Terça-feira, 18 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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Revista Imprensa

Por lgarcia em 08/05/2002 na edição 171

REALI JR.

"Entrevista / Reali Jr.", copyright Revista Imprensa, 05/02

"Por um lado, as arbitrariedades da ditadura, que sufocavam a imprensa. Por outro, a sorte em ter como chefe Fernando Vieira de Melo, que entendia essa dificuldade e confiava no potencial de alguns repórteres. A combinação dos fatores foi suficiente para transformar em correspondente internacional o jornalista político Reali Jr. que, na época (1972), já estava na profissão havia dez anos – tempo suficiente para estabelecer sua própria identidade, sem ser lembrado apenas como o ?filho do Elpídio Reali? (Secretário de Segurança em São Paulo, na década de 50).

Com a mulher e as quatro filhas, desembarcou em Paris. O intuito, no início, era ficar por dois anos. Está lá há trinta. Para os brasileiros, é o Reali da Rádio Jovem Pan e do jornal O Estado de S. Paulo, um dos correspondentes mais respeitados do País. Para os franceses, é o ?pai da atriz Cristiana Reali?, modelo exclusiva da linha de cosméticos Lancôme.

De seu apartamento, a poucos minutos da ?Maison de La Radio? (edifício que reúne emissoras de rádio estatais da França), Reali falou sobre seu cotidiano, as coberturas marcantes, dificuldades em convencer editores sobre uma pauta ?quente? e, claro, sobre os folclóricos almoços, que fizeram de sua casa lugar de peregrinação de exilados brasileiros. A propósito desses almoços, a entrevista teve a contribuição de Amélia, mulher de Reali e musicista oficial das reuniões. O clima de festa era tamanho que, durante uma das feijoadas, até o ex-presidente José Sarney (na época, à frente da ultra-conservadora ARENA) apareceu para compartilhar uma cachacinha com alguns ?notáveis? da esquerda brasileira.

Os jornais brasileiros acabaram deformando a imagem do correspondente. Hoje, ele não passa de um repórter de Geral metido a besta, que tem de ser meio especialista em tudo!

IMPRENSA – Já faz trinta anos que você vive na França e, quando se fala em correspondentes internacionais, um dos primeiros nomes de que o público brasileiro se lembra é o seu…

Reali (interrompendo) – É porque eu sou o mais velho (risos). Aliás, somos dois: eu e o Araújo Neto (atual correspondente do Globo), que deve estar aqui na Europa desde 68. Eu vim em 72.

IMPRENSA – Mas o reconhecimento por parte do público é curioso, já que, tendo em vista os veículos para os quais você trabalha (uma rádio e um jornal impresso), não fica tão exposto quanto um correspondente da televisão. Como manter suas matérias interessantes a esse público, depois de trinta anos em outra cultura?

Reali – Eu vim para cá nu-ma circunstância diferente de outros… na época, era só para ficar por dois ou três anos, a Pan me mandou Depois de um ano, eu também já trabalhava para o Estado. Parece que os jornais, àquela altura, não estavam totalmente convencidos da importância de manterem correspondentes internacionais. A minha vinda acabou contribuindo para que os veículos percebessem que era importante. Os acontecimentos relativos ao Brasil, de certa forma, eram mal cobertos pelos correspondentes estrangeiros. Um exemplo disso foi o desastre da Varig, em 73. Tinham grandes personalidades brasileiras naquele avião, como o Filinto Müller, que era presidente do Senado, além de jornalistas, socialites… Nessa época, eu já cobria de uma forma diferente, conhecia as pessoas envolvidas e, ao mesmo tempo, sabia como o caso estava se desenvolvendo na França. Além disso, vivíamos a época da ditadura. Paris era uma concentração de exilados, eles tinham necessidade de informações sobre o que se passava no Brasil e eu, necessidade do contato com eles. Era a oposição organizada aqui. Um correspondente local quase não tinha noção do que aquilo representava. Eu comecei a aproveitar tudo isso sob o ponto de vista da informação. Os jornais brasileiros se surpreenderam e despertaram para a relevância disso.

IMPRENSA – Como você começou no jornalismo e como se tornou correspondente?

Reali – Comecei com 16 anos, na Rádio Panamericana (atual Jovem Pan), como repórter de futebol. Logo depois fui para a Rádio Record e passei a colaborar em jornais impressos, também (Diários Associados, Correio da Manhã, O Globo). Mais tarde, fui repórter político durante um ano. Fiz tudo direitinho, passei por todos os estágios… cobri Prefeitura Municipal, no tempo do Prestes Maia; Palácio do Governo, no tempo do Carvalho Pinto e do Adhemar de Barros; cobri Assembléia Legislativa, Câmara Municipal, polícia…

IMPRENSA – E os famosos ?buracos de rua??

Reali (rindo) – Cobri também os famosos buracos de rua, minha experiência vem da base, até que comecei a me encaminhar para o jornalismo político. Desde menino, fazia po-lítica estudantil, no Colégio Rio Branco. Mas, no jornalismo, comecei na editoria de Esporte, que era a forma como um garoto de 16 anos podia começar. Depois fui evoluindo e, quando vim para cá, já era um repórter mais ou menos conhecido porque, na televisão, fazia as entrevistas de bastidores para os Festivais da Record, junto com a Cidinha Campos.

IMPRENSA – E como veio parar aqui, na França, para fazer cobertura internacional?

Reali – Foi graças ao Fernando Vieira de Melo, na época, diretor da Pan. Ele foi fundamental naquele momento, por entender a dificuldade que qualquer jornalista enfrentava no Brasil (ditadura militar) e também por acreditar no meu potencial. Era a primeira vez, no Brasil, que uma rádio mantinha um correspondente internacional contratado (não como free-lancer). Aliás, grandes profissionais foram ?crias? do Vieira de Melo, como o Heródoto Barbeiro (atual diretor da área de jornalismo da CBN), o José Carlos Pereira (diretor da Jovem Pan) e o Fernando Vieira de Melo Filho (diretor da Rádio Bandeirantes).

IMPRENSA – Em trinta anos, você assistiu a guerras, unificação de países, mudanças no cenário político e econômico. Nesse contexto, quais fo-ram as matérias mais significativas?

Reali – Ah, foram várias… acho que a guerra Irã-Iraque, a guerra do Líbano, a morte do Saddat (no Egito), a Revolução dos Cravos (que derrubou o Salazarismo em Portugal), a morte do Franco, na Espanha…

IMPRENSA – Como você se adapta a tantas modificações sócio-políticas, como se prepara intelectualmente, já que suas matérias têm um viés bastante interpretativo?

Reali – Antigamente, o correspondente tinha mesmo de se preparar, ler muito, querer entender a conjuntura para, então, mostrar essa visão para o seu leitor. Eu sou dessa escola. Mas, atualmente, sabe qual é o maior problema? Os jornais brasileiros acabaram deformando a imagem do correspondente. Hoje, ele não passa de um repórter de Geral metido a besta, que tem de ser meio especialista em tudo!

IMPRENSA – Aproveitando o gancho desse comentário, os jornais europeus têm uma tendência bastante analítica e interpretativa, ao contrário da escola norte-americana, aquela do news to use, pretensamente imparcial. O jornalismo brasileiro, de forma geral, segue esta última linha. Seria isso a causa da ?deformação? a que você se refere?

Reali – O que deforma, de fato, são o interesse e a necessidade dos jornais brasileiros de terem um profissional que faça tudo. O cara tem que cobrir futebol, política, economia… O correspondente acabou virando um especialista de tudo, quando, na verdade, deveria lançar um olhar político-econômico, interpretar os acontecimentos e passá-los, em uma linguagem inteligível, para o pú-blico. Mas realmente é verdadeira essa diferença entre a imprensa européia e a norte-americana. Essa é a causa da minha disputa diária: quero dar a informação e, também, interpre-tá-la. No

Brasil, isso fica difícil, os editores acham que você está querendo editorializar o material. Acho que você precisa mostrar – não impor ? mas mostrar um caminho para o leitor, ele não é obrigado a entender os meandros da política internacional. É por isso que eu faço uma notícia comentada.

IMPRENSA – Por conta dessa tendência, o ?furo?, na imprensa européia, não tem a mesma conotação que tem para nós, você concorda?

Reali – Concordo. É claro que todo jornal gosta de dar notícia em primeira mão, mas há um certo equilíbrio nisso. Os editores não ficam desesperados, como no Brasil.

IMPRENSA – Outro correspondente internacional, Lourival Santana (que estava no Paquistão à época do atentado terrorista de 11 de setembro), mencionou uma certa distorção, por parte da mídia brasileira que, por seguir a cobertura dos EUA, ?satani-zava? o Oriente Médio. Você também percebe distorções semelhantes?

Reali – Nesse episódio dos ataques, a reação da mídia brasileira, pelo menos em um primeiro momento, foi muito vinculada à reação americana. Os países europeus, na maioria, estavam solidários aos EUA, mas era uma solidariedade condicionada, eles não estavam ?assinando um cheque em branco? ao sr. George Bush. Eu procurei mostrar isso nos meus comentários.

IMPRENSA – Como é sua relação com os editores, você já teve alguma matéria vetada ou reorientada?

Reali – Tem aquela piada de que o editor é o cara que separa o joio do trigo e acaba, geralmente, publicando o joio… acho que, algumas vezes, é verdade. Eu tenho sangue de repórter e, como tal, me envolvo nas reportagens, sinto como se elas fossem a parte mais importante do jornal! É um conflito diário com os editores, que têm que selecionar o que vai ou não virar notícia. Já fiz várias matérias que não foram publicadas. O correspondente custa caro para o jornal e, portanto, deveria ser bem utilizado. Não há muita preocupação por parte dos editores, nesse sentido. O bom editor deve conversar com o correspondente todos os dias, trocar idéias. Isso não acontece.

IMPRENSA – Às vezes acontece, também, de algumas matérias serem recusadas pelo fato de os editores não captarem a importância dos assuntos, em determinada conjuntura. Isso aconteceu com você, quando cobriu, por exemplo, a ascensão de Khomeini, no Irã?

Reali – Essa foi uma situação típica. Ele estava exilado aqui em Paris, falava-se muito pouco a respeito da crescente oposição contra o governo do Xá (Reza Pahlevi). Eu me tornei amigo do porta-voz do Khomeini. Junto com o Bani Sadr (que depois se tornou presidente do Irã), ele era responsável pela relação do Aiatolá com a imprensa. Assim, eu consegui uma exclusiva com o Khomeini. Mandei uma matéria de 150 linhas para o jornal (o que não era um tamanho absurdo para uma entrevista que sairia no domingo). Por causa da edição, foram publicadas, quando muito, 50 linhas. Isso aconteceu a uma semana da Revolução. Ainda hoje tenho artigos assassinados.

IMPRENSA – Qual é a imagem que a mídia européia faz do Brasil, atualmente?

Reali – Se considerarmos a imagem política, ela é, obviamente, muito melhor do que aquela da época do regime militar. Existe, hoje, uma consciência do que é (ou do que pode ser) o Brasil. O FHC tem inúmeros problemas internos, isso não se discute, mas em termos de política internacional, ele ajudou muito a melhorar a imagem do Brasil. Isso auxiliou a comunicação desse Brasil oficial com o exterior. Sempre que um político europeu, seja Chirac, seja Tony Blair, tem dúvida sobre alguma questão da América Latina, logo querem saber: ?o que acha o Senhor Cardoso a respeito desse problema??. É um a referência.

IMPRENSA – E qual a imagem da mídia brasileira na Europa? Caso a Emenda 222, que abre a mídia aos investimentos estrangeiros, seja aprovada no 2o turno, você acha que esse capital externo se interessa, de fato, pelo mercado brasileiro?

Reali – Acho que, como mercado, o Brasil interessa, sim. Mas essa é uma opinião bastante pessoal, porque não vi, ainda, manifestações dos grandes grupos de comunicação daqui em ter participação acionária em empresas brasileiras. O interesse maior, pelo que vejo, vem do lado americano – talvez isso aconteça pela relativa desinformação dos países europeus. De qualquer forma, os investidores ainda estão muito discretos.

IMPRENSA – Uma vez que esses grupos, eventualmente, tenham participação efetiva na imprensa brasileira, é provável que tentem interferir no conteúdo e na linha ideológica das coberturas?

Reali – Numa primeira etapa, acredito que não. Eventualmente, uma tentativa ou outra… mas isso já ocorre, mesmo sem a aprovação da emenda. Os grandes grupos da comunicação sempre fizeram pressão em relação ao conteúdo. Os veículos, em todo o mundo, deixaram de ser encarados como entidades jornalísticas, apenas, e passaram a ser encarados como empresas. Hoje, já há outros tipos de interesses diversos daqueles exclusivamente ideológicos.

IMPRENSA – As eleições na França começam em abril. Você acha que a capacidade de Jacques Chirac em conduzir as expectativas dos franceses, sobretudo em relação ao ?sonho de grandiosidade? (comum a esse povo) pode ser determinante para um bom resultado eleitoral?

Reali – O Chirac é uma figura surpreendentemente simpática, um homem de fácil contato pessoal. No último pleito, ele estava com a eleição perdida, mesmo dentro da própria direita. Quando ele percebeu que seus próprios correligionários estavam dispostos a não apoiar sua candidatura, foi para o interior tentar o contato direto com o eleitorado. Claro que sempre há uma dose de demagogia nisso, mas o fato é que ele conseguiu reverter a situação e acabou se elegendo presidente. Ele é um animal político. Mas o pleito na França é muito dividido, muito aberto. A eleição é decidida por um punhado de votos apenas. O próprio Jospin, que tinha um ?boulevard aberto?, caiu nas intenções de voto devido a essa crise econômica que atravessou o Atlântico mais rápido do que pensávamos, mas ainda guarda um sentimento de confiança com os eleitores.

IMPRENSA – Guardando-se as de-vidas proporções e limites, essa atitude de manipular ilusões e sentimentos de grandiosidade? também emplacou no Brasil, durante muito tempo. Você arriscaria algum palpite em relação às nossas eleições?

Reali – Eu acho que dá Lula e Serra no segundo turno. Na minha opinião, a Roseana não resistirá quando sua política e a situação do Maranhão vierem à tona. Ela não vai ter defesa, porque representa a volta do sistema Sarney. O Garotinho, que esteve aqui há alguns dias, está muito animado com essa subida nas pesquisas, mas eu me pergunto até quando isso vai durar. Acho que o Serra decola, ele tem a máquina do Governo. O segundo turno vai ser outra eleição, decidida pela habilidade de reunir forças. Mas acho também que o PT tem grandes chances de vencer. A rejeição ao Lula não é tão grande quanto foi no passado e tende a diminuir cada vez mais. Acho que ele tem boas condições de brigar com o Serra, eventualmente, no segundo turno.

IMPRENSA – Os almoços que você organizava, nos anos 70, tornaram-se folclóricos. Qual era o teor dessa reuniões, havia articulações políticas pelos exilados ou era apenas um ?muro de lamentações??

Reali – Não era exatamente um muro de lamentações, até porque tudo era muito divertido. Era mais uma troca de informações. Eu tinha necessidade de contato com esse mundo do exílio, pois era a oposição brasileira instalada na França, o outro lado do Brasil. Eu, como jornalista, tinha o maior interesse. Muitos desses exilados já eram meus amigos e eu era repórter político – de certa forma, ?reivindiquei? um pouco daquela irritação dos militares em relação aos jornalistas (apesar de não ter vindo para cá como exilado). Na verdade, a responsável pela organização dos almoços era a Amélia, minha mulher…

Amélia – Eu tenho saudade, mas acho que hoje não conseguiria mais… ficava quatro, cinco horas sentada no chão, tocando violão. Minha coluna não dá mais conta disso! E era muita gente… passaram por aqui o Cláudio Abramo, o Jango, o Brizolla, o Gláuber Rocha, o Miguel Arraes, o Fernando Perrone,além de todos os correspondentes…

IMPRENSA – E, surpreendentemente, até o Sarney, né?

Reali (rindo) – Uma vez, estávamos no meio de uma feijoada e o Napoleão Saboya, da Folha, me ligou dizendo que estava aqui e queria vir à minha casa, só que ele estava com o ?Zé?. O Zé era o José Sarney, na época, presidente da ARENA, partido de extrema direita. Eu disse que tudo bem, mas pedi ao Napoleão que avisasse ao Zé sobre as pessoas que estariam aqui (entre elas, o Gláuber Rocha e uns membros da ALN). No fim, o pessoal acabou se divertindo.

IMPRENSA – Vocês conversaram sobre política naquela ocasião?

Reali – Só se conversou sobre política, todo mundo caiu de pau em cima do Zé! (risos). Mas, no fim, uma cachacinha aqui, outra ali, todos saí-ram daqui muito bem (ou muito mal, sei lá…).

Amélia – Quando as pessoas estão fora, se liberam um pouco, sentem-se mais à vontade para falar… também tinha a questão da confiança, o grupo sentia-se unido. A gente abria a casa, criava um ambiente favorável.

Reali – Algumas passagens são muito interessantes. O discurso do Brizolla, no qual aderia à Internacional Socialista, foi feito aqui, nesta mesa que você está vendo (mostra o móvel em que está seu notebook). Ele e o Roberto D ?ávila sentaram aqui, pediram emprestada a minha máquina de escrever e fizeram o discurso. A última noite do Jango em Paris foi aqui. Ele se despediu da Amélia dizendo que, da próxima vez, tomariam um chimarrão. Também tinha muita briga entre os convidados, o que era natural, porque representavam interesses diferentes. Mas fiz bons contatos, bons amigos.

IMPRENSA – O Jango chegou a ser perseguido aqui, na França?

Reali – Perseguido, exatamente, não. Mas teve uma história engraçada. Certa vez, me ligaram dizendo que o aeroporto de Paris seria fechado, pois os militares brasileiros tiveram informação de que o Jango estaria pegando um avião para o Brasil. Eu tinha almoçado com ele naquele dia e não me parecia que ele estivesse querendo fugir, não. Em todo caso, fui conferir. Cheguei no hotel e ele tinha saído para jantar. Esperei até meia-noite. Quando ele chegou, fui logo perguntando: ?Presidente, é verdade que o senhor vai abandonar o exílio?? Ele riu e falou: ?Reali, olha bem a minha situação. Você acha que eu vou sair daqui, justamente agora??. Olhei do lado e vi que ele estava acompanhado de uma belíssima morena, hospedado em um belíssimo hotel. Certamente, não fazia muita questão de reencontrar os militares.

IMPRENSA – Com a abertura política, em 84, você não pensou em voltar?

Reali – Nessa época, minhas filhas já estavam crescidas e, então, tinham que ser consultadas. Uma estava entrando na universidade, outra estavacom o namoradinho e assim por diante… elas não queriam voltar. A decisão foi de ficar. Eu também não me arrependo, talvez, se tivesse voltado, teria desenvolvido minha carreira de uma outra forma. De fato, meu período mais interessante aqui foi quando cheguei. Tudo era inédito, eu estava aprendendo a falar bem a língua, estabelecendo contatos. Era, além disso, um período muito rico da História do Brasil e, daqui de Paris, acho que pude ajudar mais.

IMPRENSA – Sua família foi muito importante naquele momento inicial, de adaptação, auxiliando a consolidação da sua carreira, como naquela vez em que você estava cobrindo uma guerra e a Amélia teve que viajar, até onde você estava, para te levar algum dinheiro…

Reali – Naquele tempo não tinha cartão de crédito, nem nada disso…Eu fiquei um mês no Iraque, até ser expulso. O jornal queria que eu tentasse voltar. Não tinha mais dinheiro e a forma encontrada foi que depositassem uma quantia para a Amélia, em Paris. Num fim-de-semana, saí de Amã para Atenas e ela, de Paris para Atenas. A gente se encontrou para ela me passar o dinheiro – e também para fazer outras coisas…(risos).

IMPRENSA – Com que pretexto você foi expulso do Iraque?

Reali – No começo da guerra, o Saddam Hussein achou que acabaria com o Irã em dois minutos, por isso facilitou ao máximo a entrada dos jornalistas. Ele queria ser o presidente dos não-alinhados, que estavam contra o Khomeini. Levava os repórteres para a frente de batalha.Depois de dez dias, ele viu que as coisas eram mais difíceis do que imaginava. A presença da imprensa começou a incomodar. Nós chegávamos no hotel e aparecia uma lista de jornalistas que teriam ?pedido? para ir para Amã (eram os expulsos). Um dia, meu nome estava na lista. Combinei com um jornalista mexicano de ?perdermos? o ônibus. Quando voltamos, fomos obrigados a deixar o país.

IMPRENSA – Você também cobriu a crise polonesa, no tempo do Lech Walessa?

Reali – Estive mais de dez vezes na Polônia, inclusive durante o golpe de estado do general ( Wojciech) Jaruzelski (em 1981). Fomos eu, o William Waack (pelo Jornal do Brasil, na época) e o Marco Antônio Resende (pela Veja). Ficamos 15 dias como clandestinos. Eu e o Marco Antônio fomos juntos, pegamos o primeiro avião que saiu de Paris, após o golpe. Quando chegamos ao aeroporto de Varsóvia, a polícia me barrou. O Marco Antônio conseguiu passar e ainda se virou para fazer uma brincadeira: ?Estou aliviado. Como ía concorrer com você, que escreve para um jornal diário, enquanto eu escrevo para uma semanal?? (risos). Fiquei umas cinco horas para me explicar (tinha entrado com visto de negócio), mas tive sorte, porque me lembrei que o Brasil estava construindo um estaleiro e disse que fui resolver a compra de uns navios. A história acabou convencendo. Com o William, eu tinha um trato: cada um escreveu sua matéria e, na hora de ir embora, eu levei uma cópia do texto dele e ele levou uma cópia do meu. Se algum dos dois não conseguisse sair, um mandaria a matéria do outro.

IMPRENSA – A maioria dos novos repórteres vive presa nas redações, fazendo matéria por telefone e, por conseqüência, perde essa destreza, essa capacidade de tomar atitudes rapidamente…

Reali – Hoje em dia, é difícil encontrar um repórter autêntico. Isso se deve à falta de preparo dos profissionais e ao comodismo (são repórteres ?sem caderneta?, sem contato), mas isso se deve também à política editorial, quecada vez mais exige que as matérias sejam feitas rapidamente e que o mesmo profissional cubra diversos assuntos – quando os textos não são mal-editados ou mesmo recusados. Isso é uma falta de respeito com o repórter e, principalmente, com o entrevistado. Outro dia, por exemplo, fiz uma matéria em que dizia qual era a entidade (uma grande companhia siderúrgica) que vai financiar a campanha do Garotinho. Na hora de editar, o cara suprimiu essa informação! Isso aconteceu porque quem fez, deve ser, ainda, inexperiente, mas a matéria perdeu seu dado mais importante.

IMPRENSA – Você já sentiu, alguma vez, que não era mais o Reali Jr, mas o pai da Cristiana Reali (ou de outra de suas filhas)?

Reali – Já e com muito orgulho! É uma coisa interessante. Nos anos 60, quando comecei no jornalismo, era ?o filho do Elpídio Reali?. Quando entrei na TV Record, fiquei mais conhecido. Meu pai me falava: ?Estou perdendo minha identidade, virei o pai do Realinho? (risos). Depois de 30 anos, aconteceu a mesma coisa comigo. No Brasil, eu ainda defendo minha identidade, mas, principalmente aqui na França, sou o ?pai da Cristiana?.

IMPRENSA – Você não tem vontade, de vez em quando, de trocar a ?Maison de la Radio? por algum espigão na Avenida Paulista?

Reali – Às vezes fico abismado com o quanto sou brasileiro! Depois de trinta anos fora, era para ter perdido um pouco a identidade. Tenho uma relação muito grande com São Paulo, quando chego lá ando por tudo normalmente ? de vez em quando, quebro a cara numa contra-mão (risos). Continuo muito ligado ao Brasil, mas isso não quer dizer que eu tenha vontade de voltar, me instalei bem aqui em Paris, me acomodei. Precisaria ter algum projeto para voltar, mas acho que não tenho nem mais idade para isso! (risos). Minha família está aqui, estão todos bem. Quero preservar isso e continuar servindo ao jornalismo."

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