Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > IDEOLOGIA E TÉCNICA DA NOTÍCIA

Ricardo Bonalume Neto

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

BAO CHI, BAO CHI

"Em narrativa, realidade supera ficção", copyright Folha de S. Paulo, 22/06/02

"Morreram 45 jornalistas cobrindo a longa Guerra do Vietnã; 18 foram dados como desaparecidos (ou seja, morreram também). Quatro deles foram mortos em maio de 1968 quando o jipe em que andavam por Saigon (hoje Ho Chi Minh) foi metralhado por guerrilheiros vietcongues. Um outro escapou para contar a história. As vítimas gritavam ?bao chi, bao chi? ? ?imprensa?, ?jornalista?-, mas mesmo assim foram mortos. Apenas um general americano morreu nessa guerra. Foi acidente.

Nessa mesma época, o jornalista brasileiro Luís Edgar de Andrade estava no Vietnã. O incidente faz parte desse seu romance sobre a guerra com fortes traços autobiográficos. Assim como Andrade, o personagem principal, Miguel Arruda, chegou ao então Vietnã do Sul no final da ofensiva do Tet, um arriscado lance da guerrilha comunista e dos seus aliados do Vietnã do Norte que levou os combates do campo para o coração das cidades.

Andrade e o alter ego Arruda também passaram por um dos locais mais perigosos e de maior simbolismo da guerra: a base americana em Khe Sanh, próxima da fronteira entre os dois Vietnãs.

Cerca de 6.000 fuzileiros navais (?marines?) americanos estiveram durante mais de três meses cercados por uma força comunista várias vezes maior. Havia o risco de acontecer com os EUA o que tinha se passado com a França na década anterior, quando a guarnição francesa da base cercada de Dien Bien Phu teve que se render. A derrota marcou o fim do colonialismo francês na região.

Andrade descreve com realismo a base sitiada, alvo de foguetes, de granadas de artilharia e morteiro, além de estar ao alcance de atiradores de tocaia. Um errinho de revisão compromete a compreensão do drama: na página 94, um personagem comenta que de janeiro a março de 1968 as colinas em volta de Khe Sanh receberam mais bombas do que toda a Inglaterra na Segunda Guerra, ?110 toneladas de bombas?. Faltou a palavra ?mil?. O livro felizmente tem poucos erros do gênero (a música de Jimi Hendrix é ?Foxy Lady?, não ?Fox Lady?).

Os quatro repórteres mortos têm seus nomes reais usados no livro, assim como personagens conhecidos, como o coronel David Lownds, comandante da base de Khe Sanh, ou os jornalistas Peter Arnett, e Sean Flynn (também morto na guerra, era filho do ator Errol Flynn). Os personagens brasileiros têm nomes que podem permitir uma fácil identificação. Por exemplo, o jornalista José Hamilton Ribeiro, da antiga revista ?Realidade?, tem o acidente em que pisou em uma mina descrito no livro. Só que o personagem se chama José Airton Rodrigues, e a revista chama-se ?Verdade?.

Apesar de não haver nenhuma invencionice na descrição dos fatos básicos, a opção pelo romance frustra um pouco quem gostaria de saber mais sobre o real trabalho de Andrade e seus colegas na cobertura dessa guerra fundamental do século 20.

Pois esse foi um conflito em que a realidade superou em muito a ficção, algo que pode ser resumido em uma frase: ?Tivemos de destruir Ben Tre para salvá-la?, disse em 1968 um major não-identificado ao correspondente neozelandês Peter Arnett."

***

"Livrarias têm boas coberturas de guerras", copyright Folha de S. Paulo, 22/06/02

"Livros como os de Luís Edgar de Andrade e Rosely Forganes deveriam ser leitura obrigatória em escolas de jornalismo.

Andrade viveu a época áurea do jornalismo de guerra. As forças armadas dos EUA no Vietnã davam transporte, alojamento e comida aos correspondentes.

Graças ao forte impacto dessa cobertura na opinião pública desde então os militares têm procurado limitar o acesso do jornalista ao campo de batalha.

Ironicamente, o livro que é citado como boa descrição da atividade do correspondente de guerra procura mostrar que este sempre falha na tarefa: ?A Primeira Vítima?, do australiano Phillip Knightley (de 1975, editado no Brasil em 1978).

Knightley nunca cobriu um conflito. Por isso não entende que o correspondente nunca consegue ter toda a ?verdade?, que no máximo pode obter uns pedaços do quebra-cabeças.

Para avançar sobre as opiniões de Knightley seria conveniente que o leitor brasileiro pudesse ler o livro de Hastings, ?Going to the Wars? (?Indo às Guerras?), um verdadeiro guia de como cobrir um conflito.

Outro excelente livro está disponível em português: ?Ao Vivo do Campo de Batalha? (Editora Rocco, 1994), as memórias do neozelandês Peter Arnett.

Ele não foi de todo honesto ao dizer que estava sozinho em Bagdá em 1991 e depois se envolveu na falsa divulgação de que os EUA teriam usado armas químicas na Indochina. Mas foi certamente o repórter que mais visitou campos de batalha do Vietnã.

Arnett foi, junto com David Halberstam e Neil Sheehan, um dos que primeiro enxergaram os erros da intervenção americana no Vietnã. Justamente por isso os três foram objeto de outro livro importante, ?Once Upon a Distant War? (?Era Uma Vez uma Guerra Distante?), de William Prochnau, de 1995."

 

IDEOLOGIA E TÉCNICA DA NOTÍCIA

"Clássico do Jornalismo é reeditado 22 anos depois", copyright Comunique-se, 19/6/02

"O livro ?Ideologia e Técnica da Notícia?, do professor e pesquisador Nilson Lage (EdUFSC e Insular, 2001, 160 págs., R$ 20), é uma obra de referência para jornalistas, pesquisadores, professores e estudantes de comunicação. É um título que já nasceu clássico, pois, 22 anos após a sua primeira edição, continua extremamente atual.

Nilson Lage faz uma pesquisa abrangente e apresenta uma análise original e crítica do jornalismo, dos meios de comunicação e da notícia. A obra do professor da UFSC respalda-se em sólidos fundamentos teóricos e filosóficos, mas também ampara-se na prática de quem atuou nas redações. O seu colega no Curso de Jornalismo, Eduardo Meditsch, autor de ?O rádio na era da informação? (EdUFSC/Insular), define o livro como ?um marco na Teoria do Jornalismo?. Lage, segundo ele, ?juntou a sua base científica com a sua vivência profissional e compreensão do papel social do jornalismo para produzir um estudo consistente e útil sobre a notícia?.

Abrindo ?um novo campo de investigação acadêmica no país (a Teoria do Jornalismo)?, a obra permitiu, por exemplo, ao professor Adelmo Genro Filho, que foi uma espécie de divisor de águas no Curso de Jornalismo da UFSC, lançar a proposta de estudar o jornalismo como ?forma de conhecimento?. Adelmo escreveu em 1987 o livro ?O segredo da pirâmide?, onde rebate alguns dos pontos de vista formulados por Lage. ?Adelmo morreu cedo – era jovem – e não tive oportunidade nem de trocar idéias com ele?, lamenta.

?Ideologia e Técnica da Notícia? foi lançado, sem grandes badalações, pela primeira vez em 1979. O texto é resultado da dissertação de mestrado defendida em 76 na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A terceira edição vem com breves acréscimos e atualizações em alguns capítulos. A sensação de Nilson Lage será, certamente, compartilhada pelo leitor: é ?a sensação de que tudo mudou, mas tudo continua a mesma coisa?.

Além de clássica, a obra ressurge com a marca da polêmica. Embora esgotada, os leitores continuaram se multiplicando. A prova, de acordo com Lage, são as críticas que provocou: ?algumas veementes, e não se critica o irrelevante?. O autor também explica a demora para a reedição: ?Porque estava ocupado com outras coisas. Mais com semântica do que com sintaxe. Mais com o acompanhamento dos avanços tecnológicos da imprensa do que com as questões gerais de semiologia. Mais em difundir conhecimento do que em aprofundá-lo?.

Todas essas preocupações foram, contudo, incorporadas, de forma sucinta, ao livro. Por exemplo, duas décadas depois, ?a indústria gráfica sofreu uma revolução, devida principalmente à generalização do uso do computador?. Lembra que ?coexistiam na imprensa brasileira as formas mais avançadas e as mais primitivas, ou artesanais, de fabricar periódicos?. Esclarece que ?a imprensa já existia como possibilidade material muito antes da exigência social que a fez brotar?. Lage lança dúvidas sobre a originalidade dos inventos atribuídos a Gutenberg, observando que ?razões mais profundas relacionam-se com a ideologia da narrativa histórica?, enfim, com a notícia. ?De qualquer forma, a invenção da Imprensa está na pré-história dos periódicos?, informa.

Primor da observação

Teorizando com a mente na academia e os pés no chão das redações, Lage ministra história e realidade. Fala de comunicação, da descoberta da ?imensa potencialidade do texto escrito como instrumento de propaganda e informação?, sublinhando que ?a liberdade de expressão do pensamento somou-se, na luta contra a censura, às outras liberdades pretendidas no ideário burguês, e o jornal tornou-se instrumento de luta ideológica, como jamais deixaria de ser?.

Ao fazer um relato histórico, o autor, refere-se ainda ao duplo papel desempenhado pela publicidade. ?Por um lado, permitiu a rebaixa do preço do exemplar, colocando os jornais mais facilmente ao alcance da população recém-alfabetizada. Por outro lado, integrou profundamente a empresa jornalística com o setor econômico que lhe passou a garantir a sobrevivência?. Esta constatação pode levar ao fato de que, ainda hoje, a realização de uma boa reportagem depende do ?necessário interesse? da indústria em produzi-la. ?Eventualmente por questão de sobrevivência na luta pela conquista de leitores ou de prestígio?, acredita Lage.

Quando penetra no tema central do livro, isto é, ?ideologia e técnica da notícia?, o pesquisador esmiúça o conceito de objetividade que ?consiste basicamente em descrever os fatos tal como aparecem?, o que significa, em outras palavras, ?o abandono consciente das interpretações, ou do diálogo com a realidade, para extrair desta apenas o que se evidencia?. Sendo assim, ilustra Lage, ?a competência profissional passa a medir-se pelo primor da observação exata e minuciosa dos acontecimentos do dia-a-dia?.

Esta forma, contudo, ofereceu ?certas vantagens?, entre as quais Lage cita ?o compromisso com a realidade material, a aceleração do processo de produção e troca de informações e a denúncia das fórmulas arcaicas de manipulação?. Afinal, como salienta, ?a reiteração ideológica teria que ser feita por outros meios, e estes foram supridos por novas formas de produção de informação?.

Liberdade do capital

A grande imprensa brasileira, conforme diagnostica o pesquisador, é uma imprensa de elite. O fato leva à seguinte conclusão: ?embora às vezes graficamente primorosa, os grandes jornais brasileiros seriam bastante eficientes do ponto de vista editorial, distantes do leitor, preocupados demais em servir à complexa ordem do poder?. Seriam? Logo adiante Lage deixa de lado a hipótese para noticiar que ?os grandes idealismos políticos, a crítica e o humor, que estavam em alta há 20 anos, praticamente desapareceram como focos de leitura inteligente?.

Collor à parte, o pesquisador sustenta que ?para o bem ou para o mal, nunca se denunciou tanto, e nunca foram tão inúteis as denúncias?. Lage vai além: ?também nunca se exaltou tanto a modernidade cosmopolita contra o conservadorismo nacional e o popular; ou se mostrou tão unânime o discurso da mídia – submissa a uma espécie de onda que varre o mundo, define como simpáticos ou condena aqueles que tentam resistir?. Diante desse quadro, o autor denuncia que ?a liberdade, hoje sabemos, é do capital. E a verdade impressa também lhe pertence?.

O escritor revela, didaticamente, que ?a primeira coisa que um jornal informa é sua ideologia?, assinalando que ?num grande diário, será a ideologia de um segmento econômico bastante forte para suportar os custos?. Portanto, alerta, ?só os ingênuos acreditam que não têm interesses capazes de levá-los a deturpar fatos?. Em suma, complementa, os jornais encontram-se numa furada: ?são veículos de ideologias práticas, mesquinharias?.

Ainda na opinião de Lage, o jornalismo é como a política, ?uma arte do possível, e como a filosofia, o cenário de uma luta em que a materialidade do mundo termina por se impor. O compromisso com esse aspecto material, real, do fato compõe um aspecto renitente, espontâneo e positivo do modo de ser dos jornalistas?.

Lage também faz ciência e conhece da arte. ?Se o campo de conhecimento é novo e se propõe um objeto muito extenso, é provável que o cientista crie uma realidade ilusória com base nos seus critérios particulares de verdade?. Daí a conclusão: ?não há ciências reacionárias, mas usos historicamente reacionários das ciências?.

Lage, sem dúvida, promove a Teoria do Jornalismo, mas também dá alimento à ideologia."

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