Segunda-feira, 17 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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PRIMEIRAS EDIçõES >

Ricardo Calil e Sérgio Vilas Boas

Por lgarcia em 19/09/2001 na edição 139

TERROR & HORROR

"Luto no aniversário do ?Times?", copyright Gazeta Mercantil, 14/09/01

"No dia 18 de setembro de 1851, foi publicada a primeira edição do ?New-York Daily Times?, jornal de quatro páginas fundado por Henry Jarvis Raymond e George Jones e produzido em um apartamento iluminado por luz de velas na região ?downtown? de Manhattan. No próximo dia 18, o jornal, rebatizado como ?The New York Times?, parte de um império de comunicação comandado pela família Ochs-Sulzberger com faturamento anual de US$ 3,5 bilhões, completará 150 anos, irônica e possivelmente também sob ameaça de iluminação precária, após os atentados terroristas do último dia 11, que puseram abaixo um símbolo da cidade, o World Trade Center, e a fiação elétrica que serve a região de Lower Manhattan.

A manchete estampada na edição do dia 12 do jornal, ?Estados Unidos sob ataque?, à qual se seguiu uma foto espetacular do momento da explosão da Torre Sul do World Trade Center, não seria nem de longe a esperada a seis dias da comemoração do sesquicentenário da publicação.

Para a data, o jornal havia programado uma série de eventos, entre eles uma edição especial do ?Arts & Leisure Weekend? (Fim-de-semana de Artes & Lazer), com eventos culturais em todo o mundo, dos dias 14 a 16. Entre as atrações anteriormente anunciadas, estariam entradas gratuitas para mais de 100 museus, incluindo o Louvre de Paris e o Museu de História Natural de Nova York, e ingressos para 20 peças de Broadway e 50 do circuito off-Broadway com o preço reduzido de US$ 18,51 (em referência ao ano da fundação). No mesmo final de semana, o ?New York Times? organizaria o ?Critic?s Choice? (Escolha dos Críticos), em que seus jornalistas fariam entrevistas abertas ao público com alguns dos principais nomes da cultura norte-americana. No dia 20, a atração seria o caderno especial ?From Newspaper Age to Information Age? (Da Era do Jornal à Era da Informação), com textos de alguns dos principais colaboradores sobre o passado e o futuro do jornal, além de uma retrospectiva com os melhores cartuns, as mais interessantes cartas dos leitores e as correções mais engraçadas da história da publicação.

A programação de aniversário não havia sido confirmada até quarta-feira última, dia de fechamento da edição deste caderno, pelos coordenadores do calendário de eventos, os jornalistas Rick Flaste e Susan O?Connor. Procurados pela reportagem, eles esperavam se reunir até o fim da semana para rediscutir as datas.

Maior representante de uma mídia longeva, o ?New York Times? mantém sua média de 1,1 milhão de leitores diários (1,7 milhão aos domingos) e tem hoje 10 milhões de usuários registrados em seus serviços na web. Recentemente, o NYTimes.com chegou a 200 milhões de páginas visitadas em um mês, o que o tornou o jornal mais lido do mundo na internet.

O processo de modernização do ?Times? inclui uma nova sede, projetada pelo arquiteto italiano Renzo Piano. O arranha-céu, uma torre transparente de 45 andares e 214 metros, tinha até a última segunda-feira a inauguração prometida para 2003, na Oitava Avenida, entre as ruas 41 e 42. O plano seria abrigar ali as principais operações do jornal, realizadas há 88 anos no histórico edifício da rua 43, na Times Square. Foi o jornal que deu nome à mais conhecida praça do mundo, antes chamada de Longacre Square.

Hoje, a New York Times Company publica 17 jornais e possui oito estações de TV, duas de rádio e 40 web sites. O faturamento do grupo no ano 2000 chegou a US$ 3,5 bilhões. O ?Times? não mede gastos para fazer um produto de qualidade. Só a conta anual dos críticos de gastronomia chega a US$ 200 mil. O ?The New York Times? conta com 1.200 jornalistas, com 19 sucursais nos Estados Unidos e 26 pelo mundo, incluindo uma no Rio.

A trajetória do ?Times? se confunde com a história do clã Ochs-Sulzberger, proprietário do jornal há mais de 100 anos, como mostra o excelente livro ?The Trust?, de Susan E. Tifft e Alex S. Jones, de 1999. Antes da aquisição pelo clã em 1896, o ?Times? era uma publicação pequena, respeitada e falida. A família o transformou no mais relevante jornal americano, e o jornal, por sua vez, a transformou em uma das mais importantes famílias dos EUA. Os Ochs-Sulzberger nunca tiveram o charme e a celebridade dos Kennedys, sendo em geral avessos a publicidade e ostentação, mas tiveram um peso similar na construção da América moderna e seu quinhão de tragédias pessoais.

Alfred S. Ochs, filho de judeus alemães, disse que se interessou pelo ?Times? por causa de ?seu bom nome?. Visionário, ele tentou fazer um produto o mais imparcial possível, que não fosse identificado como ?um jornal judeu?, em uma época em que reinava o jornalismo editorializado dos Hearst e Pulitzer. Ele definiu o ?Times? mais como instituição pública do que empresa privada. Durante a Primeira Guerra, publicou documentos oficiais dos dois lados e nunca pediu a rendição da Alemanha. Com acusações de traição à pátria e mais tarde a ascensão de Hitler ao poder, ele se tornou maníaco depressivo e morreu em 1935.

A sucessão de Ochs foi comandada por sua filha Iphigene, que escolheu o marido Arthur Hays Sulzberger como novo editor. Por ser mulher em uma época machista, nunca foi cogitada para dirigir o império, mas foi ela que apartou as muitas brigas entre os feudos familiares para manter a integridade e o caráter liberal do jornal. Iphigene foi a filha do primeiro, mulher do segundo, sogra do terceiro, mãe do quarto e avó do quinto editor do jornal.

Arthur Sulzberger, marido de Iphigene, foi editor do jornal por 26 anos. Ele adotou medidas – como fotos e tipos maiores e a duplicação do número de jornalistas – que elevaram a circulação do jornal para 600 mil exemplares. Por outro lado, sob seu comando o ?Times? cometeu o maior erro jornalístico de sua história, ao relegar o Holocausto às páginas internas e não identificar as vítimas dos campos de concentração como judeus – o motivo, uma vez mais, era não associar o jornal ao semitismo. Outro equívoco do ?Times? foi saber da invasão da Baía dos Porcos com antecedência e não noticiá-la a pedido do governo.

As responsabilidades como editor levaram Sulzberger a um vício em remédios. Ele foi substituído em 1961 por Orvil E. Dryfoos, marido da filha mais velha de Iphigene, que morreu de um ataque no coração apenas dois anos depois, após enfrentar uma greve de 114 dias dos jornalistas. Mais uma vez, a matriarca escolheu o substituto, desta vez o filho mais novo, Arthur Ochs Sulzberger. A princípio, pareceu uma escolha equivocada: Punch levava uma vida de playboy e não tinha grande carisma ou intelecto. Mas foi salvo pelo bom senso típico da família. Ele decidiu cuidar apenas dos negócios do grupo e delegou as funções editoriais ao brilhante A.M. Rosenthal, primeiro chefe de redação judeu do ?Times?. Punch foi substituído em 1992 pelo filho Arthur Ochs Sulzberger Jr., até então conhecido pelo gosto por motocicletas e também cercado por ceticismo no meio jornalístico. Mas, até agora, Arthur Jr. tem feito um trabalho consistente, com manutenção do número de leitores e avanços na área da internet. No livro ?The Trust?, um jornalista não identificado do ?Times? afirmou: ?No fundo de sua alma, Arthur acredita que, se falhar, ele vai queimar no inferno.? Mas o editor combate o sentimento com a fé na tradição da família: ?Eu tenho o ?Times?. Ele é minha religião.? O mesmo poderia ser dito por mais de 1 milhão de leitores."

 

"Atentados nos EUA", copyright Folha de S. Paulo, 17/09/01

Dia 17 – "As palavras dão continência à angústia. Agradeço a Sebastião Salgado por suas palavras (?Quando se vê a morte através da lente?, caderno Guerra na América, pág. Especial 16, 15/9). Ao longo da semana, não vi nem ouvi ninguém que, com tanta delicadeza, sensibilidade e realidade, conseguisse retratar tão bem um olhar sobre esse momento de tanta reflexão. Maria Flávia Stockler, São Paulo, SP

Como todo ser humano, estou pesaroso em decorrência dos acontecimentos que resultaram em milhares de mortes nos Estados Unidos. Entretanto não poderemos permitir que o governo brasileiro dê cheque em branco para que outros saiam atirando em nosso nome. Nossos governantes deverão analisar com profundidade as causas destes conflitos e a maneira de evitá-los no futuro. Hiroshima e Nagasaki são -entre outros- exemplos da insanidade humana! Leonardo de B. Giordano, Brasília, DF

Parabéns à Folha pela cobertura isenta e informativa do terrível atentado aos ícones americanos. Na edição de 15/9, uma frase e duas fotos dizem tudo. A frase: Bush promete ?livrar o mundo do mal?. As fotos: as devastações em Manhattan e em Cabul, estampadas na pág. 1 do caderno especial. Cabul está incluída no mundo que Bush quer salvar? Como salvar o mundo todo se não puderam evitar ataques tão contundentes a pontos estratégicos do mundo americano? Lia Rachel M.Ruffo São Paulo, SP

Quero congratular-me com Clóvis Rossi pelo artigo ?A outra face do terror? (Opinião, pág. A2, 15/9). Lamento profundamente as vítimas inocentes, mas o que houve não confere a Estado nenhum o direito de produzir outras vítimas inocentes. Os culpados devem ser julgados segundo as leis vigentes num Estado de Direito. Antoniel Alves Feitosa, Recife, PE

A charge apresentada na pág. A2 em 15/9 é revoltante. Enquanto grande parte do mundo está abalada, entristecida e solidária com as vítimas dos atentados, esta Folha se ?diverte? com humor negro. Astério Vaz Safatle, São Paulo, SP"

Dia 16 ? "A posição da Folha em relação aos atos terroristas contra os EUA faz frente às dos maiores jornais do mundo, que mais parecem movidas pelo sentimento de patriotismo e por uma visão maniqueísta do que pela intenção de fazer uma análise racional e mais abrangente do ocorrido. Devemos, sim, exprimir solidariedade e repúdio aos ataques terroristas ocorridos na terça-feira. Essa política não leva aos objetivos propostos, como bem observou Otavio Frias Filho em sua coluna de quinta-feira (Opinião, pág. A2, 13/9). Mas, antes do apoio a represálias militares a países supostamente envolvidos, devemos repensar nosso conceito da luta do ?bem contra o mal? e suas reais consequências. As gerações que não conheceram os cenários do pós-guerra precisam lembrar que de romântica e cívica a guerra não tem nada. Tampouco podemos reagir como se a hegemonia econômica norte-americana e a política do terror fossem novidade. Desta vez, a última foi, bem ou mal, uma resposta à primeira. O pior: realizando uma ação muito mais simples do que aquela que o Exército americano estava preparado para enfrentar. Essa resposta era previsível. Reinaldo Caruso, São Paulo, SP"

Dia 14 ? "Concordo que o terrorismo nos EUA mereça uma grande cobertura, mas é um absurdo que milhares de vidas estejam sendo ceifadas na Nigéria e apenas uma pequena nota escondida no jornal mal nos informe a respeito disso (Mundo, pág. A10, 13/9). A Folha e toda a imprensa desprezam os terríveis acontecimentos há tempos vivenciados no continente africano. Jefferson Chapieski, Curitiba, PR"

Dia 13 ? "Foi revoltante ler o editorial ?Guerra na América? (Opinião, pág. A2, 12/9), no qual o indisfarçável viés antinorte-americano e a patética tentativa de justificar o injustificável nada mais fazem do que ajudar a perpetrar o terror e a violência no mundo. Está mais do que na hora de a imprensa -e em especial a Folha- refletir sobre o seu papel nos acontecimentos que vivemos no Brasil e no mundo. Mais do que nunca, senti-me absolutamente envergonhado de ser leitor e assinante da Folha. Moacir Salzstein, São Paulo, SP

Eu, que na maioria das vezes discordo da linha editorial da Folha, desejo reconhecer e, simultaneamente, parabenizar a lucidez presente no editorial ?Guerra na América?. A unipolaridade pretendida pelos Estados Unidos faz mal para o mundo. E, pelo que se viu, para o próprio país. Edilson Adão C. Silva, São Paulo, SP"

 

"Ataque aos EUA derruba publicidade na TV", copyright Folha de S. Paulo, 17/09/01

"O mercado publicitário e as redes de TV estão passando por um ?setembro negro?. Segundo estimativas de analistas do setor, o investimento publicitário em TV caiu de 20% a 25% neste mês, em relação a setembro de 2000.

Os ataques terroristas contra os EUA, na semana passada, aprofundaram a crise -com a alta do dólar e a estagnação da economia, o setor já estava em baixa, com uma queda de cerca de 10% no primeiro semestre.

Na semana passada, as agências publicitárias registraram um alto índice de cancelamentos de campanhas. Prevendo queda no consumo, as empresas estariam deixando de anunciar. Envolvidas diretamente no atentado, a United e a American Airlines suspenderam novas campanhas.

A Globo deve registrar em setembro uma queda de 20%. Apesar do alto ibope do ?Jornal Nacional?, o telejornal teve na semana intervalos de apenas um minuto de publicidade -o normal são quatro minutos. O noticiário de catástrofes não estimula o consumo de produtos anunciados.

Intervalos da novela das oito têm sido preenchidos por anúncios da casa. Para alavancar seu departamento comercial, a emissora sondou Daniel Barbará, considerado o maior especialista em veiculação de propaganda.

A crise poderá afetar a programação das TVs. A Globo já está reformulando programas pouco rentáveis, como os infantis."

***

"Atentado entra na ?guerra dos domingos?", copyright Folha de S. Paulo, 16/09/01

"O atentado terrorista que destruiu as torres gêmeas do World Trade Center e parte do Pentágono, nos Estados Unidos, na última terça-feira, vai ser um dos principais assuntos dos programas dominicais de amanhã.

O ?Domingo Legal?, do SBT, pretende exibir uma simulação do atentado às torres e imagens ao vivo da CNN. Pilotos e especialistas em segurança deverão comparecer ao palco do programa. O material deverá entrar no ar no final da atração, competindo com o ?Domingão do Faustão? e o ?Fantástico?, que irá explorar o fato.

Até ontem à tarde, não havia nada planejado sobre o assunto pelo ?Domingão do Faustão?, cuja principal atração será a dupla sertaneja Bruno e Marrone.

O atentado também está afetando o faturamento das emissoras. O SBT cancelou viagens internacionais pelos próximos 60 dias, também devido à alta do dólar.

O seminário sobre TV digital que o ATSC (Advanced Television Systems Committee) iria promover no próximo dia 20 em Brasília foi adiado.

O encontro pretendia promover o padrão de TV digital norte-americano, rejeitado pelas redes brasileiras, que preferem o japonês. Transmissões experimentais seriam realizadas.

Participariam do evento executivos da CBS e Viacom, além de Richard Wiley, ex-presidente da FCC (a Anatel dos EUA). O seminário deve ocorrer em outubro."

 

"TVs americanas cobrem a morte de longe", copyright Folha de S. Paulo, 17/09/01

"Meio da tarde de terça-feira passada, poucas horas depois do colapso das torres do World Trade Center. Uma repórter da rede americana NBC entrevista uma mulher que, carregando um bebê, fala das precauções tomadas pelos moradores de prédios próximos.

De repente, um estrondo. E uma nuvem de fuligem negra toma conta da rua. A entrevistada desaparece, a repórter precisa interromper a transmissão. Era o terceiro prédio caindo. Tudo ao vivo. Foi um dos raros momentos de emoção fora de controle na gigantesca cobertura das grandes redes de TV (ABC, CBS, NBC e Fox) e dos canais a cabo especializados em notícias (CNN, Fox News, MSNBC e CNBC).

Uma cobertura precisa, em que a maior parte dos acontecimentos fundamentais (o segundo avião que colidiu com o World Trade Center e o colapso seguinte dos dois prédios) aconteceu na frente das câmeras. Mas foi também uma cobertura ?de gabinete?, com ênfase na capacidade de condução dos âncoras (os apresentadores dos telejornais americanos) e nas imagens em plano aberto, distantes. Falava-se em ?dezenas de milhares de mortos?, ?algo pior que Pearl Harbor?, mas praticamente não havia imagens do drama, do resgate dificílimo, do trabalho desesperado nos hospitais. No lugar de tudo isso, muitas entrevistas coletivas e repórteres a uma distância segura dos alvos dos atentados.

É verdade que, em acontecimentos desse tipo, são imensas as dificuldades técnicas para obter imagens próximas e ao vivo. Primeiro, pela própria característica da TV (que exige equipamentos complexos), porque é preciso preservar a integridade física dos jornalistas. Segundo, porque, num país como os EUA, os cordões de isolamento são rigorosamente respeitados. Mas esperava-se que, ao longo do dia dos ataques, houvesse tempo para uma cobertura mais próxima, mesmo que gravada.

Não aconteceu. Peter Jennings, que conduziu a cobertura da rede ABC, deu o tom geral. Desde cedo no estúdio, bem antes de seu horário, falou sempre com voz muito mais baixa e pausada do que o normal.

O mesmo aconteceu com o apresentador que estava no estúdio quando um prédio caiu na frente da repórter da NBC. Contido, disse apenas: ?Saia daí e, se possível, deixe a câmera ligada?. Como resumiu Dan Rather, na CBS: ?Se fosse um livro, os críticos diriam que é exagerado, mas aconteceu?."

    
    
                     
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