Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
Menu

PRIMEIRAS EDIçõES > SÍTIO DO PICAPAU AMARELO DE VOLTA

Ricardo Valladares

Por lgarcia em 10/10/2001 na edição 142

SÍTIO DO PICAPAU AMARELO DE VOLTA

"A Cuca vai pegar?", copyright Veja, 10/10/01

"Maior clássico da literatura infantil brasileira, o Sítio do Picapau Amarelo ostenta uma bela carreira também na televisão. Desde os anos 50, foram quatro as adaptações da série clássica de Monteiro Lobato. E uma quinta está a caminho agora. Produzida pela Rede Globo, ela deve estrear no dia 12, como um quadro de quinze minutos do programa infantil Bambuluá. O tema de abertura, cantado por Gilberto Gil, será o mesmo que fez sucesso na versão anterior, exibida entre 1977 e 1986 pela Globo. Todo o resto é novidade. Recursos de computação gráfica serão empregados à farta. O sítio de Dona Benta também foi dotado de aparatos modernos, como microondas, internet e DVD. Além disso, resolveram entregar o papel da boneca Emília à atriz Isabelle Drumond, de 7 anos. É a primeira vez que uma criança interpreta a personagem na TV.

Emília é uma das mais formidáveis criações da ficção nacional. A mais formidável, para muita gente. Arrogante, egoísta, intriguenta, ela é ao mesmo tempo uma engenhosíssima ?inventadeira de idéias?, para usar suas próprias palavras. Por isso mesmo, interpretá-la talvez fosse tarefa para uma atriz tarimbada. ?O que já seria difícil para uma profissional experiente fica mais complicado ainda para uma menina?, acredita a psicoterapeuta Lídia Aratangy. ?Mas talvez a garota tenha um grande repertório emocional e consiga superar o desafio de fazer Emília.? Lídia fala com conhecimento de causa. Leitora de Lobato até hoje, ela atuou como Narizinho na primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo, gravada pela Rede Tupi, em 1951. Naquela época, o papel da boneca falante era desempenhado por Lúcia Lambertini, de 25 anos. Todas as Emílias desde então foram adultas. Uma delas, Reny de Oliveira, de tão madura acabou nua nas páginas de uma revista masculina e foi afastada das gravações. Isabelle Drumond está dando duro para interpretar Emília. Ela ganha 2 000 reais por mês e trabalha até cinco horas por dia. Diz que nunca leu as obras de Lobato e define sua personagem como ?bagunceira?.

Além da ?questão Emília?, outros detalhes da adaptação já inquietam os fãs mais entusiasmados do Sítio do Picapau Amarelo. Alguns acham que a atriz escolhida para viver Tia Nastácia, Dhu Moraes, é jovem demais para o papel. Outros torcem o nariz para o fato de Nicette Bruno encarnar Dona Benta. ?Acho que a Nicette tem mais cara de dona de cantina do que de Dona Benta?, diz um funcionário da Globo que participou da primeira versão do programa. ?Se é para avacalhar, deveriam colocar o Paulo Goulart como Rabicó?, vai mais longe um fundamentalista lobatiano. Segundo a crítica literária Marisa Lajolo, autora de dois livros sobre Monteiro Lobato, é preciso tomar cuidado para não exagerar na patrulha. ?Lobato foi um homem que mudou suas opiniões inúmeras vezes ao longo da vida. Duvido que ele fosse ficar exigindo fidelidade em cada pequeno detalhe da adaptação.? A nova versão do Sítio deve recuperar um elemento dos livros que foi suprimido nos anos 70 e 80: o pó de pirlimpimpim, que servia para transportar os personagens de Lobato no tempo e no espaço. O pó havia sido abolido para que ninguém tecesse comparações com a cocaína, droga da moda na época. Até o compositor Gilberto Gil recebeu a recomendação de não utilizar a palavra na letra da música-tema.

A versão anterior do Sítio demorou quase três anos para sair da prancheta e entrar no ar. Serviu de escola para muita gente no interior da Globo. A nova adaptação está sendo concluída a toque de caixa. Tudo por pressão dos fabricantes de brinquedos, alimentos e roupas que, desde o começo do ano, licenciaram 150 produtos com a marca do programa. Com os sucessivos adiamentos da estréia, eles reclamam que já perderam uma montanha de dinheiro. Tanto que, entre o pessoal do comércio, a atração já recebeu o nome de ?Sítio do Mico Amarelo?. Será que a Cuca vai pegar?"

 

"A volta do sítio do picapau", copyright O Estado de S. Paulo, 7/10/01

"O folclore brasileiro vai ganhar espaço, a partir desta semana, entre pokémons e digimons. Na sexta-feira, estréia na Globo, a nova versão do Sítio do Picapau Amarelo, com histórias adaptadas de Monteiro Lobato. Irá ao ar às 11h30, dentro de Bambuluá com Angélica, com 15 minutos de duração.

Pela primeira vez, a Globo estréia um programa diário numa sexta-feira, ainda mais em pleno feriado. O diretor Roberto Talma diz que a data foi escolhida para comemorar o Dia da Criança. Ele jura que não houve pressão da indústria de brinquedos para a estréia. Produtos com a marca e os personagens do Sítio estão nas lojas desde julho, data inicialmente prevista para a estréia da atração.

Talma afirma também que o horário não foi escolhido para concorrer com Caminhos da Fama, novela infantil exibida às 11h30 pela RedeTV! ?Imagina se vou estar preocupado com eles?, afirma o diretor. ?Nem pensei nisso.? Com a entrada do Sítio, serão exibidos 20 minutos a menos de desenhos estrangeiros. ?Já está mais do que provado que o que dá audiência é o produto nacional?, diz Talma. ?Desenhos como Digimon não rendem tanto, nem aqui na Globo.?

Na nova versão do Sítio, a boneca Emília tem tudo para roubar a cena graças a sua intérprete, a esperta e falante Isabelle Drummond, de 7 anos. ?Emília é a personagem mais legal do programa?, diz a sorridente (e modesta) menina. As crianças Cesar Cardadeiro e Lara Rodrigues são Pedrinho e Narizinho. Dona Benta é Nicete Bruno; Tia Nastácia, a ex-Frenética Dhu Moraes; Tio Barnabé, João Acaiabe; Visconde de Sabugosa, Candido Damm; e o Saci é Izak Dahora. O elenco conta ainda com Jacira Santos, Aline Mendonça, Zé Clyton e Sidnei Deckencamp, todos dando vida aos bonecos do programa.

Todos os recursos imagináveis da TV serão usados no programa. ?A tendência é usarmos cada vez mais?, afirma Talma. Graças a isso, um dia inteiro de trabalho pode significar apenas alguns minutos no ar. Grande parte das gravações é feita em um sítio alugado pela emissora, na Ilha de Guaratiba, na zona oeste do Rio, a 20 quilômetros do Projac, complexo de estúdios da Globo.

A cada semana será contada uma história completa. A primeira será O Reino das Águas Claras, que faz parte do livro Reinações de Narizinho. A adaptação está sendo feita por Luciana Sandroni, Marina Mesquita, Claudio Lobato e Toni Brandão. Eles contaram que a principal preocupação foi a forma como o negro é mostrado nas histórias de Lobato. ?A visão dele ainda é a do negro completamente serviçal?, diz Luciana. ?Agora, todos na casa ajudam a Anastácia, apesar de ela ser a empregada.?

As gírias usadas por Pedrinho, um morador da cidade grande que viaja para o sítio da avó nas férias, foram atualizadas. Já Narizinho e Emília, como são do interior, falam de forma mais antiga. Anastácia usa microondas e Dona Benta, Internet. ?Lobato é vanguarda até hoje, e é bastante politicamente incorreto?, diz Luciana. Essa parte incorreta jorrará na série da boca de Emília.

Para Nicete Bruno, o programa vai permitir a todos que dele participam?fazer alguma coisa? pelas crianças. ?As histórias estimulam a possibilidade de sonhar, exercitam a imaginação das crianças e reforça a importância das relações familiares?, enumera. ?São coisas que andam esquecidas no mundo e na TV e só por isso já acho ótimo fazer.?"

 

"Obra acompanhou evolução da TV", copyright O Estado de S. Paulo, 7/10/01

"Boneca de pano é gente, sabugo de milho é gente no Sítio do Picapau Amarelo, o oásis infantil de Monteiro Lobato (1882/1948), homem de sobrancelhas de taturana, que lia dicionários quando pivete e era neto do visconde de Tremembé.

O Sítio é provavelmente a única obra a acompanhar a evolução da TV brasileira. Foi produzida na fase ao vivo (Tupi), na da introdução do tape (Band), na da consolidação da TV (Globo) e, agora, na TV do século 21.

?Lobato tinha senso crítico e um humor que respeitava a inteligência das crianças?, diz Tatiana Belinky, que produziu as duas primeiras versões do Sítio.

Russa nascida em 1919, Tatiana comandou com o marido Júlio Gouveia (1914/1989) os 13 anos de produção na Tupi e os dois da Band. O primeiro Sítio teve 360 episódios de 40 minutos, sem intervalos, às quartas, 19 horas. ?Quando um anjinho caía do céu, ele literalmente desabava sobre o cenário?, lembra Tatiana. Um LP era segurado pelos dedos num toca-discos para dar os efeitos sonoros. Para encenar No Reino das Águas Claras, Tatiana pôs o aquário de sua casa à frente da câmera: os atores eram vistos cercados por peixinhos. ?Só fizemos o que fizemos porque ninguém contou que não era possível.?

Poucas histórias de Lobato foram descartadas na Tupi, por serem de difícil execução ao vivo, como O Poço do Visconde. Na Band, todas foram adaptadas.

Os roteiros da primeira adaptação foram reaproveitados numa versão diária, de segunda a sexta, 18h30, que torrou num incêndio em julho de 1969.

A terceira versão, da Globo, teve estúdio num sítio de verdade, em Barra de Guaratiba, litoral do Rio. Exibida de segunda a sexta, às 17 horas, teve roteiristas de peso, como Benedito Ruy Barbosa, Marcos Rey, Wilson Rocha e Sylvan Paezzo."

    
    
                     
Mande-nos seu comentário

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem