Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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Resposta à arbitrariedade

Por lgarcia em 05/03/2003 na edição 214

CENSURA EM JUNDIAÍ, SP

Rafael Alcadipani (*)

O último número deste Observatório trouxe um artigo que me criticava pessoalmente e, por isso, sou obrigado a retornar ao tema da falta da liberdade de informação e do cerceamento de minha liberdade de expressão na cidade de Jundiaí, SP. O artigo do senhor Silas Feitosa [remissão abaixo] acusou-me de aproveitar-me de um veto que sofri quando escrevia colunas semanais para um dos diários da cidade com o intuito gerar "munição política" ao Partido dos Trabalhadores, que faz oposição ao governo jundiaiense do PSDB. O elo de ligação entre minhas intenções e meus gestos seria minha filiação ao PT do qual, ainda segundo o citado escriba, seria um "membro do diretório municipal". O Sr. Feitosa tenta transformar arbitrariedade coronelesca em querela de politicalha por meio de uma argumentação que vai contra pessoas, e não discute ou refuta os graves fatos. Trata-se de um subterfúgio retórico para tentar mudar o foco do real problema: a ausência de liberdade de imprensa, de fato, nos órgãos locais de mídia na cidade de Jundiaí.

Nunca foi segredo e jamais neguei ou escondi que sou filiado ao referido partido político, muito embora não seja membro tampouco exerça cargo em seu diretório municipal, conforme alega o Sr. Feitosa. Aliás, há mais de três anos não participo de nenhum tipo de reunião interna do PT. Porém, até onde sei, a filiação a partidos políticos diferentes, ou mesmo aos que fazem oposição ao do grupo que habita o poder ainda é permitida em Jundiaí. Recorrer a alegações sobre as pessoas, e não sobre os fatos, na tentativa de descaracterizar indivíduos para descaracterizar seus argumentos, foi um subterfúgio utilizado à exaustão pelos governos fascistas e nazistas de Benito Mussolini e Adolf Hitler.

O pressuposto simplório e simplista de que qualquer pessoa filiada formalmente a um partido político sempre vai agir para maximizar os interesses da organização de que faz parte é uma super-simplificação da realidade e, no caso em questão, beira a manipulação barata de dados. Aliás, as alegações do Sr. Feitosa recaem numa velha tática dos donos do poder jundiaiense, que sistematicamente desqualificam as críticas ou problematizações que são feitas ao governo do município denunciando-as como atitudes de pessoas que têm ou tiveram interesses políticos. Um dos promotores da cidade foi vítima, e ainda é, deste tipo de alegação quando realiza seu trabalho de investigar os atos do governo de Jundiaí. Engenheiros, jornalistas e arquitetos são vítimas do mesmo tipo de tática que tenta jogar todos na vala dos interesses politiqueiros escusos e manter a cidade sob o império de um consenso mudo. Trata-se de uma reedição da estratégia retórica utilizada pela ditadura militar, que considerava todos os seus inimigos "comunistas".

Se para o Sr. Silas Alves Feitosa, especialista em marketing político, somente podem criticar e exercer a cidadania as pessoas sem nenhum tipo de passagem por organizações políticas, pois de outra forma defenderão de maneira irresponsável e adolescente os interesses de tais organizações, é um contra-senso que uma pessoa como ele, que foi entre os anos de 1997 e 2000, no primeiro mandato do atual prefeito, funcionário em cargo em comissão da Secretaria de Esportes da Prefeitura do Município de Jundiaí, venha a realizar uma defesa supostamente isenta e livre de interesses do atual governo municipal de Jundiaí. Com esta atitude, pratica o que aparentemente condena.

Diferentemente, defendo o direito de livre manifestação e o não-cerceamento da palavra por motivos políticos. O retorno das liberdades neste país ocorreu há muito pouco tempo, e jamais deveremos voltar ao nosso passado sombrio.

Recorri a este Observatório para denunciar as pressões políticas que motivaram minha saída do corpo de articulistas de um dos diários da cidade. Antes de trazer os fatos a esta esfera, tentei solucionar o problema dentro dos muros da cidade. Como não obtive sucesso, não me restou outra alternativa senão trazer à tona uma realidade que há muito aflige os cidadãos jundiaienses. Desde o ano de 1998, este Observatório recebe denúncias de atos praticados pelo governo municipal que agridem a liberdade de expressão na cidade de Jundiaí.

Debate fora da cidade

Os órgãos de imprensa local adotam uma postura de alinhamento total e acrítico com a administração municipal, furtando os jundiaienses da liberdade de informação. Não existem críticas e problematizações nos veículos de imprensa da terra da uva. Aliás, elas não são permitidas. Enquanto escrevia em um dos diários locais, as pressões políticas foram tantas que a publicação de minhas colunas foi condicionada à não-veiculação de nenhuma crítica à administração municipal. Na prática, censura. Quando a proibição chegou a ponto de sequer permitir críticas em âmbito nacional, desliguei-me do diário. Ainda hoje escuto e recebo relatos de jornalistas da imprensa da cidade de Jundiaí que são impossibilitados de divulgar qualquer informação contrária aos interesses do governo municipal. As ações da prefeitura nunca são questionadas. Somente recebemos informações sobre os desatinos do governo municipal pela grande imprensa.

Vale frisar que não se trata aqui de defender uma crítica desenfreada à prefeitura, que conquistou numerosas realizações para a cidade. Trata-se de lutar para que haja a possibilidade de que suas ações sejam ao menos discutidas. Os órgãos públicos têm a obrigação de prestar contas de seus atos e de debater com a sociedade os rumos de suas ações. E desse debate os cidadãos jundiaienses estão alijados. Há uma verdadeira máquina de propaganda instalada na cidade que não permite o debate livre e que somente transmite as informações que interessam ao governo municipal. Inúmeras vezes releases enviados pela prefeitura aos veículos da mídia local são publicados na íntegra. A história mostra que todas as vezes em que a mídia se associa de forma direta e acrítica ao governo a sociedade sai extremamente prejudicada e, quando máquinas de propaganda são criadas, a liberdade é aviltada.

Depois de ler o artigo do Sr. Feitosa, cheguei à conclusão de que, no meu caso, talvez o fato de estar filiado ao PT seja o grande motivo das pressões que o diário jundiaiense sofreu e que acarretou minha saída de seu grupo de articulistas. Presumem que uma filiação partidária impeça o pensamento próprio e que a crítica sempre é motivada por interesses mesquinhos. Se o pensamento dominante na província é esse, não me surpreendo com as arbitrariedades. O artigo do Sr. Feitosa tentou transformar cerceamento de liberdade de informação em querela da política local, arbitrariedade em politicalha e igualar agressor e agredido. Essa tática antiga e grotesca é compreensível para os grupos que dependem da imagem e do voto para sobreviver.

O lamentável é que este debate somente seja possível neste Observatório. Em Jundiaí, o consenso é mudo.

(*) Professor da Fundação Getulio Vargas e da Escola Superior de Propaganda e Marketing, em São Paulo.

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