Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > PROVÃO

Roberto Lobo

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

DIRETÓRIO ACADÊMICO

PROVÃO

"Os rankings e o ensino superior particular", copyright Folha de S. Paulo, 2/02/01

"Um estudo de James Monks e Ronald Ehrenberg, de julho de 1999 (‘NBER Working Paper’, nº 7.227), demonstra o impacto que um ranking de instituições de ensino superior (IES), já tradicional nos EUA e elaborado pela ‘U.S. News & World Report’ desde 1983, tem nos resultados da admissão de alunos nas instituições de ensino superior particulares norte-americanas e as consequências que esses resultados geram na política de preços delas.

Os autores não discutem a qualidade do trabalho da ‘USNWR’ ou a pertinência do ranking das IES, mas as repercussões dessa ordenação.

O estudo levou em conta 30 instituições, ao longo de 11 anos, e verificou as correlações entre a posição no ranking da ‘USNWR’ e dois tipos de relação: entre alunos aceitos e candidatos e entre alunos efetivamente matriculados e alunos aceitos. Focou, então, o reflexo que a variação dessas relações, com o crescimento ou a queda no ranking, teve na qualidade média do aluno ingressante.

Como dado adicional, foi verificado como a política de preços dessas instituições ajustou-se para se adequar às novas relações, buscando manter preenchidas as vagas oferecidas.

Os resultados são bastante impressionantes: para a relação aluno aceito/candidato, há um aumento de 0,4% por posição perdida no ranking, isso é, aumenta-se a aceitação e a IES torna-se menos seletiva; e para a relação matrículas/alunos aceitos, verifica-se uma queda de 0,17% por posição perdida no ranking, isso é, menos alunos aceitos decidem matricular-se na instituição.

Essa última percentagem é quase a metade da anterior, que tem duas origens: além da queda da relação de matrículas/alunos aceitos, há a diminuição global do número de candidatos (0,23% por posição no ranking).

Como consequência dessa queda de seletividade, verificou-se a variação do desempenho médio dos estudantes, por meio da análise do desempenho dos novos estudantes no exame geral do SAT (‘Scholastic Aptitude Test’, exame para estudantes do secundário equivalente ao nosso Enem. O SAT tem substituído os exames de admissão nas IES americanas assim como vem acontecendo com o Enem no Brasil).

O resultado é que há uma queda de 0,2% de desempenho médio no exame do SAT por posição perdida no ranking.

Do ponto de vista de preços, as IES americanas têm adotado como política não diminuir o valor das mensalidades, mas oferecer outras vantagens aos estudantes para compensar a queda de demanda. Isso corresponde, em média, a uma redução efetiva de mensalidade de 0,3% por posição perdida no ranking da ‘USNWR’, ou seja, uma diminuição consentida de receita para contrabalançar a queda de demanda.

Não restam dúvidas que avaliações públicas produzem efeitos reais nas imagens das instituições de ensino.

Se um ranking não-oficial -embora tradicional- é capaz de gerar tamanho dano institucional nos EUA, é de se esperar que, no Brasil, o ENC -o chamado provão- venha a ter impacto, se não semelhante, até maior, já que tem o respaldo do Ministério da Educação.

Como mero exercício, admitamos que uma instituição de ensino superior brasileira caia de uma posição A para uma posição B, num curso ou em média, no ENC. Isso significa, no global das instituições analisadas pelo ENC, uma queda de cerca de 150 posições -se há aproximadamente mil IES no Brasil, 12% serão de nível A e 18% serão de nível B, segundo critério do próprio ENC. Logo, de uma posição média de A para uma posição média de B, a instituição desce 15% de 1.000, ou seja, 150.

Admitindo que ocorresse algo similar ao que ocorre nos EUA, esperaríamos que, para o Brasil, a passagem do nível A para o nível B significasse para a instituição ou para o curso: uma queda de seletividade de 33%, expressa pelo aumento correspondente na relação aceitos/candidatos; uma queda de 23% na relação matrículas efetivas/candidatos aceitos; uma queda de 10% na qualidade média dos ingressantes; e uma queda real de receita de 26%.

Essas relações podem ser tomadas no sentido contrário, se houver uma mudança positiva de B para A nas avaliações, representando 49% de melhoria na seletividade expressa na relação estudantes aceitos/candidatos, 33% de aumento na relação estudantes matriculados/estudantes aceitos, 11% na melhoria da qualidade dos ingressantes e 35% no crescimento das receitas.

Ainda que no Brasil os reflexos possam não ser os mesmos dos americanos e os números possam se alterar para cima ou para baixo, o fato é que rankings que de conhecimento público, como é ocaso do provão, quase que certamente geram impactos significativos na qualidade do aluno ingressante, na procura por matrículas e na saúde financeira das instituições. (Roberto Leal Lobo e Silva Filho, 61, doutor em física pela Universidade Purdue (EUA), é diretor da Lobo & Associados Consultoria e Participações. Foi reitor da USP (1990-93) e da Universidade de Mogi das Cruzes – 1996-99)"

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