de férias, como diz a viúva Alessandra, seu projeto era uma série sobre caminhoneiros?

Outra curiosidade: Tim Lopes, repórter, recebeu missão de Xerife dos clássicos do faroeste: entraria na favela para mergulhar num caso de alto risco que seria o seguinte: salvar as garotas de Vila Cruzeiro que, gostassem ou não dos bailes, eram obrigadas pelo "dono do pedaço" a freqüentar e atrair rapazes, inclusive de classe média, que tinham poder aquisitivo para adquirir as drogas. Vai daí que um pai revoltado, sem obter o apoio da Polícia, resolveu ligar para a Globo e os funcionários do jornalismo, em vez de insistirem com a PM para cumprir seu papel, mandaram Tim para a linha de frente.

Mas os chefes do jornalismo da Vênus Platinada garantem: a idéia da reportagem partiu do repórter e, para isso, passou a contar com um segurança, no que a viúva não acredita. O advogado André Martins acompanha a opinião da viúva e explica: a chave da questão estaria na testemunha que a Globo garante ter dado proteção ao repórter e que jamais se apresentou à Polícia.

Jakobskind lembra, neste importante trabalho, que a jornalista Cristina Guimarães também se afastara da Globo, uns sete meses antes da morte de Tim, por recusar-se a repetir, sem a devida cobertura, matérias nas "feiras de drogas" da Rocinha e da Mangueira.

Cristina declarava-se jurada de morte e teria avisado ao colega do perigo que corria, assim como avisara a seus chefes, mas estes estavam interessados em resultados; queriam imagens de alto risco. Por sua vez, vale dizer, Tim Lopes não era um ingênuo e, sim, determinado membro da reportagem investigativa, nos moldes das que fazíamos nos velhos tempos.

Acontece que, naquela época, o problema social era outro. Morar no morro tinha seu lado romântico, as favelas motivavam canções e sambas; um deles ? "Barracão de Zinco"? tornou-se famoso. Mas os tempos mudaram e os editores não parecem entender isso. Uma coisa é ficar na redação, com bons salários, bolando coberturas fantásticas no ar refrigerado, outra coisa é ir à luta para transformar as pautas em realidade.

Mandar e fazer, reconheço, é questão difícil de ser equacionada. Na condição de velho repórter, talvez jamais me detivesse a respeito, não fosse este trabalho de Mário Augusto que levanta problema inédito: o repórter televisivo, de polícia, está a merecer condições especiais de trabalho e, por isso, mesmo, com direito a um adicional sobre o salário, a título de "risco de vida".

Com este "Dossiê Tim Lopes" o velho companheiro Jakobskind abre uma questão de ordem trabalhista da maior importância e que, por certo, mobilizará o sindicato da classe: faz-se necessária e urgente a criação de legislação específica para proteger o repórter do jornalismo investigativo. Não basta que ele possa contar com a "cobertura" oferecida pela empresa empregadora. Se a própria Polícia teme os bandidos; se os PMs passaram a patrulhar as ruas da cidade em "comboios" de viaturas, de que adiantariam dois ou dez seguranças, armados de revólveres (o que hoje é proibido) para permitir a ação do repórter? E que matéria seria essa, desenvolvida à sombra da Polícia, se esta não merece a menor confiança da comunidade?

Estaria ameaçado de extinção um dos setores mais populares do jornalismo brasileiro? Exercer as funções de repórter de polícia passou a ser coisa tão arriscada quanto ser policial, com uma diferença: PMs e detetives têm o direito de andar armados. O jornalista, coitado, movimenta-se por aí desarmado e, muitas vezes, viajando de ônibus ou de metrô, pois o dinheiro que ganha não dá para comprar o almejado carro.

Este trabalho de Mário Augusto Jakobskind é o despertar de consciência para um problema sério. Afinal, digam o que disserem, a reportagem de Polícia continua sendo, ainda hoje, o maior atrativo para os leitores, principalmente nestes momentos de crise, quando os jornais vendem cada vez menos.

A problemática aqui exposta por um jornalista com anos de experiência, merece avaliação das entidades de classe: como se manter repórter de Polícia nestes tempos em que os traficantes armaram-se de tal forma que podem fazer frente às forças policiais?

(*) Jornalista

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