Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO EM CENA

Ricardo Freire

Por lgarcia em 13/01/2004 na edição 259

NADA DÓCIL

“América Latina já não é ‘dócil’, diz ‘NYT'”, copyright O Estado de S. Paulo, 10/1/04

“A América Latina não é mais aquela. As nações da região, que por muito tempo foram ?aliados dóceis e confiáveis?, reagem agora de forma bem mais aberta e exibem seus ressentimentos por causa de ?iniciativas nas áreas de comércio e de segurança que alguns entendem como hostis aos seus interesses?. Essa é a avaliação que faz o jornal The New York Times, em um balanço publicado ontem, às vésperas da viagem do presidente George W. Bush para Monterrey, onde se realiza, na segunda e na terça-feira, a Cúpula Extraordinária das Américas.

O texto, do jornalista Christopher Marquis, repassa os atritos da diplomacia americana com Brasil, Argentina, México, Venezuela e Colômbia, entre outros, a respeito de assuntos bem diferenciados, como invasão do Iraque, combate ao terrorismo, relações com Cuba, protecionismo agrícola, imigração e combate ao crime organizado. ?O mais evidente exemplo de tal independência foi a recusa da maioria desses países em apoiar a invasão americana do Iraque?, diz o autor, ressaltando que esses governos tem-se mostrado pragmáticos nas relações com a Casa Branca. ?Eles não sentem medo de desafiar Washington, mesmo quando sob forte pressão.?

No episódio mais importante, lembra Marquis, Chile e México opuseram-se, no Conselho de Segurança das Nações Unidas (do qual o Brasil, na época, ainda não participava) a uma resolução que autorizava o uso da força no Iraque (antes da invasão) e apenas sete, das 33 nações da América Latina e do Caribe, apoiavam a ação militar. Registrou-se, no continente, ?ampla resistência popular a uma estratégia americana que era vista como unilateral e preventiva?, prossegue o texto, ressaltando ainda que ?a má vontade a partir desse impasse continua?.

‘Cara feia’

A propósito, o texto cita uma frase de Gabriel Marcella, um especialista em assuntos latino-americanos, segundo o qual os latino-americanos ?foram solicitados pelos Estados Unidos a apoiar uma guerra preventiva. Eles recusaram. A cara feia do unilateralismo parecia reaparecer.?

No caso brasileiro, o Times destaca a queda de braço nas alfândegas, a respeito da identificação de estrangeiros que chegam ao País. O secretário de Estado americano, Colin Powell, lembra o jornal, argumentou junto aos brasileiros que a iniciativa brasileira (de identificar turistas americanos nos aeroportos) é discriminatória, ?enquanto a dos Estados Unidos é universal, com exceções específicas?. O Times relembra também os desentendimentos a respeito de aço e subsídios agrícolas, nos quais o Brasil ?sustentou sua posição? e ?os dois países firmaram um acordo que joga para a frente as questões mais polêmicas?.

Mais importante para os americanos, a questão dos imigrantes mexicanos é abordada com maior destaque. ?Bush tentará costurar as relações com seu colega mexicano Vicente Fox, apresentando suas novas propostas para normalizar a imigração entre os dois países e atender as expectativas de milhões de imigrantes ilegais (nos EUA)?. Além desse tema ? que, na opinião do autor, ?é claramente irrelevante para o resto da região, onde convivem economias débeis, corrupção, crime e comércio anêmico? ? muitas nações ?olham para Bush para estimular seu desenvolvimento econômico e ajudá-las a emergir de crises de governabilidade, em lugares como Venezuela, Haiti, Colômbia e Bolívia?.

Prejuízos

Avaliando os estragos da política migratória americana nas relações com o México, Peter Hakim, o presidente do Diálogo Interamericano (um fórum de líderes do hemisfério), mostra-se enfático: ?Não imagino como se possa superestimar os danos às relações México-EUA. Nenhum relacionamento foi mais prejudicado, talvez com exceção da França?.

A Colômbia, segundo o balanço do Times, ?entrou em conflito com o governo (americano) na questão de uma corte criminal internacional. Quando Bogotá mostrou-se reticente a assinar um item sobre isentar os americanos de processo, Washington suspendeu a ajuda e ameaçou cortar mais US$ 160 milhões em empréstimos. A Colômbia, que recebe mais ajuda que qualquer outro país, exceto Israel e Egito, finalmente recuou.?”

 

SARS

“China prende editor que noticiou o novo caso de Sars, diz ONG”, copyright Folha de S. Paulo, 8/1/04

“O editor-chefe de um jornal do sul da China que divulgou, em primeira mão, a informação sobre um caso suspeito de Sars, confirmado anteontem, foi detido por cerca de oito horas, disse ontem a ONG Direitos Humanos e Democracia, de Hong Kong.

A mídia chinesa tem ordens estritas de noticiar apenas informações sobre a Sars (síndrome respiratória aguda grave, na sigla em inglês) do Ministério da Saúde.

Mas, em dezembro, o jornal ?Southern Metropolis Daily?, de Guangzhou, capital da Província de Guangdong, noticiou que um produtor local de TV de 32 anos havia sido internado no dia 20 possivelmente contaminado pelo coronavírus causador da Sars .

Na última segunda-feira, após vários testes, as autoridades chinesas confirmaram que o paciente realmente sofria da doença. É o primeiro caso no país desde que a epidemia de Sars foi contida na China, em julho passado.

Surgida em novembro de 2002 em Guangdong (sul da China), a Sars infectou mais de 8.000 pessoas, das quais 774 morreram, em 27 países. A doença foi controlada na China em julho de 2003, mas temia-se que retornasse no final do ano passado ou no início de 2004, durante o inverno chinês.

Segundo a ONG de Hong Kong, o editor Cheng Yizhong foi detido na tarde de terça-feira e liberado à noite. Ontem, seu escritório não atendia ligações. Uma pessoa no jornal negou a prisão.

A repórter Zeng Wenqiong, autora da reportagem, disse à Reuters na semana passada ter sido afastada. ?Não estou sob investigação, estou sendo mantida um pouco longe da cobertura da Sars?, disse. Segundo um colega, ela teria tirado um ano de licença.

Em 2002, o governo chinês foi acusado de ter escondido o surgimento da doença, impedindo que a OMS (Organização Mundial da Saúde) e outros países adotassem medidas para impedir que a nova doença se espalhasse. Desta vez, a OMS acompanha o novo caso e disse que ele não representa uma ameaça à saúde pública mundial.

Extermínio

Ontem, o produtor de TV que contraiu Sars, identificado apenas como Luo e em fase de recuperação, afirmou nunca ter comido civeta, um pequeno mamífero consumido como alimento em Guangdong e que é suspeito de ser uma das origens do coronavírus que causa a doença.

?Luo disse que jamais tocou ou comeu civetas em sua vida e lembrou-se apenas de ter jogado um filhote de rato pela janela uma vez?, disse a agência estatal chinesa Xinhua.

Ao confirmar o novo caso de Sars, as autoridades chinesas disseram que o vírus identificado na amostra genética de Luo se parecia com uma linhagem de coronavírus encontrada em civetas.

Por esse motivo, o governo proibiu a comercialização do animal e ordenou o extermínio até sábado de cerca de 10 mil civetas em Guangdong, provocando protestos dos comerciantes locais.

?Só há um caso de Sars, então por que matar todas as civetas? Se elas são suspeitas, é melhor colocá-las de quarentena?, disse um comerciante no mercado de animais vivos de Guangzhou.

Enquanto ele protestava, as civetas à venda no local eram apreendidas, colocadas em sacos e jogadas num caminhão. Os animais serão afogados ou eletrocutados e, em seguida, incinerados. Funcionários usando máscaras e luvas jogavam desinfetante nas bancas do mercado.

O próximo objetivo das autoridades locais será uma campanha de extermínio de ratos. ?Toda a cidade [de Guangzhou] se unirá para matar ratos, nenhum lar ficará de fora?, anunciou um jornal local.

Novos casos suspeitos

Três membros de uma equipe da rede TVB, de Hong Kong, foram internados num hospital da cidade com febre e tosse e estão sendo submetidos a exames. A equipe acabara de voltar de Guangdong, onde realizou reportagens sobre o ressurgimento da Sars no sul da China.”

 

JORNALISMO EM CENA

“Aplausos no Cinema, jamais no Jornalismo”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 7/1/04

“Em 1998, a tradicional revista semanal The New Republic, que se orgulhava de ser lida no avião presidencial e de influenciar a opinião dos políticos americanos, sofreu um duro golpe ao descobrir que um de seus colaboradores de maior sucesso, o jovem Stephen Glass, havia forjado nada menos do que 27 das 41 matérias que escrevera para a publicação ao longo de 3 anos, chegando ao ponto de citar fontes e fatos completamente fictícios. Mas o que o levou a fazer isso? Insegurança? Pressão excessiva de seus superiores? Imaturidade? O desejo de ser reconhecido? Esta é apenas uma das questões que Shattered Glass, estréia do roteirista Billy Ray na direção, se propõe a examinar.

Adaptado a partir do artigo escrito por Buzz Bissinger para a Vanity Fair, o filme também procura esclarecer como uma farsa tão grande pode ter passado despercebida pelos revisores da New Republic, já que o processo de verificação dos fatos era extremamente cuidadoso, ocorrendo em várias etapas ? e uma das conclusões de Shattered Glass é assustadora: caso um jornalista esteja realmente disposto a publicar uma história fictícia, pouca coisa pode ser feita para desmascará-lo. O que fazer, por exemplo, nos casos em que a única forma de checar os fatos de uma matéria é através das notas feitas pelo próprio repórter? E, mesmo que a mentira seja descoberta, como provar que sua atitude foi proposital, considerando-se que ele (ou ela) pode alegar, entre outras coisas, ter sido ‘enganado(a) por suas fontes’? Não é à toa que, nos últimos anos, escândalos semelhantes ao da New Republic estouraram em publicações como o New York Times, New Times LA e até mesmo a Sports Illustrated (que divulgou uma matéria sabidamente inverídica como uma piada, provocando a revolta de vários leitores) .

No caso particular de Stephen Glass, no entanto, ainda há um outro elemento interessante em questão: a própria personalidade do jornalista. Sempre gentil e humilde (mesmo depois de se tornar um dos profissionais mais requisitados da revista), o rapaz era querido por todos os seus colegas de redação, mostrando-se sempre solícito e disposto a aceitar quaisquer críticas eventuais. Interpretado com sensibilidade por Hayden Christensen (mais conhecido por viver Anakin Skywalker em O Ataque dos Clones), Glass revela-se um exímio contador de histórias, acrescentando detalhes que acabavam por conferir verossimilhança às suas narrativas.

Possuindo um traço claramente infantil em seu comportamento, o rapaz pergunta constantemente se os demais estão ‘bravos’ com algo que ele fez ? o que, por si só, é capaz de desarmar seus antagonistas. Porém, ao agir desta maneira, Glass estava sendo autêntico ou não? Em alguns momentos, o filme parece acreditar que cada atitude do jornalista era cuidadosamente estudada; mas, em outros, o roteiro se mostra benevolente e retrata a imaturidade emocional de Glass como fato (quando pede desculpas por algum erro, ele parece esperar que tudo se resolva como num passe de mágica). Seja como for, Christensen transforma o personagem em um indivíduo complexo e capaz de despertar a simpatia do espectador.

Por outro lado, Shattered Glass (título que faz um trocadilho com o sobrenome de Stephen, podendo ser traduzido como Vidraça Partida) não se concentra apenas no jovem jornalista, o que seria um equívoco, e apresenta para o público aquele que foi o responsável por desmascarar a fraude orquestrada por Glass: o editor Chuck Lane. Hostilizado por boa parte de seus colegas de trabalho por ter sido contratado para substituir o antigo (e querido) editor da revista, Lane é um profissional competente que logo reconhece o grave problema que tem nas mãos ? e o ator Peter Sarsgaard oferece um excelente desempenho ao evitar que seu personagem se transforme em uma espécie de vilão que se dedica a prejudicar o ‘pobre herói’: Glass é simpático, é verdade; mas é impossível, para o espectador, ignorar que Lane está com a razão.

Apresentando com energia o fascinante cotidiano das redações para o público, Shattered Glass representa uma importante lição de ética para os profissionais do meio e merece ser exibido em todos os cursos de Comunicação. Quem sabe desta maneira não poderíamos evitar novos casos como o de Stephen Glass ou como o de Janet Cook, que, em 1981, chegou a ganhar o Prêmio Pulitzer por uma matéria falsa? Afinal, a ficção merece aplausos no Cinema, mas jamais no Jornalismo.

Shattered Glass, 2003. Dirigido por Billy Ray. Com: Hayden Christensen, Peter Sarsgaard, Chloë Sevigny, Melanie Lynskey, Hank Azaria, Rosario Dawson, Steve Zahn, Mark Blum, Ted Kotcheff.

Nota do autor: O filme ainda não tem título em português nem previsão de estréia no Brasil.”

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