Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA GAÚCHA

Resposta a um apedido inconveniente

Por lgarcia em 24/07/2002 na edição 182

MÍDIA GAÚCHA

Armindo Trevisan (*)

É dever de um intelectual lutar pelos direitos básicos dos cidadãos. Para que serviria a cultura se não se alinhasse a favor de "coisas sobre as quais não se pode transgredir, sob pena de comprometermos o nosso futuro?", como diz Denis Lerrer Rosenfield, encabeçando um apedido "pela liberdade de imprensa e pelo estado de direito".

Até aí, tudo bem. Mas quando o citado articulista começa a querer persuadir-nos de que, no Rio Grande do Sul, o atual governo "tem pautado suas ações por uma longa série de perseguições e processos contra jornalistas e intelectuais", nesse preciso momento nos apercebemos de que se está confundindo opções políticas pessoais com realidades que caminham noutra direção. Afirmar que "os meios de comunicação passam a policiar-se" (entenda-se: entre nós) é afirmação que beira o sarcasmo. Onde, onde, por favor, se vê isso?

O que vemos é outra coisa: nossa liberdade, e não só a da imprensa, ser cada vez mais cercada, devido, todavia, a outros fatores. De resto, seria pasmoso que os perseguidores de ontem se tornassem os perseguidos de hoje. Ainda não estão cicatrizadas as feridas de muitos homens públicos do nosso governo, que sofreram atentados à própria liberdade, sendo silenciados durante muito tempo. Escrever "Presenciamos algo novo, na história do Rio Grande que, por suas tradições de bravura e coragem, não pode aceitar a paz que se impõe pelo cerceamento das liberdades" é, no mínimo, um insulto à probidade de tais líderes que correram graves riscos para salvarem as liberdades que agora são enaltecidas.

Vamos adiante: alegar que uma funcionária ligada ao Clube de Seguros da Cidadania foi ameaçada de morte não constitui argumento definitivo. Não se pode acusar alguém sem ter provas cabais de que tais ameaças procedem dessa pessoa. Cabe a quem acusa fornecer tais provas cabais. Agir, pois, da forma como se está agindo, com manifestos pomposos, de nítido cunho político, e, para justificá-los, empunhar os clarins vibrantes dos lugares-comuns da democracia, não é atitude séria. Sim, liberdade de imprensa é uma exigência da democracia, mas esta como aquela estão vinculadas à responsabilidade. Não basta apelar para os fatos. Já um grande historiador, J. H. Carr, afirmou que "os fatos não falam por si". Falam quando alguém os aborda. Ou seja: os fatos podem ser obrigados a falarem por quem os aborda, e a dizerem o que não podem dizer. Daí o que se convencionou chamar de "versões" dos fatos.

Portanto, um governador, como qualquer cidadão, pode exigir que os fatos sejam interpretados nos seus contextos, não sofrendo distorções produzidas pela óptica de um determinado observador, que pode também ser um jornalista. A liberdade de dar uma versão dos fatos supõe a liberdade de contestar essa versão por outra, que se aproxime mais da objetividade pretendida. Aliás, o que o governador simplesmente fez foi acionar o Ministério Público para preservar sua honra e dignidade, o que resultou, por parte do Poder Judiciário, na condenação de dois jornalistas.

É lastimável que a aproximação das eleições engendre tal tipo de manifestações altissonantes, como se os cidadãos do Rio Grande não estivessem entre os mais alfabetizados do país, e não soubessem identificar documentos que se propõem a desmerecer pessoas que, no tempo da ditadura, padeceram por não terem tido a possibilidade de dizer o que essas pessoas estão dizendo. Seria melhor que os autores do dito manifesto fossem sinceros, e dissessem: "Não apoiamos vocês." Ou que usassem a debochada franqueza do megainvestidor George Soros: "Só os americanos votam…"

Lista das adesões

Armindo Trevisan (poeta, ensaísta e professor), Santiago (cartunista), Moa (cartunista), Eugênio Neves (Corvo, cartunista), Edgar Vasques (cartunista), Divino Fonseca (jornalista), Ayrton Kanitz (jornalista), Celso Schroder (cartunista, diretor e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas/RS), Álvaro Benevenutto (jornalista, prof. UNISINOS), Lauro Hagemann (jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas/RS), Cristina Pozzobon (jornalista), Clô Barcellos (designer), Rosina Duarte (jornalista), Vera Spolidoro (jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas/RS), Daniel Herz (jornalista, membro do Conselho Nacional de Comunicação Social), Gilmar Eitelvein (jornalista), José Carlos Torves (jornalista, presidente do Sindicato dos Jornalistas/RS), Sérgio Weigerter (jornalista, professor da UFSC), Antônio Oliveira (jornalista, ex- presidente do Sindicato dos Jornalistas/RS), Loir Gonçalves (repórter fotográfico), Juarez Tosi (jornalista), Cláudio Garcia (jornalista), Antônio Édson (ex-presidente do Sindicato dos Radialistas e presidente da Federação Interestadual dos Radialistas), Valdinei Lima Munhoz (presidente do Sindicato dos Radialistas), Karl Bulhões Hackradt (vice-presidente do Sindicato dos Radialistas), Ione Teresinha de Souza (jornalista), Raul Quevedo (jornalista), Daniel de Andrade (repórter fotográfico), Léo Nuñez (jornalista), Vitor Necchi (jornalista), João Batista Marçal (jornalista), Milena Weber (jornalista, professora da UFRGS), Marta Cioccari (jornalista, professora da UNISINOS), Rejane Lempek (jornalista), Luiz Eduardo Achutti (repórter fotográfico), Eduardo Tavares (repórter fotográfico), Nina de Oliveira (jornalista), Marco Aurélio Weisshaimer (jornalista), Bolívar Gomes de Almeida (livreiro), Gilmar Crestani (funcionário público federal), Leopoldo Plentz (Rrpórter fotográfico), Arthur de Faria (músico e jornalista), Adelar de Oliveira (jornalista), Júlio Sá (advogado), Regina Célia Lima Xavier (doutora em História/UFRGS), Eunice Catarina Marangon (professora e psicanalista), Maria Stella Petrasi (socióloga), Inês Bernal (jornalista), Bita Soris (jornalista), Adriana Rodrigues (jornalista), Adroaldo Corrêa (jornalista), Márcia Benetti Machado (jornalista), Renato Duarte Fonseca (jornalista), Humberto Andreatta (jornalista), Neco Varella (repórter fotográfico), Télia Negrão (jornalista), Alexandre Cruz (jornalista), Viliano Fassini (jornalista), Valci Zucolotto (jornalista e professora da UFSC), Maria José Baldessar (jornalista e professora da UFSC), Sérgio Murilo de Andrade (jornalista e professor IELUSC), Antônio Carpes Antunes (advogado), Eloy Martins (sindicalista), Jorge Alberto Campezatto (sindicalista), Luiz Carlos Lopes de Freitas (escritor), Neusa Martins Peres, Paulo Renato Ziembowicz (diretor do Sindicato dos Radialistas, Sto. Ângelo), Lauro Divanor Peres (diretor do Sindicato dos Radialistas, Sta. Maria), Luiz Carlos Soares (diretor do Sindicato dos Radialistas, Rio Grande), Domingos Roque de Oliveira (diretor do Sindicato dos Radialistas, Cachoeira do Sul), Cândido Otto da Luz (diretor do Sindicato dos Radialistas, Sta. Maria), Alfredo Nery Paiva (escritor), Daisy Macedo de Barcelos (professora, doutora em Antropologia/UFRGS), Isabel Cristina Moura Carvalho (doutora em Educação/UFRGS), Luis Henrique Silveira (jornalista e mestre em Comunicação), Alexandre Cruz (jornalista), Adão Eudes Albuquerque (jornalista), Simon Rosa Silveira (jornalista), Celso Vicenzi (jornalista e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de SC), Luis Fernando Assunção (jornalista e presidente do Sindicato dos Jornalistas de SC),

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