Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > AUDIÊNCIA

Ricardo Valladares

Por lgarcia em 21/02/2001 na edição 109

QUALIDADE NA TV

CRÍTICA / MALHAÇÃO

"Mais neurônios", copyright Veja, 15/02/01

"Depois de muitos tropeços, o seriado Malhação parece ter encontrado uma fórmula inteligente – e de sucesso. No ar de segunda a sexta na Rede Globo, a partir das 17h30, o programa estabilizou sua audiência em torno de 30 pontos, média mais que respeitável para o horário. Uma pesquisa recém-realizada pela emissora demonstra, além disso, que a atração deixou de interessar apenas aos adolescentes, que originalmente formavam seu público-alvo. Hoje, 49% dos espectadores têm mais do que 25 anos. A mágica? Deixar de lado o besteirol e as intriguinhas amorosas que marcaram as primeiras temporadas do programa e investir em temas polêmicos. ‘Procuramos abordar problemas enfrentados por pais e jovens de maneira franca e sem preconceitos’, diz o roteirista Emanoel Jacobina. O cardápio é digno de novela das 8: Aids, aborto, homossexualidade.

Alguns dramas, envolvendo personagens fixos, se desenrolam por mais tempo. A atriz Samara Felippo, por exemplo, interpreta desde o ano passado Érica, portadora de HIV. Na semana passada, ela vivia o dilema de fazer ou não sexo com o namorado, que resolveu enfrentar a doença a seu lado. De modo geral, porém, temas e personagens polêmicos vêm e vão. Muitos deles ficam no ar por menos de um mês. A história que mais atraiu a atenção recentemente foi a de Sócrates e Carlos, um casal de adolescentes homossexuais vividos pelos atores Erik Marmo e Gabriel Gracindo. Durante quinze dias os dois enfrentaram o preconceito de amigos e professores. ‘Queríamos fugir do estereótipo do homossexual tímido e frágil’, diz o roteirista Emanoel. ‘Sócrates era o oposto disso. Não tinha medo de brigar para se defender.’ Com base em enquetes e pesquisas, a emissora já tem engatilhados outros assuntos delicados. O próximo deve ser a síndrome do pânico."

CANADÁ

"As notícias do domingo e o caso do Canadá", copyright Jornal da Tarde, 13/02/01

"A área de jornalismo da Band, com faro e acerto, botou no ar na noite do último domingo uma nova atração, o Notícias de Domingo. De saída, o nome informa ao telespectador o que ele deve esperar do novo programa: notícias.

Já se tornou um (mau) hábito das emissoras pressupor que, no domingo, as pessoas não querem saber de notícias. É cômodo para o esquema de folga das equipes de jornalismo. Dissemina-se e justifica-se esse pressuposto das emissoras com outro pensamento cômodo: ah, no domingo não acontece nada mesmo.

É revelador esse pensamento. Revelador da acomodação das equipes de jornalismo às pautas do governo, do parlamento, dos produtores, dos mercados financeiros, dos altos negócios. Se os ministros, os parlamentares, os industriais e os banqueiros estão descansando, não vai acontecer nada que não possa ficar para os noticiários de segunda-feira. Notícia de domingo é futebol.

A Band trabalha com a idéia de que há um vazio de notícias no domingo, e começou a preenchê-lo. Raciocínio corretíssimo. É interessante notar como certos fatos jornalísticos fazem subir a audiência de programas como o do Gugu e do Faustão, dependendo da agilidade com que são postos no ar. A vida não pára no fim de semana; há acontecimentos próprios dele, há maneiras de abordá-los, e seria tolice acreditar que o público só se interessa por notícias que afetam a sua vida. Nesse rincão desabitado, o do noticiário dominical, a Band estreou seu Notícias de Domingo, e o fez bem.

Cria um elo inevitável entre a sexta-feira anterior e a segunda-feira seguinte, em assuntos como as cotoveladas canadenses no fígado dos brasileiros, a evolução clínica de Herbert Vianna, a estranha greve total dos ônibus de Belo Horizonte, a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado etc. Talvez não fosse inevitável fazer um balanço da semana, mas este foi compacto e destacou o realmente indispensável. Tivemos notícias novas interessantes, como a espetacular implosão de um estádio em Pittsburg, EUA, resgate de baleias encalhadas no Japão, a divulgação do código genético humano, a morte de Rockson Gracie, a Copa Davis, o futebol, as loterias; tivemos reportagem de cidade, como a indesejada avenida que querem fazer cortar o Jardim Panorama, no Morumbi. Enfim, não foi um dia de acontecimentos importantes, mas o que havia foi bem tratado.

O melhor e o mais destacado dos assuntos foi o boicote canadense. Um resumo competente, seguido de alguns aspectos novos (pelo menos para o público da tevê), como o site criado na Internet contra o Canadá por um rapaz, Rodrigo Araújo, que teve de tirá-lo da rede mundial por se sentir ameaçado pelo governo canadense. Outro ângulo novo foram as declarações do professor de Comércio Internacional da USP, Celso Grisi, o qual destacou que o Brasil é o grande perdedor no episódio. Devemos, diz o professor, tirar da crise uma lição: a de que ‘não há possibilidade de participar de uma forma efetiva do comércio exterior sem normas técnicas’. Um ponto fundamental, que deveria ter sido aprofundado pela matéria. O Brasil negligenciou as solicitações do Canadá sobre medidas de prevenção contra a doença européia. Se houvesse respondido (o próprio FHC falou que ‘duas cartas extraviadas’ não eram motivo para o Canadá agir como agiu – ora, não há cartas extraviadas em correspondência diplomática), e se a carne exportada tivesse um selo de garantia, o Canadá teria de procurar outro motivo, talvez menos prejudicial, para sacanear o Brasil.

Canadenses O grande ausente dos telejornais brasileiros sobre a crise da vaca louca foi o povo canadense. Informação precária, tanto no Notícias de Domingo, da Band, quanto nos noticiários da poderosa e onipresente Rede Globo, e das outras emissoras. Mostraram o editorial do jornal The Globe & Mail, a favor do Brasil, falaram da posição da população canadense contra a medida do governo de lá, mas os telejornais ficaram nisso. Faltaram imagens e declarações de pessoas nas ruas, faltou falar com a indústria exportadora de lá, para saber se há temor de perdas, faltou ouvir as empresas telecomunicadoras que chegaram aqui com as privatizações, faltou muita informação do outro lado. Esse tipo de notícia também tem dois lados."

AUDIÊNCIA

"O público da tevê está dormindo mais cedo", copyright Jornal da Tarde, 10/02/01

"O número de aparelhos de televisão ligados entre as 19 h e a meia-noite vem caindo há alguns anos. De janeiro do ano passado para este, a queda foi de 65% para 60%. De 1996 para 99, a queda foi semelhante. Há um outro dado que, jogado com este, indica uma tendência de queda de público após as 22 h. O dado é o seguinte: as últimas telenovelas da Globo (Terra Nostra, Laços de Família, O Cravo e a Rosa, Uga Uga) tiveram audiência mais alta do que as anteriores. Quer dizer: aumentou o público até as 22 h.

Então, a queda após esse horário é bem maior do que se percebe quando considerado todo o horário noturno.

Por coincidência, é o período em que a programação da Rede Globo se desorganiza, há uma bagunça nos horários dos programas. Ora entra futebol, ora entra minissérie, ora entra filme, ora entram semanais… Regina Casé queixava-se disso, que vitimou seu Muvuca; Lauro César Muniz queixou-se, preocupado com os índices de Aquarela do Brasil (‘Foi um erro estratégico colocar o segundo capítulo quase à meia-noite, após o futebol; se fosse no vigésimo capítulo não teria problema’, disse ele); Maria Adelaide queixou-se, na época de A Muralha (apesar de esta minissérie ir bem, na média). Também por coincidência, é no horário após as 22 h que outros canais mostram filmes mais violentos, programas mais vulgares ou mais insossos, jornais que pouco acrescentam ao noticiário do horário nobre, enfim, programas que não animam o grande público a encarar a vigília.

É nesse horário problemático que entram as minisséries da Globo.

Evidentemente, são produtos de melhor qualidade do que os da concorrência.

Auto da Compadecida teve 39 pontos de ibope, em média. Chiquinha Gonzaga teve 34. A Muralha, 29. Aquarela do Brasil, 23. Há uma tendência de queda, que a emissora esperava reverter com Os Maias, uma superprodução cuidada como o filme E o Vento Levou. Porém, os problemas de inconstância da entrada no ar continuaram, agravados pelo fato de a minissérie não estar editada quando estreou. Não se pode desperdiçar assim um produto de boa qualidade, quando há tão poucos na tevê. Uma parcela maior de público, aquela que vai dormir depois das dez, poderia ser reconquistada.

Por tudo isso, creio que a emissora deverá repensar a programação das minisséries. Seria dramaturgia demais colocá-las no ar logo após a novela das oito, de segunda a sexta-feira, saltando a quarta-feira (destinada ao futebol)? Antigamente, havia a novela das dez. Por que não tem minissérie na segunda-feira e tem na quarta? O público gosta de horários fixos, o anunciante também. Por que os semanais tipo Cassetas, Linha Direta, Globo Repórter não poderiam começar sempre às 22h30, ajeitando-se o horário nobre daí para trás, incluindo uma minissérie? Os benefícios, daí até o Jornal da Globo (com Ana Paula Padrão), o Programa do Jô e o Intercine ou o programa do Sérgio Groisman seriam maiores, e os desgastes, menores.

Gimenez Hilária a cena em que Luciana Gimenez (Superpop, Rede TV!) está fingindo ser uma caixa de supermercado, até com algum desembaraço, mas enchendo a paciência das freguesas, criticando escolhas de alguns produtos, etc, e em dado momento o celular dela toca e ela atende em inglês. A quem ela estava querendo enganar? Que caixa é essa que tem celular e conversa em inglês?

Nonsense! Ah, foi tudo armado? Nonsense redobrado.

Luxemburgo Muito boa a longa montagem feita pelo Globo Esporte de ontem contando a volta de Wanderley Luxemburgo à beira do campo, como técnico do Corinthians. Era uma pauta previsível, que outras emissoras não fizeram: um técnico que sempre prezou a coreografia e as teleobjetivas, preso agora a uma muleta e ostentando um pé enfaixado, só poderia render ótimas imagens.

Não deu outra. Botaram várias câmaras em cima do homem, depois montaram um compacto bem-editado. A direção do programa não precisava ter usado a metáfora do maestro regendo um time de futebol, que já está gasta, mas o resultado, graças à gesticulação de Luxemburgo, foi muito bom."

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