Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > 3.

Resposta a um convite

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

DIRETÓRIO ACADÊMICO

ENSINO

Nilson Lage

Convidado a participar de um evento sobre ensino de jornalismo, promovido pela Sociedade Interamericana de Imprensa, o professor titular da UFSC, Nilson Lage recusou o convite num texto esclarecedor. Tendo em vista a importância do documento, o Observatório da Imprensa publica a íntegra da carta que o professor enviou aos organizadores do evento (V.G.)

Recebi telefonema do Professor João Brito de Almeida, da Universidade Católica do Rio Grande do Sul, perguntando-me se aceitaria ser indicado para participar do programa de Acreditação de Programas no Ensino de Jornalismo na América Latina, promovido pela Sociedade Interamericana de Imprensa com recursos financeiros propiciados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento.

O Professor Brito de Almeida mencionou o envolvimento no projeto do Freedom Forum, editor de um texto que li recentemente, Winds of change, de Betty Medsger. Com base na memória dessa leitura e ciente da necessidade de se estimular a melhor qualificação dos jornalistas latino-americanos, dispus-me inicialmente a aceitar a indicação.

Em 15 de janeiro passado, recebi sua correspondência formalizando o convite e juntando o "Manual de Acreditação". Nele figuram os objetivos, com os quais concordo plenamente; os Estatutos do Conselho de Acreditação, com os quais não me cabe concordar ou discordar; as Políticas e Procedimentos de Acreditação, que me parecem corretos; e, finalmente, as Normas de Acreditação.

Estas incluem, particularmente no item "Currículo", dispositivos inaceitáveis para mim por seu arcaísmo, arrogância acadêmica e desfiguração do jornalismo como serviço público comprometido com a realidade. No caso do Brasil, o resultado, acredito, será a preservação de desvios pedagógicos e prejuízo para a melhor qualificação dos jornalistas.

Senão vejamos:

1. Embora se fale em quatro anos, a carga horária proposta (120 créditos) permite a duração de curso de três anos [quatro horas diárias de aula em cinco dias da semana, totalizando 20 créditos por semestre, 40 por ano, 120 em três anos] ou menos, dois quais 60 por cento (ou sejam, 72 créditos ou, aproximadamente, dois anos) dedicados a "humanidades e ciências" e "teorias de comunicação"; e os restantes 40 por cento (ou seja, aproximadamente um ano) aos "meios, técnicas e linguagens" – e ainda recomenda conhecimento adequado de inglês. Não há referência à ética profissional, que não pode ser substituída por qualquer curso de Filosofia, Ética geral ou "ética da comunicação", o que quer que isso seja..

2. Ora, só uma pessoa que desconheça a profissão e desdenhe dos avanços tecnológicos recentes (composição e editoração de produtos gráficos por computador, edição não linear de rádio e vídeo; provimento de informação e apuração em bancos de dados, utilização de planilhas de cálculo e outros recursos nos moldes do Jornalismo de Precisão de Philip Meyer, planejamento e gerência de coberturas etc.) pode imaginar que alguém, em um ano ou pouco mais, seja capaz de dominar as habilidades exigidas, hoje – e cada vez mais, no futuro, – de um jornalista. Na América Latina, particularmente, dada a deficiência do ensino básico dos idiomas nacionais (português, espanhol), é inimaginável que se consiga em tão curto prazo proficiência nas técnicas de redação para os diferentes meios (não há como se falar, no contexto regional, em jornalistas especializados em um único meio).

3. No elenco que selecionamos, está escrito que a unidade de ensino "deve concentrar seus cursos profissionais nos dois últimos anos de um programa de quatro anos, e não deve oferecer mais que dois cursos profissionais de ano completo (ou seu equivalente) antes do segundo ano." Trata-se de exigência sem o menor cabimento.

Essas questões têm sido consideradas nas diferentes comissões criadas pelo Governo brasileiro, nos anos recentes, para avaliar os cursos superiores – em particular os de Jornalismo.

Uma das iniciativas é o Exame Nacional de Cursos, aplicado a todos os estudantes que se formam em Jornalismo. Um grupo de sete professores jornalistas indicados por entidades profissionais e acadêmicas e parcialmente renovado a cada ano, formula a filosofia dessa prova e fixa seus critérios de avaliação. Venho participando dessa comissão há três anos e o critério estabelecido tem sido inevitavelmente dar-se ênfase à produção jornalística e à solução de questões éticas, deixando de lado conjecturas teóricas não diretamente relacionadas com o Jornalismo.

Outra iniciativa, que complementa a primeira, é a Avaliação das Condições de Oferta, que compreende o exame das instalações (principalmente laboratórios e bibliotecas), do currículo e do corpo docente por visitadores escolhidos entre professores de Jornalismo que aplicam um questionário de aferição informatizado. Tem-se constatado número crescente de jornalistas com formação pós-graduada que se dedicam ao magistério, em tempo integral ou parcial. Uma recomendação freqüente é a que se antecipem as disciplinas técnicas, de modo a introduzir o aluno, desde o início, no contexto da profissão.

Voltemos à questão da estrutura curricular. No caso da Universidade Federal de Santa Catarina, que há dois anos consecutivos obtém a mais alta qualificação no Exame Nacional de Cursos do Ministério da Educação do Brasil, o conselho de curso optou por distribuir as matérias teóricas paralelamente às disciplinas técnicas, de modo a integrá-las. A importância do estudo da língua, da Sociologia, da História recente, da Filosofia da Ciência ou das Teorias do Jornalismo e aplicações ao Jornalismo das Teorias da Cognição, particularmente da Teoria da Relevância (tópicos de nosso currículo atual) é muito mais evidente aos estudantes que praticam o ofício na própria instituição, cobrindo eventos, entrevistando cientistas, pesquisadores, funcionários, levantando dados e realizando missões fora da sede. Eles levam seguramente vantagem sobre jovens recém saídos do ensino médio, que não conseguem relacionar tais conhecimentos com a prática do Jornalismo. Redação é ensinada do primeiro ao último período do curso e o debate ético é constante. Os alunos têm oportunidade de se adestrar e pesquisar mais tempo nos laboratórios, produzindo reportagens audiovisuais, produtos gráficos e portais de Internet. As aulas práticas têm o limite máximo de 15 alunos. A evasão escolar é mínima. Os alunos do Curso de Jornalismo da UFSC, orientados por seus professores, mantêm, no período letivo, um sítio na Internet de atualização diária com notícias (ensino, pesquisa, extensão) da Universidade; um sítio de atualização bissemanal com notícias do curso e matéria didática; um programa diário de televisão de 30 minutos veiculado pela TV Cultura e pela TV UFSC canal 19; outro programa semanal de meia hora na TV comunitária da NET-RBS; operam uma rádio Internet 24 horas com notícias de 15 em 15 minutos; produzem seis pequenos programas noticiosos diários para emissoras locais de rádio; editam o jornal laboratório; e realizam toda a promoção do exame vestibular, incluindo a revista e guia do candidato, com tiragem de 50 mil exemplares. No entanto, pelos critérios da Acreditação de Programas no Ensino de Jornalismo na América Latina, a Universidade seria desqualificada por ter abandonado a divisão aristotélica do currículo em "básico" e "profissional". Postulamos a possibilidade de existirem cursos de Jornalismo fora do contexto dos cursos de Comunicação Social, à semelhança da UFSC. A Teoria da Comunicação tal como é ensinada (textos da Escola de Frankfurt, abordagens athusserianas e pós-althusserianas, com alta incidência de relativismo epistemológico etc.) [quanto à seriedade de alguns dos autores que postulam essa linha acadêmica, recomendo a leitura de SOKAL & BRICMONT. Imposturas intelectuais (Fashionable nonsense, Impostures intellectuelles). Rio de Janeiro, Record, 1999] merece ser, no máximo, uma disciplina secundária do curso. Somos muitos os que pensam assim. Para citar textos recentes, escolho Warren Bovée (Discovering Journalism, Londres. Greenwood Press, 1999, pag. 181):


O núcleo do currículo para aqueles que pretendem ser jornalistas profissionais deve incluir cinco cursos devotados às artes do Jornalismo. Dois deles devem combinar as artes da apuração de informações, observação acurada, audição atenta, leitura, entrevista, busca em computadores e pesquisa de documentos públicos; e a apresentação de informação, com ênfase na seleção e organização dos detalhes, na expressão clara a precisa. Outro curso lidaria com o texto explanatório, com atenção para a definição, a descrição, a narração, a comparação, o contraste, a exemplificação e a análise causal. Já que a avaliação e a persuasão combinam-se freqüentemente na comunicação jornalística, podem ser cobertas por mais um curso, incluindo critérios para a seleção de temas para crítica, assim como a demonstração da boa índole do jornalista, os apelos emocionais, a construção de argumentos prováveis e o desenvolvimento do estilo adequado de persuasão. Um curso adicional daria conta das artes da edição, do aperfeiçoamento e titulação do texto der outra pessoa e do planejamento gráfico. Quatro cursos seriam dados sobre conhecimento jornalístico: um a respeito da teoria geral do jornalismo e outros sobre a história, a legislação e a ética do Jornalismo.


Ponto de vista ainda mais enfático é o do Professor australiano Keith Windschuttle, em seu artigo "Cultural Studies versus Journalism", incluído na coletânea Journalism, Theory and Practice, editada por Myles Breen (Macleay Press, Padington, 1998, pag. 18):


(…) Contudo, na maior parte da teoria de comunicação social ensinada nos cursos de graduação em comunicação e mídia nenhum desses princípios (do jornalismo) são sustentados. De fato, são negados especificamente, quer pela argumentação ou pelo exemplo, pelo grupo intelectual dominante que reina na teoria da mídia há 15 anos. As metodologias e valores do jornalismo são solapadas, contraditadas e freqüentemente consideradas como ingênuas pelos proponentes da teoria da mídia. Naquelas instituições em que se ensinam jornalismo e teoria da comunicação social na mesma graduação, o resultado é uma forma de esquizofrenia intelectual entre estudantes e, da mesma forma, na equipe discente.


Por concordar plenamente com Windschutttle e Bovée, entre dezenas de outros autores, sinto-me obrigado a não aceitar o convite que me foi feito, o qual, no entanto, muito me honrou dado o respeito que tenho à seriedade das instituições promotoras e, no caso, a suas boas intenções.

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