Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > CASA DOS ARTISTAS

Ricardo Feltrin e Sérgio Ripardo

Por lgarcia em 19/12/2001 na edição 152

CASA DOS ARTISTAS

"Grande vencedor de ?Casa dos Artistas? é Silvio Santos" copyright Folha Online, 16/12/01

"Silvio Santos cantarolou, brincou, leu jornais, ironizou a Globo, sincronizou os intervalos com a concorrência, entrou em ?rede? com a Record e até transformou a propaganda de um carro, o Fiat Doblò, em um ?evento?. Imbatível rei dos domingos há pelo menos dois anos na TV, o dono do SBT só não fez chover no último dia da ?Casa dos Artistas?, que consagrou Bárbara Paz como a grande vencedora.

O programa do SBT, maior fenômeno de audiência do ano na TV, apesar de acusado de plágio pela Globo (cópia de ?Big Brother?, diz a emissora carioca), se tornou uma verdadeira ?febre?.

A média alcançada, de 50 pontos de ibope, neste domingo, foi só a ponta desse iceberg televisivo criado por Silvio Santos. Também em termos publicitários, ?Casa dos Artistas? já está na história.

Sim, das primeiras 20 maiores audiência da TV brasileira, a Globo continua a primeira em 17 ou 18 atrações. Mas ?Casa dos Artistas? certamente foi o maior dos chacoalhões já dados na emissora de Roberto Marinho.

Em uma época de vacas magras, com a receita publicitária das TVs em queda livre, Silvio conseguiu criar um produto barato e capaz de reduzir o impacto da crise econômica no balanço de sua emissora. Não se deve esquecer que o homem do Baú acaba de sair de um episódio pessoal traumático, com o sequestro de sua filha Patrícia Abravanel.

É certo que ?Casa 2?, ou mesmo ?3?, não fará tanto sucesso. A novidade é o aqui e agora, afinal o telespectador costuma se cansar dos formatos repetitivos _a exemplo do que ocorreu com ?No Limite?.

Mas vale justamente pelo ineditismo: é possível imaginar a direção da Globo neste domingo, completamente atônita, sintonizando o SBT em pleno ?No Limite 3?… E vendo o comunicador Silvio Santos dar ?aula? de como criar um fato social (fato, por que não?) e derrubá-la ao chão na audiência.

Agora cabe à Globo se levantar, tirar a poeira e dar a volta por cima. E não deverá ser com ?Big Brother?"

"Namoro na TV?" copyright Folha de S. Paulo, 11/12/01

"O jipe Suzuki seminovo, cor-de-grafite, está imundo. Não vê água há semanas. O pára-brisa, com o vidro levemente trincado, exibe um adesivo otimista: ?Sou da paz?. Na traseira do carro, outra inscrição, agora em inglês, diz algo como ?Nasci para atuar?.

Sempre que circula pela pequena rua, a polícia desconfia. Imagina que o jipe seja roubado e que os ladrões o abandonaram lá, na porta do edifício Alfa, um condomínio de classe média em Cerqueira César (região central de SP). O zelador, porém, logo trata de esclarecer: ?Roubado nada. O carro pertence à dona Bárbara?.

Quando não dá expediente na ?Casa dos Artistas?, dona Bárbara vive naquele prédio. Ela é a gata borralheira do ?reality show? que termina domingo.

Gaúcha de origem humilde, órfã desde muito jovem, a modelo e atriz Bárbara Paz, 27, parece que finalmente fisgou um príncipe encantado: Supla, o filho roqueiro da prefeita Marta Suplicy.

O exótico casal, de namorico, rouba a cena durante o programa e confunde o zelador que tanto se empenha em desmanchar as confusões da polícia. Confunde também outros funcionários do edifício e uma porção de moradores.

O motivo do nó: um homem alto, de longos cabelos castanhos, cavanhaque e olhos azuis, que frequenta o apartamento 64, o mesmo onde Bárbara mora.

A vizinhança já avistava o sujeito por ali antes de a moça migrar para a casa de Silvio Santos. Depois que ela se enfurnou em rede nacional, o cabeludo fez-se ainda mais assíduo. Possui a chave do quarto-e-sala, que visita dia sim, dia não. Rega as plantas, cuida do gato, checa as mensagens na secretária eletrônica. Age como alguém muito íntimo da modelo, tão íntimo quanto um parente, amigo ou… namorado!

Eis o ponto: se a cinderela tem namorado longe das câmeras, um véu de dúvidas recai sobre o ?reality show?. Pode ser que o ?affair? entre Bárbara e Supla não passe de uma diabólica armação consentida pelos dois. Por outro lado, pode ser que o enlace esteja de fato ocorrendo e que o pobre do cabeludo veja-se obrigado a amargar cada etapa da traição, com os olhos azuis fixos no vídeo.

Mas pode ser pior -que Bárbara se mostre tão desprotegida e apaixonada apenas para amolecer o público e que Supla venha, em breve, engrossar o ramo familiar dos sem-sorte no amor.

Enfim: o irresistível (e ancestral) hobby do zunzunzum corre solto pelo edifício Alfa. A novidade é que, desta vez, a TV o alimenta.

?Sei não?, conjectura o zelador José Ramos Pereira, 56. ?Esse namoro da dona Bárbara com o tal do roqueiro… Soa como armadilha. Coisa do meio artístico. Truque do Silvio Santos para abiscoitar um ibopezinho gostoso.?

O baiano Pereira trabalha no condomínio de 12 andares há quase três décadas. Discreto, dá poucos detalhes sobre a intimidade da atriz. Afirma adorar o programa do SBT e lamenta não conseguir acompanhá-lo sempre. ?Vivem me chamando na portaria.? Quanto às visitas do homem alto… ?Aquele moço do cabelo comprido? Encontro com frequência. Deve ser amigo de dona Bárbara, né? Amigão mesmo…?

O filho do zelador, Everton, 20, revela-se mais crédulo que o pai. ?O namoro da televisão está acontecendo realmente. Imagine se não. Conheço a Bárbara. É uma pessoa sincera.? Conhece-a porque, certa vez, instalou um videocassete no apartamento dela.

Ressabiados, os moradores do prédio, quando aceitam conversar com repórteres, pedem anonimato. ?Bárbara e seu Supla, tal como todos os que assistem ao programa, são marionetes na mão de um sistema que tenta nos distrair de questões fundamentais da existência?, teoriza pausadamente um dos condôminos. Outro reitera: ?Na TV, qualquer bobagem tem script. Quem o Silvio Santos pensa que engana??.

Há, entretanto, reações mais bélicas. ??Casa dos Artistas???, espanta-se uma senhora com forte sotaque estrangeiro. ?Meu querrrrido. O máximo que vejo na televison é ?Tom & Jerry?. Boa tarde.? E bate o telefone.

?Não sou o corno que está levando chifre via satélite?, anuncia Raul Barretto, 42, o cabeludo que entra e sai do apartamento 64. ?Sou apenas um palhaço.?

Palhaço, sim. Ele faz parte dos Parlapatões, trupe teatral com viés circense. Conta que namorou Bárbara entre janeiro de 99 e o início de 2001. ?Entendo que as pessoas se confundam quando nos avistam. É porque nunca desconstruo os amores de minha vida. Se o relacionamento de casal termina, vou lapidando-o até virar outra coisa.?

Define-se, então, como ?pai, filho, irmão, saco de pancadas, confidente e mecânico? da atriz. ?O que isso significa? Que nossa relação não se encaixa em um rótulo social muito preciso.?

Para Barretto, a modelo se apaixonou mesmo por Supla. ?Sem problemas. Torço sinceramente pelos dois. E, se ouço comentários desagradáveis, sigo adiante, feito um Jair Rodrigues: ?Deixa que digam, que pensem, que falem…??"

"Casa? revela bom caráter do brasileiro" copyright O Estado de S. Paulo, 16/12/01

"Esta noite chega ao fim o maior embate da TV de todos os tempos. Quando terminar a última edição da Casa dos Artistas (que será quase interminável pois Silvio Santos deverá esticar o programa o mais que puder para atrapalhar a apoteose do No Limite), o SBT registrará no currículo sua melhor performance na guerra pela audiência.

Tanto que, na última semana, sites, revistas e programas de rádio dedicaram-se a especular se o ?fenômeno? Casa dos Artistas é um marco na história da TV. Várias conjecturas e previsões sobre o desempenho da próxima edição da Casa e da estréia do Big Brother, com o qual a Globo pretende enfrentar SS, permearam a discussão. Criou-se, em escala micro, um clima de fim de campeonato, quando em quase todos os ambientes as pessoas arriscavam análises sobre o comportamento da seleção (dos artistas da Casa) e externavam suas preferências.

Figuras que até 40 dias atrás eram ?famosas? somente entre seu círculo de amigos e parentes passaram a ser citadas pelo primeiro nome e reconhecidas imediatamente pelo interlocutor: Frota, Supla, Bárbara, Patrícia, Taiguara, Núbia. Os que foram despejados ganharam páginas, reportagens, sofás de vários programas de auditório e propostas de trabalho. Núbia, por exemplo, conseguiu emprego de vilã em uma novela do SBT.

E aqueles que são vizinhos da casa de Silvio Santos até esta noite arrebanharam apaixonados torcedores. Supla, até então um roqueiro de carreira obscura (quase indigente), ganhou popularidade e um disco de ouro pela venda de mais de 100 mil exemplares do CD independente e contrato com uma gravadora. Segunda-feira, jornalistas da Associação Paulista de Críticos de Artes (Apca) apontaram Supla como a revelação no setor de televisão.

Deve sobrar algo para Bárbara Paz (além do amor do filho da prefeita e do senador), para Alexandre Frota, Patrícia Coelho e, talvez, um comercial de cebola para Mari Alexandre.

O sucesso dessa novela da vida real (denominação mais adequada aos reality shows) tem a ver mais com fatores externos do que com o talento do elenco propriamente dito. Um dos grandes trunfos da Casa é o apresentador. Dono do programa e da emissora, Silvio Santos cria regras do jogo e as quebra de acordo com a conveniência do show. O maior gênio intuitivo da TV está muito à vontade conduzindo o programa de modo a administrar as vontades do brasileiro médio, que compõe a sua platéia, dando a impressão de que é ele quem mais se diverte. Outra estrela é o público que participa por telefone.

Mais interessante do que os movimentos embaixo de edredons, choros e intrigas é a participação dos telespectadores que, ao encaminhar um morador para a porta da rua, emitem sua visão de mundo, revelando um caráter inédito do brasileiro. A sensação é a de que superamos a era do Gérson. O público não premia mais a esperteza e os que querem levar vantagem em tudo como nos anos 70 (ou 80?). Evidencia um bom caráter ao rechaçar a dissimulação, a manipulação e valorizar a solidariedade e o respeito às diferenças.

O curioso é que o emblema da boa índole seja Supla, um sujeito rebelde, de cabelos tingidos e desgrenhados, que se expressa com simplismo, mas tem atitudes solidárias para com as mulheres, negros e amigos. Quando as pessoas manifestam sua preferência pelo novo herói, falam de uma estranheza inicial – ?não gostava dele porque ele era meio punk? – e depois de um encantamento com a atitude ética de Supla, que ?não é falso? e se recusa a participar de complôs para derrubar colegas.

A grande felicidade da Casa dos Artistas e de Supla foi a paixão por Bárbara. No exercício do affair, o casal discutiu todas as suas dificuldades. Supla colocou para fora suas inseguranças em assumir o relacionamento e acabou revelando-se um homem de verdade. Gente como a gente, mesmo que exiba um layout estranho."

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