Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > TIM LOPES, ASSASSINADO

Roberta Pennafort

Por lgarcia em 19/06/2002 na edição 177

TIM LOPES, ASSASSINADO

"Polícia invade favelas em busca do corpo de Lopes", copyright O Estado de S. Paulo, 11/06/02

"A polícia não conseguiu localizar o corpo do jornalista da Rede Globo Tim Lopes, apesar das buscas feitas durante todo o dia de ontem nas Favelas da Grota e Vila Cruzeiro, zona norte. Os policiais só encontraram o Palio no qual o corpo do repórter teria sido levado da Vila Cruzeiro para a Grota, como disseram dois suspeitos de envolvimento no crime presos anteontem.

Com o auxílio do helicóptero, a polícia descobriu uma área no alto da Grota que serviria de cemitério para o bando de Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, líder do Comando Vermelho (CV) apontado como assassino de Lopes. No local, foram achados fragmentos de ossos humanos. A polícia, porém, não acredita que sejam do jornalista. Nas árvores, havia manchas que podem ser de sangue. Foi achada ainda uma forca.

Todo o material foi encaminhado para perícia. ?Recolhemos partes de vértebras e de costelas e alguns ossos de animais. Vamos continuar escavando?, disse Bruno Gilaberte, da Delegacia de Homicídios. Foram mobilizadas também as delegacias de Brás de Pina, Bonsucesso, Penha e de Repressão a Entorpecentes, além da Coordenadoria de Recursos Especiais, num total de 50 agentes.

Um lago onde haveria restos humanos começou a ser drenado por bombeiros, mas as buscas foram suspensas no início da noite. O trabalho será retomado hoje.

?Tudo indica que é um lugar usado para tortura e assassinato. Há muitos calçados, provavelmente de corpos que foram deixados aqui?, disse o delegado Daniel Goulart, da 38.? DP (Brás de Pina).

Nos retrovisores do Palio branco, que será periciado hoje, havia marcas de fuzil. O carro tinha sido roubado na Penha e foi achado na Grota. Na casa de Renato de Souza, o Ratinho, que seria comparsa de Elias Maluco, foram apreendidas uma moto, uma pistola, uma granada e drogas.

Depoimento – A polícia ouviu ontem o líder comunitário João Batista de Freitas Cerqueira, o João Rato, que faria o contato com os grupos que se apresentavam nos bailes funk da Vila Cruzeiro, alvos da investigação de Lopes. Segundo denúncias recebidas pela Globo, haveria venda de drogas e shows de sexo com menores nos bailes. ?Temos que procurar os grupos e ver o papel dele (João Rato). Se for comprovado que ele é o contato, pedirei sua prisão?, disse o delegado Sérgio Falante.

No depoimento, Rato afirmou que está na favela há um mês. Ele disse conhecer ?de vista? os traficantes Grande e José Capeta, do grupo de Elias Maluco, e que soube por boatos que um homem teria sido preso com uma câmera escondida. (Colaboraram Rodrigo Morais e Felipe Werneck)"

 

"Polícia anuncia ter achado corpo de Tim Lopes", copyright O Estado de S. Paulo, 12/06/02

"A polícia não tem mais dúvidas de que o corpo encontrado na manhã de ontem, no alto da Favela da Grota, no Complexo do Alemão, zona norte, é do jornalista Tim Lopes, da Rede Globo. Ele desapareceu na noite do dia 2, quando investigava denúncias de exploração sexual de menores e de tráfico de drogas em um baile funk da Favela Vila Cruzeiro, na Penha.

?A essa altura não tenho mais dúvidas. Pelo material encontrado, os indícios são fortes demais?, declarou a delegada Alice Fraga, da 22.? DP. A informação foi confirmada pelo secretário da Segurança Pública, Roberto Aguiar, para quem há 99% de chances de os ossos serem do repórter.

A polícia encontrou o corpo em uma cova rasa, ao lado do campo de futebol da associação de moradores e a 50 metros de um lago que a polícia acredita ser um cemitério clandestino. Um crânio perfurado à bala, pedaços de arcada dentária e partes de uma microcâmera foram localizados.

A partir de uma placa numerada (117.985), a Globo confirmou que o equipamento era o usado por Lopes. A lâmina de um facão, um cordão com crucifixo e os restos de um relógio e de uma pochete estavam enterrados na cova. Uma camisa parecida com a do repórter também foi achada.

Segundo a polícia, Lopes foi esquartejado e seu corpo, queimado no local. Ao lado da cova havia sinais de uma fogueira e uma pedra com marcas de machadadas. ?O corpo estava totalmente cortado. Os ossos estão muito fragmentados. Houve um sacrifício brutal?, disse o investigador Daniel Gomes. Para ele, o traficante Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, acusado de mandar matar Lopes, dificilmente será preso com vida. ?Sabemos que ele é perigoso e a polícia dará uma resposta à altura do tratamento que ele dá às vítimas.? O chefe de Polícia Civil, Zaqueu Teixeira, disse que a captura de Elias Maluco é questão de honra, mas não quis estabelecer prazos.

Desde o dia 4, o Disque-Denúncia já recebeu 118 telefonemas sobre o criminoso. Há informações de que ele estaria fora do Estado. Se isso for verdade, a distância não impedirá a prisão do bandido, segundo Roberto Aguiar.

Denúncia – A informação sobre o local da cova chegou à polícia na manhã de ontem e, de acordo com Zaqueu Teixeira, veio de um morador da favela. Cães da PM indicaram o ponto exato. ?Mike deu o sinal.

Ele sentiu o odor e começamos a cavar?, disse um PM, referindo-se a um labrador.

Os ossos foram levados para o Instituto Médico-Legal e serão submetidos a exame de DNA. O dentista de Lopes foi convocado para identificar a arcada dentária. Os restos de objetos estão no Instituto de Criminalística Carlos Éboli. Na 22.? DP, peritos recolheram digitais no Palio que teria sido usado para transportar o repórter até o local da execução.

A prefeitura decretou luto por três dias e programou a leitura de textos sobre a liberdade de imprensa nas escolas e repartições públicas. Na Assembléia, houve homenagem ao repórter. O Grupo Tortura Nunca Mais divulgou nota em que condena o assassinato e defende que ?os diferentes órgãos envolvidos no combate à violência cumpram suas funções legítimas?. (Colaboraram Roberta Pennafort e Felipe Werneck)"

 

"?Não há como controlar um repórter investigativo?", copyright Folha de S. Paulo, 16/06/02

"Ex-repórter da Globo e atualmente contratado da Rede TV!, Marcelo Rezende foi companheiro de profissão e amigo do jornalista Tim Lopes, morto por traficantes enquanto realizava reportagem sobre um baile funk numa favela carioca onde estariam ocorrendo tráfico, consumo de drogas e abuso sexual de menores.

?Era uma relação de mais de 30 anos. Eu chamei o Tim para trabalhar na revista ?Placar?. Quando comecei o ?Linha Direta?, também convidei-o, mas o jornalismo da Globo acabou não deixando. Ele era aquele tipo de repórter essencial para o departamento?, afirma. Rezende define a morte do amigo como uma ?fatalidade? causada pelo desgoverno instalado no Rio. ?Quando o Estado não cumpre seu papel, alguém ocupa o espaço vago. Pode ser alguém do mal, como o tráfico, ou do bem, como as organizações não governamentais que atuam no Jardim Ângela [bairro da zona sul paulistana?, por exemplo.? O jornalista diz que, levando-se em conta essa situação de desgoverno, não havia como evitar o assassinato de Lopes. ?Não há como controlar um repórter investigativo, não adianta o chefe dizer que não. Ninguém me mandou fazer reportagem sobre pirataria de CDs na China, investigar venda de armas, ou entrar na favela Naval. E há sempre um risco envolvido nisso, é uma questão de probabilidade.?

Carreira

Está prevista para o próximo dia 24 (finalmente) a estréia de Rezende na Rede TV!, como âncora do ?Jornal da TV?. A princípio, ele dividiria com Jorge Kajuru o comando do ?Repórter Cidadão?, que estreou em maio com o ex-apresentador da Record José Luis Datena à frente.

?Graças a Deus ele ficou com o programa?, afirma Rezende. ?Mas não é graças a Deus no sentido pejorativo. É que isso foi bom para o Datena, que é um irmão, um amigão. Agora, teremos na Rede TV! uma ótima equipe?, explica.

Com 50 anos de idade, Rezende começou sua carreira no jornalismo em 1969, no ?Jornal dos Sports?, do Rio. Passou pela Rádio Globo, pelo jornal ?O Globo? e pela revista ?Placar?, sempre na cobertura esportiva.

Em 1987, foi contratado pela TV Globo e, dois anos depois, passou para o núcleo de reportagens especiais da emissora. ?Trabalhava para o ?Globo Repórter?, ?Fantástico? e ?Jornal Nacional?. Em 1998, iniciei o ?Linha Direta?, do qual eu saí em 2000 para voltar à reportagem?, conta.

Rezende afirma ter deixado a Globo pela chance de, pela primeira vez, apresentar um telejornal. ?Além disso, terei a possibilidade de voltar a trabalhar com alguém muito importante na minha vida profissional, o Alberico [Souza Cruz, superintendente de jornalismo da Rede TV! e também ex-Globo?.?

Apesar dessa mudança de ares, definida como ?um novo desafio? pelo jornalista, Rezende não pretende abandonar as reportagens investigativas. ?No começo, vai ser difícil. Além de âncora serei editor-chefe do ?Jornal da TV? e não terei como ir para a rua. Mas, quando as coisas engrenarem, isso será possível.?

Ele diz acreditar que sua experiência como repórter influenciará na maneira de apresentar o telejornal. Afirma que não fará o papel do âncora tradicional, dando opiniões sobre os assuntos enfocados nas reportagens. ?Prefiro apresentar dados complementares, oferecer mais elementos para reflexão, do que dizer se algo é bom ou ruim, se me agrada ou não?, explica.

Rezende também afirma que sua chegada marca uma mudança no direcionamento dos temas do ?Jornal da TV?.

?Vamos denunciar as mazelas do país, que não são poucas. Mas não só isso. Pretendemos mostrar ações responsáveis pela melhora dessa situação, como as das ONGs que diminuíram os índices de violência e de mortalidade infantil no Jardim Ângela.?"

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