Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES >   MEMÓRIA / GISELA ORTRIWANO

Robert Galbraith

Por lgarcia em 21/10/2003 na edição 247

CAMPANHA D?O GLOBO

“O Globo mostra por que o jornal faz a diferença”, copyright Revista Meio e Mensagem, 20/10/03

“Depois de três anos sem campanha institucional, o jornal O Globo dá início nesta semana à uma ação para reposicionar sua marca.

Novo posicionamento estratégico procura mostrar a diferença que faz ler e anunciar no jornal O Globo

Depois de três anos sem campanha institucional, o jornal O Globo dá início nesta semana à uma ação para reposicionar sua marca. O bordão ?Quem lê, sabe? dá lugar agora a ?Faz diferença?, tanto na comunicação com os leitores quanto naquela com o mercado de anunciantes. Criada pela Giovanni,FCB com base em seis meses de pesquisas que revelaram a importância do jornal para seu público leitor, a campanha estréia neste domingo com um filme de 30 segundos nas TVs aberta e fechada. Produzido pela Trattoria, com direção de cena de Guto Carvalho, o comercial mostra um leitor do jornal em plano fechado acompanhando cenas inusitadas em 2D e 3D, como o atentado de 11 de setembro de 2001 e a inclusão do rosto do presidente Lula entre os do presidente americano George W. Bush e do premier britânico Tony Blair no monte Rushmore. A criação e a direção de criação é de Adílson Xavier, Cristina Amorim e Fernando Campos. ?A campanha tem duplo conteúdo: o do jornal e o de seus leitores. Tudo interage e enfatiza o quanto O Globo e seus leitores fazem diferença um para o outro?, diz Adílson.

A parte gráfica da campanha, que estará em jornais (multipage), revista, mobiliário urbano, outdoor, mídia online, PDV e endomarketing, mistura elementos gráficos do próprio jornal com símbolos e figuras do cotidiano. ?Decidimos não mais afirmar nossos atributos, mas mostrar a diferença que faz tanto ler quanto anunciar no Globo?, diz Daniela Philippsen, gerente geral de marketing do jornal. Segundo ela, os dados coletados na pesquisa, com auxílio da consultoria de Jaime Troiano, vão servir de base para a retomada dos investimentos na marca. O conceito ?Faz diferença? será sustentado durante todo o ano de 2004. O jornal é líder em assinaturas no Rio de Janeiro, com circulação de 353 mil exemplares aos domingos e média de 250 mil nos dias úteis – 79% são assinantes. De acordo com Daniela, a expectativa é de que O Globo cresça até 5% este ano em relação a 2002.”

 

MEMÓRIA / ALESSANDRO PORRO

“Alessandro Porro, por dois de seus amigos”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 16/10/03

“Em artigo anterior, me debrucei muito sobre a triste morte de László Varga, colega com quem convive por pelo menos 15 anos, sem ter tido a oportunidade de privar de sua intimidade.

Neste, quero aproveitar para falar de uma figura polêmica e folclórica, no jornalismo, que viveu seus 72 anos com muita intensidade, espalhando amigos e adversários por onde passou.

Estou falando de Alessandro Porro, colega que nos deixou no último sábado, com o agravamento do enfisema pulmonar que já o atormentava há tempos, fruto de uma intensa dependência do fumo.

Não o conheci pessoalmente, mas me lembro muito bem que seu nome já frequentava minha mente lá pros idos de 1969, quando comecei a trabalhar com carteira assinada, então com 14 anos de idade, como office boy da Editora Abril. Eu entregava correspondências por toda a empresa e me lembro bem de que o nome de Alessandro Porro já era uma forte grife jornalística, independente de seus humores e complexos relacionamentos.

Desde então, mesmo não privando de sua amizade, sempre o enxerguei como um dos bons da nossa atividade jornalística. O nome, na minha cabeça, talvez tenha suplantado até mesmo a própria figura humana de Porro, e por isso essa foi a imagem que dele sempre cultivei. À distância.

Dois colegas que com ele conviveram escreveram sobre ele, mostrando tanto o talento profissional que tinha, suas qualidades e também fraquezas humanas. São textos de dois brilhantes jornalistas, que aproveito para reproduzir na íntegra, para que também os leitores do Jornalistas&Cia e do Comunique-se possam saborear. Falo de Luiz Augusto Michelazzo, o velho Mic, e do Moisés Rabinovici, carinhosamente chamado pelos amigos de Rabino. Mic e Rabino foram amigos e colegas de Alessandro Porro e dele guardaram as seguintes recordações:

Por Luiz Augusto Michelazzo:

?Eu gostava dele, embora fosse um cara de gênio difícil, às vezes tremenda e declaradamente reacionário, elitista. Na sucursal de São Paulo era o terror dos motoristas: só queria andar no banco traseiro. Mas era brilhantemente inteligente e com senso de humor memorável. Tinha uma tremenda cultura livresca, musical, estética. Amava livros e os tinha aos montes. Escrevia com sensibilidade e às vezes conseguia ser bem engraçado. Um fofoqueiro nato, polêmico e, como a maioria dos napolitanos, um ator no palco da vida. Sentávamos à mesma mesa na sucursal. Gostava mais dele, das suas andanças pelo mundo e das histórias que me contava que do que escrevia. Especialmente quando se metia a falar de coisa séria. Adorava bater papo. Torrava todo dinheiro que tinha. Casou-se seis vezes e gerou quatro filhos. Uma delas a jornalista Alessandra Porro, por quem tinha afeição especial.

Porro nasceu em Nápoles, filho de família judia, sobreviveu à guerra criança na Ilha de Capri, junto com um tio, que teria comprado proteção dos nazistas, conforme conta no seu livro, ?Memórias do meu século?.

Trabalhou mais de 50 no jornalismo. Começou em Nápoles e até recentemente foi colaborador do ?Corriere de la Sera?. Para a Editora Abril foi correspondente em Londres, Paris, Roma, Buenos Aires, Madrid e Tel Aviv. Trabalhou na manchete, SBT e sucursal de o Globo em São Paulo, onde o conheci. Depois foi para o Rio fazer a coluna do Swan. Foi também diretor da revista Realidade e da sucursal da Veja no Rio. Em ?Memórias do meu século? conta que foi demitido do Globo, seu último emprego, por telefone. Era correspondente do jornal em Roma e recebeu telefonema do diretor Ali Kamel demitindo-o. No dia do seu aniversário.

Escreveu também ?Casamento e divórcio – manual para candidatos?. Ficou famoso como autor da polêmica matéria – capa de Veja – sobre o cantor Cazuza, que agonizava com Aids em abril de 1989. Considerada uma das matérias mais sensacionalistas da época, gerou recorde no número de cartas aos leitores que a revista só quebraria com os atentados do 11 de Setembro. Gostava de comer bem – era escandaloso nos restaurantes quando fraudavam a comida – tomava café fortíssimo, como a maioria dos italianos, e fumava como chaminé. Mesmo sabendo do seu enfisema. Morreu com 72 anos. ?

Por Moisés Rabinovici:

?Meu caro amigo Porro

A lembrança de Alessandro Porro me afligia nos últimos dias. Sabia-o mal de saúde e havia meses tentávamos marcar um encontro. Aí ligou Alessandra, uma de suas quatro filhas: ?Papai morreu?.

Estava fechando a edição de segunda-feira do Diário do Comércio. Teclei ?Alessandro Porro? no Google para coletar dados para uma nota de falecimento. Surgiram alguns textos que ele assinou na coluna Swan, em O Globo. Notícias de mais um livro publicado, Casamento & Divórcio. Uma citação rancorosa em uma entrevista. Praticamente só. Quanta injustiça!

A Porro é debitada uma grande besteira jornalística. Não a li, não a vi, não a testemunhei, não conheço quem a confirme, mas apenas quem a repita, como se fosse uma lenda. É o relato da morte de Che Guevara, escrito como se ele a tivesse assistido na Bolívia. Ele a despachou da redação da revista Realidade. E como um bumerangue, o ?furo? de reportagem voltou ao Brasil e o acertou em cheio, ferindo-o para toda a vida.

Nunca ouvi Porro falar de Che desde que o conheci no final de 1977, em Tel-Aviv. Ele era correspondente de Veja, eu do Estadão. Ele, veterano, eu começando. Freqüentávamos o centro de imprensa com os brasileiros de O Globo, Jornal do Brasil e da Folha. Último a chegar, levei algum tempo até descobrir a concorrência mortal que nos unia cinicamente apenas no cafezinho, enquanto líamos comunicados do governo depositados em nossos boxes e ouvíamos o noticiário em inglês ou francês, cada um com seu rádio-gravador de pilha. Porro orgulhava-se de ter o melhor de todos. Em casa, exibia um rádio militar.

Porro não me declarou guerra. Até me ajudou com o credenciamento e a escolha do bairro para viver. Mostrou-me restaurantes. Aclimatou-me à vida israelense. Por ser o único semanário entre diários, ele se dava com todos. Passava as noites de quinta-feira escrevendo; as sextas, comemorava. Lia com sotaque italiano a sua reportagem para os amigos. Depois, shabat, ia beber chá com hortelã no Café Kassit, na rua Dizengoff, onde se encontrava com Ibrahim, um amigo palestino. Visitava livrarias. Preparava ele próprio o jantar, quase sempre um espaguete a putanesca. O fim de semana só acabava na segunda-feira à tarde. Tinha um acordo com sua mulher, Irene: ele limpava a casa de seu umbigo para cima, incluindo a montanha de louça suja que deixavam acumular, e ela ficava com o chão, o lixo, a roupa e um cão que tinha medo de tudo, até de passear.

Irene era uma negra escultural, descoberta por Porro quando dançarina do Sargentelli, num show brasileiro em Paris. Ela acabaria se tornando conhecida em Israel depois de fotografada com os seios numa bandeja para uma capa de disco. Os árabes a saudavam com salamaleques, quando turistava pelas cidades palestinas da Cisjordânia. Mas alguns religiosos vizinhos de prédio não a queriam, nem ao marido, menos ainda ao cachorro – e uma vez tiraram dele alguns pelos para um antídoto contra os três.

Porro tinha um amigo inseparável em Israel: o norte-americano Barry Riesenberg, casado com Malka, uma aeromoça da El-Al. Os dois escreveram um livro: como a paz em fim de negociações entre egípcios e israelenses seria recebida em várias partes do mundo. Eram páginas brancas, com uma frase só, às vezes com uma única palavra. O motorista de táxi em Nova York exclamaria: ?Socorro!?, em iídiche. Yasser Arafat: ?Socorro!?, em árabe (acho que também em hebraico). O papa: ?Socorro!?, em polonês. Queriam publicá-lo a tempo de pegar a onda de consumo de fim de ano. Estavam seguros de que seriam um grande sucesso. Mas a gráfica atrasou muito esperando um texto que não existia. Pronto o livro, ninguém aceitou distribuí-lo. Os dois resolveram protestar bloqueando a porta da principal livraria de Tel-Aviv, a Steimatsky, com um montão de exemplares. Mas um caminhão de lixo os levou todos embora.

No avião com o primeiro-ministro Menachem Beguin e a imprensa internacional, num vôo histórico Tel-Aviv-Cairo, Porro pôs um exemplar do seu livro para circular. De repente, um jornalista gritou em inglês, mostrando-o a todos: ?Eu comprei essa merda!?

Porro levantou-se e também berrou: ?Ah, foi você!? A discussão continuou porque o único comprador queria seu dinheiro de volta. O avião gargalhava. Beguin pegou o livro e o repassou sem sequer folheá-lo. O co-autor Barry acabaria usando o encalhe para calçar a própria cama ou como blocos de anotação.

No Cairo, Porro e um dos seguranças de Beguin se desentenderam à entrada de uma raríssima sinagoga dos remanescentes judeus do Egito. Foram apartados antes que se engalfinhassem. Barrado, ele aproveitou para ir ao shuk, o mercado. À noite, no Mena House Hotel, lá estava ele, como se nada tivesse acontecido, vestido com uma galabyia, a túnica dos árabes. ?É de linho?, exultava. Depois desta viagem, ele nunca mais pôde entrar em Israel sem ser levado por policiais para uma revista detalhada, em que até a pasta de dente era espremida. Cortesia do vingativo guarda-costas da comitiva de paz israelense.

O jornalista Porro que eu conheci prezava cada palavra que escrevia. Comparava as traduções para o árabe e o hebraico de acordos assinados em inglês. Atualizava-se obsessivamente sobre o Oriente Médio. Eram livros de história, biografias, ensaios, até a Bíblia, a Torá e o Alcorão. Lia os jornais americanos, italianos e franceses. Vendo-o tão zeloso eu achava que ele estava querendo abrir uma trajetória de trabalhos consistentes que o distanciassem cada vez mais do mito de Che Guevara.

Porro tinha tanto humor quanto pavio curto. Eu o vi explodir dentro de um banco que não aceitou sua credencial de jornalista como documento de identidade. E o vi também se aproximar de um casal de velhinhos, abraçá-los como se os reencontrasse depois de perdê-los na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, fazer um escândalo público, eufórico, para depois se retirar sem dar nenhuma explicação. Ficou possesso quando alugou um carro branco, com motorista, para receber um Civita, e apareceu um azul. Brigou comigo porque eu ia veloz de Beirute a Haifa, atrasado para enviar o artigo do dia, e queria saltar no meio da estrada aberta por tanques, numa aldeia xiita. Não parei. Mas ele me fez voltar uns 50 quilômetros, enfrentando de novo inúmeros check-points do exército israelense e de facções palestinas, ao descobrir que tinha esquecido os óculos no bar do hotel Commodore.

Vivia uma vida desregrada. Fumava sem parar (e morreu aos 72 anos ?sem pulmão?, como contou o amigo que o levou para o hospital). Bebia. Emendava dias e noites. Nunca o vi preocupado com dieta ou em fazer ginástica, caminhar. Um dia ele foi transferido de Israel para a Inglaterra. Em Tel-Aviv deixou Irene, que passou a namorar um ferido de guerra sem uma perna. E em Londres deixou um olho, ao bater o rosto no corrimão da escada de um bar. Ganhou uma indenização por acidente paga por um de seus cartões de crédito. Dizia que ia comprar uma casa…Ele sonhava em abrir um restaurante pequeno. Em todo grande acontecimento no Oriente Médio, lá vinha ele avisando, pelo telex, que estava voltando. Não importava a demorada revista-punição no aeroporto – ele não se permitia perder mais um capítulo de guerra e paz entre judeus e árabes. Sempre aparecia com um malte escocês para abrir com os amigos. Numa dessas viagens ele fez um trabalho memorável. Foi a reportagem da tragédia de Sabra e Shatila, o massacre de palestinos por forças cristãs libanesas, consentido pelo ministro da Defesa israelense na época, general Ariel Sharon, até hoje em guerra contra o líder palestino Yasser Arafat.

Porro gostava de casar (e dizia que procurava agora a sétima mulher) e de escrever livros (quantos publicou? não sei… surpreendeu-me uma vez como autor de um livro sobre a operação Entebe; ontem, como autor do guia Casamento & Divórcio; sempre, com projetos mirabolantes logo abandonados). Um dia o reencontrei na platéia de uma palestra que fiz em São Paulo. Combinamos nos ver algum dia. Ele me mandou um e-mail com uma charge em que um nadador judeu abre uma piscina como Moisés, o Mar Vermelho, e uma pergunta sobre um jantar: ?quando??.

Pensei no ?quando?? nos últimos dias. Como estaria o Porro. A poucas horas de ir a seu enterro, agora, senti que deveria escrever este testemunho. Será uma injustiça se um jornalista de tantas coberturas importantes e históricas ficar relegado ao esquecimento ou só ser lembrado por um erro pelo qual pagou a vida toda.?”

 

MEMÓRIA / LÁSZLÓ VARGA

“A estupidez da vida (e da morte)”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 15/10/03

“Está sendo muito difícil para qualquer dos colegas da imprensa paulista (e, de resto, de todo o País) compreender o que se passou na cabeça de nosso colega László Varga, na madrugada do último domingo, quando decidiu pôr fim à vida, após 40 anos (em tese) bem vividos e (ainda em tese) no auge da carreira. László (ele sempre fez questão do z depois do s e dos acentos agudos nas letras a e o de seu nome) foi repórter de alguns dos principais veículos de comunicação da mídia impressa do País, sempre respeitado, sempre produzindo belos trabalhos, sempre muito benquisto por colegas e chefes, respeitadíssimo pelas fontes e assessores, assíduo freqüentador de festas, enfim um colega (em tese) de bem com a vida. Trabalhou em O Globo (sucursal SP), onde começou, salvo engano, ao lado de colegas como Luís Malavolta (atual tevê Globo), Joel Guimarães (hoje dirigindo sua própria empresa, a Agência Meios), Germano de Oliveira (que permanece no jornal até hoje), passando depois por Diário do Grande ABC, IstoÉ, Veja (passagem relâmpago de uma semana), Caras, IstoÉ Dinheiro e Folha de S. Paulo, seu último emprego, e onde havia trabalhado em duas oportunidades. Sempre como repórter – bom, dedicado e talentoso repórter.

No velório, realizado na fria madrugada desta segunda-feira (13/10), no Crematório de Vila Alpina, Zona Leste da cidade de São Paulo, a expressão no rosto das dezenas de colegas que foram dar o último adeus ao guerreiro era de total incredulidade. De perplexidade. De inconformismo com a atitude estúpida que ele tomou, deixando viúva Flávia, esposa com quem convivia já há 14 anos, e que, mesmo não sendo jornalista (era professora de inglês), aprendeu a respeitar o trabalho jornalístico que ele fazia, sendo parceira permanente em vários encontros extra-trabalho, como testemunham vários dos colegas jornalistas com quem tive a oportunidade de conversar.

Num papo recente (menos de dez dias) que teve comigo, László falou de seu desancanto com a Folha de S. Paulo, particularmente desde a troca do comando da Economia do jornal, quando perdeu muito do espaço e da valorização que tinha. Ele cobria economia e negócios, sobretudo em áreas como Telecomunicações e Energia, mas os espaços nobres, por opção de linha editorial do próprio jornal, passaram a ser dedicados à macroeconomia, ao material vindo de Brasília, da Fazenda, do Planalto, e quase nada sobrava para matérias de negócios, seu forte. Passou a trabalhar mais e a ter menos material aproveitado, o que lhe causava – segundo me confidenciou – grande constrangimento com fontes de informação que lhe davam entrevistas e passavam informações de qualidade na certeza de ver publicado no dia seguinte o que falaram, o que muitas vezes já não mais acontecia.

Optou por negociar sua saída do jornal quando surgiu a gota d?água: ser conclamado a correr atrás de uma informação que vários jornais publicaram na frente da Folha, mas que, por ironia do destino, ele recebeu em primeira mão de uma fonte sua, sem ter conseguido publicar porque o jornal não se interessou pela pauta. Se a memória não me falha, tratava-se de um comunicado de fato relevante feito pela AES Eletropaulo.

Desgaste como esse, muito normal na vida de qualquer jornalista, não seria motivo suficiente para levar alguém a abdicar da própria vida. Assim imagino. Então o que teria levado nosso colega a se trancar no lavabo de sua casa, no bairro paulistano do Alto da Boa Vista, em companhia de um botijão de gás de cozinha, determinado a partir?

Se ele nada deixou escrito, nunca saberemos ao certo. Com a experiência que tinha, certamente oportunidades de trabalho não lhe faltariam, a despeito da crise que assola o mercado jornalístico no Brasil. Talvez até tivesse algum problema com remuneração, mas nada além disso.

Nossa conversa passou por esse tema. László me contou que estava tentado trabalhar, ainda que como frila, em alguma das publicações customizadas do mercado – cenário que ele vislumbrava como ideal, seja pela possibilidade de produzir matérias especiais e reportagens de fôlego maior, seja pelo próprio potencial de remuneração. E disse que se isso não acontecesse que pensaria seriamente em mudar para o outro lado do balcão, partindo para a assessoria de imprensa.

Mas não foi uma conversa amargurada, como poderia parecer a primeira vista. László realmente mostrava-se disposto a dar uma virada na vida e o mesmo chegou a comentar com vários amigos em outras oportunidades, e mesmo numa festa que ofereceu há poucos dias, em comemoração aos seus 40 anos, demonstrando alegria e vontade de viver.

Um dos derradeiros programas foi a viagem que fez, de pouco mais de uma semana, ao Peru, quando aproveitou a folga inesperada que ganhou ao sair da Folha para arejar e possivelmente pensar na vida. No roteiro Macchupichu e outros sítios arqueológicos do povo Inca. Foi sozinho, já que a esposa Flávia não podia segui-lo, pois tinha de trabalhar.

Teria o clima do sobrenatural, dos mistérios do povo Inca, mexido com seus sentimentos e convicções? Impossível saber. Mas foi logo após regressar da viagem (em verdade no mesmo dia) que tudo aconteceu.

László não tinha filhos e, aparentemente, era de uma família pequena. Seu pai é falecido e a mãe enfrenta problemas de saúde, sobretudo com lapsos de memória, e nem pôde assimilar com precisão a dor da perda. Era o caçula de três irmãos – seu irmão mais velho mora no Maranhão e a irmã do meio em São Paulo mesmo.

Problemas pessoais? Aparentemente também nada que pudesse ser considerado grave, seja do ponto de vista de saúde ou de relacionamento familiar. Também não parecia ter problemas financeiros sérios. Ao menos nada disso nunca chegou aos ouvidos dos amigos.

Como não deixou nada escrito, sua morte será desses mistérios que permanecerão intactos, a martelar permanentemente nosso pensamento, nossas angústias humanas, nossa fragilidade diante desse imenso e inexpugnável universo.

László se foi. O golpe foi, sim, duro. Duríssimo. Os amigos e amigas que deixou continuam assustados e aturdidos com tudo o que aconteceu e ainda custam a crer que isso tudo seja verdade.

2003 vai se transformando, desse modo, no ano que não deveria ter começado, tantos foram os pesadelos para o mundo jornalístico. Não podemos esquecer que antes de László também se foram por iniciativa própria os colegas Andrea Carta (da Vogue), com 46 anos, e Marcos Vita (estagiário da Abril), de 23 anos.

Um quadro dos mais preocupantes, sobretudo para uma comunidade cada dia mais acuada por tantos infortúnios, pelo estresse e, sobretudo, pela baixa estima.

Quero somar à dor pela perda do amigo László, também a que estamos sentindo com as partidas, antes do combinado, de Alessandro Porro, falecido no sábado, em São Paulo, aos 72 anos de idade, de um bruta enfisema pulmonar, fumante inveterado que era; e do Tom, nosso Wilson Thimoteo Jr., aos 55 anos, no Rio de Janeiro, em consequência da leucemia que já o havia afastado das funções como secretário-adjunto de Imprensa e Divulgação da Presidência da República, na equipe de Ricardo Kotscho.

Que semana triste, Deus do céu.”

 

MEMÓRIA / GISELA ORTRIWANO

“Profa. Gisela Swetlana Ortriwano (1948 – 2003)”, copyright O Estado de S. Paulo, 20/10/03

“Na madrugada de anteontem, aos 55 anos. Professora de jornalismo da USP, era formada pela segunda turma de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes (ECA) e desde então trabalhava no Departamento de Jornalismo e Editoração.

Com dois livros sobre radiojornalismo publicados, foi orientadora de mais de uma dezena de alunos de especialização. Para os colegas, a professora fará muita falta. ?Gisela sempre participou de tudo. Deixou um espaço muito grande para ser preenchido?, disse o chefe de departamento de jornalismo e editoração, José Coelho Sobrinho, que trabalhou com ela mais de 30 anos. Os dois tinham dois projetos inacabados: montar a biografia de Walter Sampaio, pioneiro no telejornalismo brasileiro e um estúdio novo de radiojornalismo.

O seu último pedido foi para que as suas cinzas fossem espargidas em frente ao prédio da ECA, onde o corpo está sendo velado, no auditório do departamento de jornalismo. Dali será trasladado hoje, às 10 horas, para o Crematório de Vila Alpina.”

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