Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Roberto Maciel

Por lgarcia em 14/05/2003 na edição 224

O POVO

"Um erro não conserta, e até inspira, outro", copyright O Povo, 11/5/03

"Quarta-feira, O Povo publicou um anúncio de uma empresa chamada ?Comtexto de Propaganda?. É a mesma que agenciou um encarte de evidente preconceito racial, no qual também se tentava gracejar com a imagem da Princesa Isabel, com a mácula social da escravidão e com os cidadãos de cor negra. O anúncio de quarta-feira tinha o título de ?Direito de Resposta? ? o que, por si, constitui propaganda enganosa. Afinal, a peça não se classifica tecnicamente como direito de resposta, que é assegurado pelo jornal sem que se cobre nada dos autores, em casos determinados por decisão judicial ou em que se constatam erro de apuração ou ofensa moral. O conteúdo, eivado de erros gramaticais, acusava a mim e ao jornalista Jocélio Leal, da coluna Vertical S/A, de sermos preconceituosos em relação à agência. Além disso, reincidia na risível afirmação de que a Princesa Isabel era ?Imperatriz Regente do Brasil? quando assinou a Lei Áurea (isso mesmo: ?Imperatriz Regente?!!) e questionava os motivos pelos quais havíamos criticado o encarte.

Não é do meu feitio economizar polêmicas, mas também me recuso a debater com três categorias de pessoas: as preconceituosas, conscientes ou não; as que não reconhecem os próprios erros; e as que apresentam alguma dificuldade de compreender o que a história consolida ? tenhamos aqui a comiseração de tratar o caso como ?dificuldade de compreensão?. O caso, no entanto, parece conjugar essas características nos autores do ?Direito de Resposta?. Isto posto, abdico de polemizar e limito-me a informar aos menos esclarecidos que: 1) Sou ombudsman do O Povo e é minha função avaliar a qualidade do produto levado aos leitores. Se os que dirigem a ?Comtexto de Propaganda? soubessem disso, não achariam estranho o fato de eu ter notado a péssima qualidade do encarte que O Povo levou ao público ? encarte aquele que o jornal deveria, por óbvias razões, ter recusado; 2) O jornalista Jocélio Leal analisa Economia e Negócios. Cabe a ele, entre outras tarefas profissionais, comentar distorções eventualmente verificadas em diferentes mercados; 3) Preto, na definição da Física, não é cor, mas ausência de cor. Já o branco, no mesmo sentido, é o conjunto de todas as cores. Uma explicação necessária: até pensei em não incluir esse terceiro ponto, considerando ser natural a quem não conhece História também ignorar rudimentos da Física. Mas fica esta última lição.

No entanto, é possível até compreender a reação da agência, observando fatores que variam de subjetivos ? como a vaidade profissional ? a objetivos ? como sua presença e seus interesses no mercado publicitário. A verdade é que falhas de igual dimensão foram cometidas pelo O Povo. Isso importa muito. O jornal levou ao leitor os erros e preconceitos do encarte e, mesmo sem justificativa, acolheu um anúncio travestido de ?direito de resposta?. Errou duas vezes? Mais do que isso. Sob esta coluna, o leitor poderá conferir o seguinte trecho sobre o ombudsman: ?Suas atribuições são criticar o jornal, sob a perspectiva do leitor, recebendo, checando e encaminhando reclamações?. Trata-se de um resumo do que expressa o terceiro item do Regimento do Cargo de Ombudsman do O Povo: ?As atribuições do ombudsman não se restringem à análise e à crítica dos conteúdos editoriais publicados pela Redação. Sua função compreende receber e encaminhar reclamações de leitores em relação a todos os setores da empresa?. Não é de se lamentar somente que uma ou outra empresa agenciadora de anúncios desconheça o que já existe há 10 anos, mas que o próprio jornal tenha ignorado o que publica todos os domingos.

O relógio, o preconceito e o desrespeito

O texto a seguir não tem os termos nem o conteúdo do que merece ser levado ao leitor, mas é forçoso reproduzi-lo. Antes, porém, algumas observações: 1) foi publicado na coluna Aos Vivos (caderno Vida & Arte) de domingo passado; 2) a coluna é assinada pelo jornalista Tarcísio Matos, mas traz colaborações ? é o caso do texto que se segue, de Jader Soares; 3) à falta de qualificação mais precisa, vamos tratá-lo como um ?poema?. O título é ?Relógio?.


?Foi preso um gay na rua

Que um relógio roubou

Chegando à delegacia

Esta estória contou:

– Seu doutor, seu delegado

O relógio que roubei

Não dá para devolver

Pois no rabo eu guardei

O delegado apavorou-se

E a um preso gay foi perguntar

Se era possível, no ânus

Um relógio se guardar…

O preso deu uma risada

E respondeu lá da rede

– Depende seu delegado

É despertador ou de parede??


Grosseiro, preconceituoso, ofensivo, escatológico, de mau gosto. Sobram definições para o ?poema?. Só uma não pode nem deve ser dada: a de que é uma peça de humor. Incapaz de formar ou de informar, de promover reflexões ou de divertir, teve somente a capacidade de constranger os leitores. Com a publicação desse texto, aliás, O Povo deixou de cumprir o tópico Cultura e Educação, de sua Carta de Princípios (?A Cultura e a Educação representam valores solidários e indissociáveis na construção de uma sociedade moderna, com a consolidação dos princípios da consciência crítica e da cidadania. O Povo mantém compromisso com esses valores?).

Diálogo

Na semana passada, tive a oportunidade de conversar sobre a atividade de ombudsman com alunos dos cursos de Comunicação Social da FIC e da Fanor. Na pauta, temas como os 10 anos do cargo de ombudsman no O Povo, regulamentação da profissão de jornalista e até comunicação corporativa.?"

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