Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Roberto Dias

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

MUDANÇAS NO NYT

"?NY Times? cria cargo de ombudsman", copyright Folha de S. Paulo, 31/07/03

"O jornal ?The New York Times? anunciou ontem que vai criar o cargo de ombudsman.

A iniciativa faz parte de um pacote de medidas que o diário decidiu tomar para se reorganizar após a mais dramática crise de seus 151 anos de existência.

O ombudsman será chamado de editor público e deverá ser conhecido até setembro ou outubro. O escolhido terá mandato de um ano -após o período, o jornal vai avaliar se mantém sua função e se a altera.

A decisão é um marco na história do ?Times?, que vinha se recusando a criar uma estrutura de controle externo de sua Redação. ?Temíamos que ele fomentasse críticas desimportantes e auto-admiração, que pudesse afetar o moral da equipe e que, pior de tudo, fosse tirar dos editores sua responsabilidade de representar os interesses dos leitores?, escreveu o novo editor-executivo do jornal, Bill Keller, no memorando em que anunciou a medida.

Mas a avaliação agora é outra. ?Nós podemos nos beneficiar com o escrutínio de um representante, independente, dos leitores. Um par de olhos profissionais, familiares a nós, mas independentes da produção diária do jornal, pode nos tornar mais sensíveis a assuntos de equilíbrio e precisão e aumentar nossa credibilidade?, apontou Keller.

O ombudsman se reportará a Keller, mas terá prerrogativas especiais, como o mandato definido. Além disso, poderá, quando quiser, publicar no ?Times? textos comentando pontos da cobertura do jornal e terá acesso regular assegurado ao publisher, Arthur Sulzberger Jr.

A criação do cargo de ombudsman é uma das sugestões vindas de uma comissão montada pelo ?Times?, com nomes de dentro e de fora da empresa. O jornal acatou as principais idéias.

Outra novidade importante será o cargo de editor de padrões. Seu trabalho se concentrará em regular a qualidade da cobertura durante a produção do jornal -o ombudsman, por sua vez, terá seu foco direcionado ao que já foi publicado pelo diário.

Parte do trabalho do editor público será dividida com o editor de padrões. Ambos serão responsáveis, por exemplo, por assegurar que o jornal corrija adequadamente os erros que cometer. Mas o editor público terá a prerrogativa de escrever críticas públicas, se as considerar necessárias.

O editor de padrões, que será nomeado em breve, já tem algumas missões pré-definidas. Ele vai rever a política do jornal para publicação de informações cuja fonte não é identificada e para crédito de reportagens.

O ?Times? decidiu ainda criar um terceiro novo cargo, o de editor de equipe e desenvolvimento de carreira. Ele ficará responsável por conduzir a política de contratações e promoções do jornal. Uma de suas funções será levar adiante as práticas de ação afirmativa que o ?Times? adota em relação a seus empregados.

A política de diversificação dos funcionários será levada adiante após a comissão concluir que ela não foi culpada pelo escândalo desencadeado por seu ex-repórter Jayson Blair, 27.

O ?Times? descobriu que o jornalista publicou reportagens fraudadas. As investigações internas levaram à divulgação de uma longa de lista de correções. A seguir, a crise provocou a demissão de seu editor-executivo anterior, Howell Raines. Ele foi substituído por Keller, que assumiu o cargo ontem.

Paralelamente, o jornal montou uma comissão com 28 pessoas e encabeçada por Allan Siegal, secretário-assistente de Redação.

A partir da série de recomendações formuladas pelo grupo, a direção do ?Times? resolveu anunciar também outras mudanças de procedimento, além da criação dos três novos cargos.

O jornal decidiu mudar práticas de gerenciamento de seu pessoal. Os editores serão avaliados não apenas pela qualidade jornalística de seu trabalho mas também por sua capacidade de comandar sua equipe e de decidir o uso dos recursos que tem em mãos.

O ?Times? vai negociar com o sindicato dos jornalistas a criação de um sistema de avaliação de seus funcionários, que deverá ser usado para determinar seus salários. Além disso, criará um sistema para aumentar a comunicação entre seus jornalistas -uma das causas apontadas como responsáveis pelo escândalo."

***

"Comissão diz que culpa não é de ação afirmativa", copyright Folha de S. Paulo, 31/07/03

"A comissão interna do ?New York Times? concluiu que a política de ação afirmativa adotada pela empresa não foi a principal responsável pelo escândalo.

?Alguns críticos argumentam que o esforço de diversidade foi essencialmente o que causou a calamidade [Jayson] Blair. Isso é simplista?, escreveu a comissão em seu relatório final, divulgado ontem.

Segundo a avaliação de seus integrantes, o escândalo ?representa uma falha de comunicação, comando e disciplina?.

?Nenhuma pessoa, nenhum erro isolado e nenhuma política sozinha são responsáveis pela vergonha de plágio e ficção que manchou o jornalismo do ?New York Times? na primavera de 2003?, diz o relatório.

A comissão entrevistou diversas pessoas ligadas ao caso, incluindo os dois chefes da Redação à época, Howell Raines e Gerald Boyd, que deixaram o jornal como consequência da crise.

O ex-repórter Jayson Blair, autor das fraudes publicadas no jornal, recusou-se a falar, alegando problemas de saúde.

O escândalo foi detonado em maio, quando o jornal gastou quatro páginas em correções de reportagens de Blair, que se demitiu após o ?Times? descobrir que ele inventara informações e copiara trechos de outros meios em seus textos.

Muitas vozes, incluindo a do próprio Raines, disseram, à época, que a política de ação afirmativa do jornal tinha desempenhado papel importante no escândalo. Argumentava-se que Blair conseguira passar incólume durante muito tempo -e inclusive ser promovido, apesar de seus seguidos erros-, por ser negro, o que se encaixaria na política adotada pelo ?Times? de buscar diversidade entre os integrantes de sua Redação.

O escândalo que começou com Blair aumentou quando um importante repórter do jornal se demitiu após a descoberta de que ele utilizara trabalho de outra jornalista em um texto sem creditar seu nome na assinatura.

Em junho, os dois principais editores do ?New York Times? se demitiram, e o jornal anunciou uma solução provisória para o comando da Redação. Em 14 de julho, Bill Keller foi escolhido para ser o novo editor-executivo.

A comissão que investigou o escândalo aponta que a principal causa da fraude desencadeada por Blair é a falta de comunicação interna entre seus funcionários -alguns editores já desconfiavam de seu comportamento, mas tal preocupação não foi levada em consideração pelo jornal.

?Nossa reconstrução dos anos de Blair no Times indica que ele teve muitas segundas chances?, escreveu a comissão.

Mas o grupo sustenta que os erros não são decorrência direta da vontade da empresa de diversificar sua equipe de jornalistas.

?Ação afirmativa malfeita não ajuda ninguém e prejudica tanto a companhia quanto a causa do favorecimento de oportunidades?, diz o relatório elaborado pela comissão."

 

"Keller decreta fim da autocracia no ?NYTimes?", copyright O Estado de S. Paulo / The Guardian, 30/07/03

"Sete andares acima da turbulenta redação do New York Times, na Rua 43, está o corredor que o tempo esqueceu. Há um clima de calma quase monástica, mofada. Só as placas traem a natureza do que ocorre por trás daquelas portas – William Safire, Frank Rich, Maureen Dowd… E Bill Keller.

Foi onde Keller se recolheu como redator dois anos atrás quando foi preterido para o cargo de editor-chefe do Maior Jornal da Terra. E foi daqui que ele observou silenciosamente o homem que conseguiu a posição conduzir o equivalente a um colapso nervoso institucional na redação.

A qualquer momento, Keller vai se mudar para o clima menos rarefeito do terceiro andar e finalmente assumir o comando de um jornal há meses tumultuado por repetidos escândalos, vazamentos, desculpas, boatos e revelações.

Auditoria – Na sexta de manhã, ele havia chegado cedo, e estava lendo o relatório de três jornalistas contratados para fazer uma auditoria dos erros cometidos sob a direção anterior.

O relatório está para ser publicado esta semana – e deve inspirar outro festival de schadenfreude (palavra alemã que traduz o sentimento de prazer com a desgraça alheia) entre jornalistas rivais, para quem chutar o NYT é uma grande diversão. Logo depois, deverá haver outro relatório, interno, do lendário editor-executivo Al Siegal. Depois do que, a exaustão se encarregará de pôr ponto final nessa história.

Se o seu predecessor, Howell Raines, era rude, sulista e exibido, Keller é modesto, discreto e pensativo. Ele é moderado nas críticas à gestão anterior e cuidadoso ao atribuir elogios à imparcialidade do NYT, que muitos acham admirável e alguns, tão irritante.

Criticar Raines era muito mais fácil cerca de duas semanas atrás, quando o ex-diretor deu uma entrevista no programa Charlie Rose, da PBS, no qual, como disse um cronista, ?falou em público o que só devia ter comentado no jantar com amigos.?

Traição – Raines sugeriu que havia sido traído pelo publisher, Arthur Sulzberger Jr., depois de ter recebido autorização para ser um ?agente transformador?, para agitar uma redação que havia ?caído em uma espécie de cultura da complacência letárgica?.

?Eu não acho que ninguém que conhecesse a redação antes da chegada de Raines possa acreditar fielmente naquilo?, diz Keller, sobriamente. Então, o que houve de errado? Ele faz uma longa pausa. ?É possível introduzir um estilo de liderança autocrática em uma organização de porte médio e vê-la trabalhando bem. Várias revistas são administradas… Onde todas as decisões e o poder fluem de uma autoridade central.? E acrescentou: ?Mas é difícil administrar uma organização de 1.200 pessoas dessa maneira, especialmente num lugar tão exigente e inseguro e ansioso quanto uma redação. Se você tentar recorrer a uma única fonte para distribuir o seu carisma, então, duas coisas podem acontecer: uma, várias pessoas vão se sentir frustradas e preteridas, e, dois, o fluxo de idéias – que em uma redação deve fluir de baixo para cima e não de cima para baixo – fica sufocado.? Operação de guerra – Raines, ele reconhece, teve de administrar o jornal como uma operação militar desde o momento em que assumiu, que coincidiu com a maior reportagem da história do jornal – o 11 de setembro. Seu erro foi continuar administrando o jornal com base em uma linha militarista quando a crise terminou.

?É uma analogia tendenciosa, mas é um pouco como o que ocorreu na União Soviética, onde eles tinham sistemas político, cultural e midiático militarizados porque tinham de vencer uma guerra. O problema é que eles nunca se desmilitarizaram. A máquina militar procurava sempre por novas guerras.? Jayson Blair, nessa análise, era simplesmente um McGuffin – o evento hitchcockiano que punha a catástrofe em movimento. ?Ele não causou isso, pode ter sido outra coisa.?

Keller, 54 anos, ex-correspondente estrangeiro, vai ser, sem dúvida, uma figura apaziguadora e segura quando voltar ao terceiro andar. Se será bem vindo ao ser arrastado para o caldeirão da redação não se sabe.

Quando almoçamos no último outono ele estava muito feliz com sua vida no 10.? andar. Ele tem três filhos (dois deles com menos de 6 anos, de sua mulher inglesa, Emma Gilby) e parecia feliz com a paternidade tardia e o trabalho como colunista e repórter.

?Eu era feliz. Abençoadamente feliz. Mas não, eu não hesitei.? Ele enfatiza que conseguiu chegar ao aniversário de 6 anos de sua filha logo depois de sua indicação ser anunciada. Uma de suas missões é fazer sua equipe administrar melhor trabalho e lazer. Ele acredita que trabalharão melhor se passarem mais tempo com suas famílias e aproveitando a vida cultural de Nova York.

?Homem de jornal? – Keller diz não ter mandato de Sulzberger além daquele de garantir que nenhum editor seja acomodado. Ele concorda com a observação de seu publisher, várias vezes citada, de que o futuro do NYT será ?independente do suporte? – podendo ser entregue através de uma variedade de meios, incluindo a internet? ?Extra-oficialmente, sou a favor da independência do suporte?, sorri. ?Pessoalmente, sou um homem de jornal.? Ele prossegue com algumas observações diplomáticas sobre a importância da operação de internet.

Ele concorda com a análise de que a imprensa americana, de uma forma geral, não faz críticas ao governo Bush? Ele faz uma pausa e aponta para o fato de que a maior parte das críticas ao NYT é de que o jornal é muito liberal.

Keller admite que, em algumas instâncias, a mídia americana demorou muito para ir atrás de histórias como as falhas de inteligência no Iraque. Mas ele aponta o clima pós-11 de setembro como responsável. ?Era uma espécie de simpatia compartilhada. Não para o presidente e seu governo, mas quase uma vontade universal, todos queriam que eles estivessem fazendo a coisa certa.?

E com isso ele se levanta, lendo o que resta do relatório externo. Ele sabe que há muito a ser feito."

 


"NYT anuncia que contratará ombudsman", copyright O Globo / The New York Times, 31/07/03

"Tentando reparar os danos à credibilidade do ?New York Times? e à ética de sua equipe, após uma série de reportagens fraudulentas de um jornalista, o novo editor-executivo do jornal aceitou ontem as principais recomendações de uma comissão interna, inclusive a nomeação de um ombudsman para representar os leitores.

Numa de suas primeiras intervenções como editor-executivo, Bill Keller afirmou num memorando à equipe que em breve contratará um editor para o novo cargo. ?Ele terá licença para escrever sobre assuntos de nossa cobertura e para ter esses comentários independentes e não censurados publicados nas nossas páginas?, escreveu Keller.

Após dias de discussões com diretores de redação, Keller também aceitou a recomendação da comissão para criar cargos para editores que vão monitorar a obediência interna aos padrões do jornal e assegurar que tarefas e promoções na redação sejam feitas de modo mais transparente.

Um relatório dos 28 membros da comissão – entre eles três jornalistas de fora – foi divulgado ontem à equipe do jornal e em seu website.

As novas decisões são resultado de um processo de reflexão iniciado quando o repórter Jayson Blair se demitiu, depois de se descobrir que ele cometera fraude jornalística, inclusive plagiando e inventando declarações em pelo menos 12 artigos publicados entre outubro passado e abril.

O relatório de 58 páginas reconhece problemas no gerenciamento da redação e pede ?um clima permanente de discussão e colaboração?."


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