Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > FRAUDE NO NYT

Roberto Dias

Por lgarcia em 27/05/2003 na edição 226

FRAUDE NO NYT

“Repórter que fraudou ?NYT? culpa pressão”, copyright Folha de S. Paulo, 22/05/03

“O ex-repórter do jornal ?The New York Times? Jayson Blair disse que inventou informação em reportagens que escreveu por causa de problemas pessoais e da pressão por ser jovem e negro.

Sua primeira longa explicação sobre o episódio foi publicada ontem pelo jornal semanal ?The New York Observer?.

?Eu era novo, sob muita pressão. Eu era negro no ?Times?, o que é algo que prejudica você tanto quanto te ajuda. Certamente tenho problemas de saúde, o que provavelmente me levaram a ter que ?matar? o jornalista Jayson Blair. Eu iria matar a mim mesmo ou iria ?matar? o jornalista. Para que o ser humano pudesse viver, o jornalista tinha que morrer.?

Blair, 27, reconheceu ter problemas com álcool e cocaína. ?Drogas e álcool sem dúvida fizeram parte da minha automedicação?, afirmou. Essa seria a causa, segundo ele, de uma das maiores correções que o jornal publicou em uma reportagem sua, no relato de um show de rock após os atentados de 11 de setembro de 2001. ?Eu estava bêbado no trabalho?, disse ele.

Mesmo admitindo os erros, o jornalista contesta parte da versão do ?Times?. Afirma que seus erros se concentram neste ano. Diz, por exemplo, que, ao contrário do que publicou o ?Times?, não inventou uma de suas reportagens de maior repercussão, sobre o atirador que apavorou Washington no ano passado.

O ?Times? disse que não comentará a entrevista.

Erros anteriores que motivaram correções, diz, não foram intencionais. Mas reconheceu que teve mau comportamento no jornal em alguns momentos, quando foi obrigado a trabalhar com editores que classificou como ?idiotas?. Ainda assim, disse achar que mereceu ser promovido.

Thomas Blair, pai do jornalista, confirmou algumas das histórias que o filho contara ao jornal e que agora vinham sendo apontadas como invenções -afirmou ter trabalhado sim na Nasa nos anos 80 e que eles tiveram um parente no corredor da morte de uma prisão americana.

Blair disse se irritar com comparações com outro caso semelhante, o do jornalista Stephen Glass. Ex-repórter da revista ?The New Republic?, ele foi descoberto inventando histórias anos atrás e, coincidentemente, acaba de lançar um livro sobre suas reportagens -vendido nas prateleiras de ficção.

?Não entendo porque eu sou a contratação de ação afirmativa enquanto Glass é o garoto brilhante, já que, na minha perspectiva, e eu sei que não deveria estar dizendo isso, eu enganei algumas das pessoas mais brilhantes do jornalismo. Eles são todos tão espertos, mas eu estava sentado bem debaixo do nariz deles enganando-os. Se eu sou uma contratação da ação afirmativa, como eles não me pegaram??, disse.

Ainda assim, aponta que o fato de ser negro influenciou seu destino. ?Qualquer um que diga que minha cor não teve papel na minha carreira no ?Times? estará mentindo. Tanto preferências raciais quanto racismo existiram. E eu diria que eles não se contrabalançaram. O racismo teve impacto muito maior?, afirmou.

Blair criticou o jornal pela forma que publicou sua história (um dossiê de quatro páginas numa edição de domingo). ?Fico triste por minha participação nos problemas que eles estão tendo agora e pelo que aconteceu com meus antigos colegas -mas sinto que eles fizeram isso a eles mesmos. O ?Times? fez isso a ele mesmo ao escrever uma história que tentava pôr a culpa nos ombros de um homem sem examinar como a instituição permitiu que aquilo acontecesse. Uma história assim não é crível?, disse.

Agora, dedica-se a escrever um livro. Sua trajetória também deverá virar filme. Blair lembrou, porém, que há gente no ?Times? irritada com o fato de que ele quer escrever um livro e que acha que ele deveria se tratar. ?A única maneira de eu fazer isso é se eles começarem a pagar minhas contas.?”

“Para crítico, valorização do ?colorido? gera fraudes”, copyright Folha de S. Paulo, 22/05/03

“Cada vez mais, as estrelas do jornalismo não são os repórteres encarregados do chamado ?hard news? e sim os autores de textos especiais, repletos de cenas e declarações não presenciadas por outros repórteres e portanto de difícil verificação.

Para Michael Wolff, 49, respeitado crítico de mídia dos EUA, titular de uma coluna na revista ?New York?, a excessiva valorização de ?descrições coloridas e detalhes no limite da ficção? ajuda a explicar o caso Jayson Blair, jornalista do ?New York Times? demitido por cometer fraude e plágio em dezenas de reportagens.

?Obviamente [os superiores do repórter] achavam que ele tinha agressividade e estilo?, diz. ?E uma linha tênue separa ?agressividade e estilo? da invenção pura e simples.?

Wolff, que iniciou carreira como redator do ?Times?, foi vencedor do National Magazine Award de 2002 na categoria comentário. Leia a seguir os principais trechos da conversa por e-mail que ele teve com a Folha.

Folha – Em 1981, quando se descobriu que uma jornalista do ?Washington Post? ganhara o Pulitzer com uma história 100% fictícia, o então editor-executivo disse que, se um repórter estiver decidido a enganar seus superiores, eles serão enganados. A fraude é inevitável no jornalismo?

Michael Wolff – Até certo ponto, sim. Mas é claro que há jornais e editores mais propensos do que outros a serem enganados.

Folha – De que a cúpula da Redação do ?New York Times? é culpada no caso Jayson Blair?

Wolff – Do ponto de vista administrativo, talvez não seja culpada de nada. Toda grande empresa tem, já teve ou terá um dia funcionários envolvidos em algum tipo de fraude, maior ou menor.

O problema são as indicações de que existiam evidências para ter interrompido antes a trajetória do repórter. Parece claro que o editor-executivo e o secretário apreciavam o perfil de Blair. Obviamente achavam que ele tinha agressividade e estilo. E uma linha tênue separa ?agressividade e estilo? da invenção pura e simples.

Folha – Em seu artigo sobre o caso o sr. sugere que o jornal exagerou ao dedicar quatro páginas às conclusões da comissão de sindicância, tratando ?um escândalo no ?Times? como o maior de todos os escândalos?. Por que tamanho destaque?

Wolff – Para a maioria das pessoas no ?New York Times?, a realidade mais importante é a realidade interna do jornal. É algo que está acima das instituições e certamente acima das demais profissões. Assim, qualquer notícia relativa ao ?Times? é considerada maior do que as demais. Imagine uma notícia que coloca em xeque a integridade mítica do ?Times?.

Folha – Na revista ?New Yorker?, o jornalista Hendrik Hertzberg questiona a idéia, defendida pelo jornal, de que este seria um dos piores momentos em seus 152 anos de história. Para ele, as ?mentiras banais? de Blair seriam menos lesivas do que a obsessão do jornal com o comportamento de Bill Clinton ou as falsas acusações ao cientista Wen Ho Lee. O sr. concorda?

Wolff – Sim, concordo.

Folha – O sr. já escreveu que as Redações valorizam cada vez mais ?descrições coloridas e detalhes no limite da ficção? em detrimento de apuração sólida e texto preciso. Em que medida essa cultura jornalística contribui para o surgimento de casos como o de Jayson Blair?

Wolff – O relato dos elementos principais da notícia se tornou produto disponível em qualquer lugar e a preço cada vez mais baixo. Para que seu trabalho se distinga, o jornalista tem de acrescentar algum valor a esse produto, daí a importância dada a ?agressividade e estilo?.

Folha – Além do mea-culpa impresso, a cúpula do ?Times? promoveu um encontro com a Redação que, embora ?fechado à imprensa?, foi reportado por todos e transformado em outra contrição pública. Por que tanta imolação?

Wolff – Acho que é uma exigência do jornalismo 24 horas.

Folha – O ?Times? poderia ter agido de outra maneira?

Wolff – Sem dúvida. Poderia ter simplesmente demitido o sujeito.”

“O bobo do Blair”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 25/05/03

“Jayson Blair, aquele malandro do New York Times, deu entrevista na semana passada na qual mostrava-se orgulhosíssimo de ter enganado colegas e leitores do jornal inventando entrevistas ou plagiando matérias de outras publicações. Ele acredita ter ludibriado as vítimas graças a uma astúcia digna do Chaves. Bem, Mr. Blair, creio que o senhor realmente não está entendendo muita coisa a respeito do que acontece com o jornalismo nos dias de hoje, tanto aí nos esteites, quanto aqui, no quintal do Tio Sam.

Qual é (ou deveria ser)uma das principais características de um bom jornalista, seja ele repórter, redator, pauteiro ou editor? O pensamento crítico, não é? Há até pouco tempo esta tinha sido sempre uma característica do jornalista, reconhecida até por quem não gostava de nós – e que por isso nos trachava de inconvenientes e até de mal-educados.

Essa atitude crítica diante do mundo é coisa do passado. Hoje, ?o pensamento crítico foi banido das redações?, conforme as desencantadas palavras que uma amiga, ótima repórter que simplesmente desistiu de redação e hoje ganha a vida em assessoria, mas com planos de se transferir para o mercado editorial assim que houver um brecha.

Ora, se uma das pistas para diferenciar um bom repórter de um profissional fraco era o pensamento crítico como fazer esta distinção hoje, quando este tipo de olhar sobre o mundo foi substituído nas redações ou por uma atitude bovina diante dos fatos e dos personagens, ou por uma ânsia de cocainômano pelo sensacional, pelo espetáculo? Como se diferenciar um profissional talentoso de outro apenas esforçado, e os dois de alguém ruim, mas sem escrúpulos de escrever mentiras ou plagiar trabalho alheio?

A resposta é fácil: não tem como. Se tudo é tratado como geléia geral, se as notícias e reportagens são produzidas como salsichas – algumas até com algum requinte no sabor, numa espécie de reserva especial para ganhar prêmios – não há maneira de diferenciar um bom jornalista de um Jayson Blair.

Isto trará – já está trazendo – conseqüências tão sérias para nós quanto a desvalorização de nossa profissão, o que já ocorre. Falo sobre isso em alguma próxima coluna.

Fora da ordem – O escândalo que alguns veículos tentaram forçar em cima do fato de Lula não ter dado entrevistas desde que assumiu mostra, com clareza, o projeto político de boa parte da mídia brasileira. Estes donos de veículos de comunicação querem ser – ou continuar sendo – interlocutores privilegiados do Poder Executivo em nome da população, usurpando, na prática, a função do Poder Legislativo.

O desconforto de boa parte da mídia brasileira se deve ao fato de que Lula está simplesmente ignorando a praxe de abrir discussão com ela sobre a agenda a ser levada adiante. Mesmo no âmbito econômico, no qual o governo atual é praticamente uma cópia de FHC, as decisões passam ao largo do que querem ou deixam de querer os veículos. Este fato tem provocado reações hilárias, além da grita contra a falta de entrevistas, como a de colunistas econômicos que sempre incentivaram a política de juros altos para deter a inflação e hoje mudaram de posição, passando a defender a queda deles, mesmo com a inflação resistindo em cair. Sem contar, é claro, situações menos engraçadas como a campanha que se fez contra o Fome Zero e que quase destruiu o programa, que nem tinha começado.

A tentativa de golpe da mídia contra o Legislativo não é de hoje, agora apenas apareceu ao sol em todo o seu fulgor. Um jornal de São Paulo, por exemplo, há muito advoga a tese de que recebe um mandato toda vez que um leitor faz uma assinatura ou compra um exemplar na banca. Uma confusão deliberada – e pra lá de suspeita – entre dois conceitos de mundos diversos: o de representação política – exclusivo da política – e o de circulação de mercadorias – afeta à Economia.

A atitude de Lula vai confirmando uma esperança que ventilei aqui no C-se: a de que o novo presidente mudasse, para melhor, o relacionamento entre a instituição Presidência da República e a mídia. Escrevi antes e repito agora – se fizer só isto, Lula já terá feito valer seu mandato na área de comunicação.

?Mais um ano se passou…? – Eis que chegamos ao sétimo ano da Coleguinhas, a serem completados no dia 27. Como o grande Cassiano em ?A lua e eu? – hit dos bailes soul dos anos 70 nos subúrbios do Rio -, também me espanto com o passar veloz do tempo. Foi um ano cheio, com coisas muito ruins (assassinato de Tim Lopes) e bem boas (cobertura quase isenta da eleição presidencial). Vamos ver o que reserva o oitavo ano da série.

Aliás…- Às portas de se completar um ano do martírio de Tim, como andam as providências que as empresas juraram que iriam tomar para tornar mais seguro o trabalho dos jornalistas em situação de risco? Falaram em cursos de como se comportar neste tipo de situação (até com a presença de especialistas estrangeiros!), esquemas de proteção, editorias especiais de jornalismo investigativo, interlocução com os sindicatos, etc. Até agora, pelo que sei, nenhuma dessas promessas passou do discurso à prática. Parece que as empresas de comunicação andaram mesmo se preparando para substituir os políticos…”

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