Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Roberto Maciel

Por lgarcia em 27/05/2003 na edição 226

O POVO

"O oitavo mandamento", copyright O Povo, 25/5/03

"A Santa Casa de Misericórdia de Sobral é um hospital filantrópico vinculado à Igreja Católica. A instituição, que ontem completou 78 anos, tem inestimáveis serviços prestados à população do Ceará, sobretudo à da região Norte. Mas, apesar do relevo social, foi colocada nas últimas semanas no centro de uma tragédia: a da crise de credibilidade. E a imprensa contribuiu nisso com uma sucessão de erros ? de origem ainda não definida ? que pôs em risco, principalmente e mais uma vez, a saúde pública. No último dia 15, baseado em nota assinada por médicos da Santa Casa, o jornal ?O Estado? informou que 236 pessoas haviam morrido de janeiro a abril por carência de UTIs. No dia seguinte, o ?Diário do Nordeste? estampou o caso em sua manchete principal. O Povo não o abordou.

Ainda no dia 16, questionei a Redação sobre a omissão. Escrevi no comentário interno que o jornal deveria estar atento ao problema, já que a crise das UTIs foi levantada pelo O Povo e que a mobilização para atenuá-la derivou dessa cobertura. Destaquei, porém, que em temas assim é necessária extrema cautela, considerando a possibilidade de haver interesses políticos escamoteados sob a parte visível do problema. Por fim, observei: ?Dos médicos que a assinam (a nota), todos são chefes na Santa Casa. É de se desconfiar, então, que não seja exatamente uma ‘denúncia’ ‘.

No mesmo dia, a jornalista Fátima Sudário, editora-chefe do O Povo, me enviou e-mail com esclarecimentos. Ela explicou que a Redação sabia da nota, mas optara pela precaução. Segundo Fátima, o procedimento se justificava pelas dificuldades de se conferir os altos números apresentados ? não se conseguiu ouvir nenhum dos que subscreviam a nota ? e, também, pelas ditas questões políticas que poderiam mover o caso. Decisão correta, afirme-se. Viu-se depois uma série de incongruências ? até a de que os médicos não haviam escrito a nota e nem sabiam de quem era a autoria, conforme revelou O Povo terça-feira. Na edição seguinte, o esclarecimento final e estarrecedor: os números eram fraudados, de acordo com auditoria da Secretaria da Saúde de Sobral.

É preciso agora que a sociedade tenha respondidas pelo menos quatro perguntas, todas listadas pelo O Povo na capa de quarta-feira e internamente na edição seguinte:

– Quem redigiu a nota?

– Quem fez o levantamento das mortes?

– Onde está a relação nominal dos mortos?

– Por que a nota só chegou à Secretaria da Saúde do Estado após sair na imprensa?

Enquanto não forem esclarecidas as dúvidas, restará a impressão que alguém na Santa Casa de Misericórdia de Sobral, além de desprezar as leis dos homens, anda descumprindo o oitavo mandamento da lei de Deus: ?Não levantar falso testemunho?. Melhor: ?não mentir?. E que parte da imprensa, por pressa ou outra razão ignorada, tratou a informação com negligência e ajudou a mentira a prosperar.

Condenados, mas sem chance de defesa

Domingo passado, a Coluna Concidadania, assinada pelo editor-sênior do O Povo, Valdemar Menezes, comparou funcionários do Departamento de Edificações, Rodovias e Transportes (Dert) a carrascos nazistas. Acusação grave. Sob o título ?Campo de extermínio?, estava escrito: ?(…) instalaram um campo de extermínio, uma espécie de Auschwitz em pleno sertão do Ceará. Ao invés de judeus, as vítimas são jumentos (…). O know how, porém, é o mesmo dos nazistas, só que com mais requintes de crueldade. Os bichos estão sendo enterrados vivos, no município de Quixeramobim?. Mais: atribuía ao engenheiro Ademir Monteiro, chefe do Dert naquela cidade, o comando da ação, ?um arremedo da ‘Solução Final’ que Himmler articulou para os judeus?. Nenhuma palavra dele ou de representantes do órgão foi ouvida ? não lhe foi dada, portanto, a justa e necessária oportunidade de defesa. A nota não informava quais eram suas fontes, o que é legítimo, mas adiantava que os advogados Geuza Leitão, presidente da União Internacional Protetora dos Animais (Uipa), e Arimá Rocha, da Comissão de Meio Ambiente da OAB, tentariam enquadrar criminalmente os que teriam matado ?mais de quatro mil jegues? desde janeiro de 2002.

Segunda-feira, o superintendente adjunto do Dert, Guaracy Aguiar, enviou-me e-mail negando o crime. Ele reclamou que o colunista, ?ferindo os princípios que norteiam o bom jornalismo e normas do próprio jornal (…), tomou como verdadeira a versão da dra. Geuza Leitão, sem apurar a veracidade da mesma ou ouvir a versão do Dert ou do engenheiro citado?, e destacou que ?por maior que seja a credibilidade da dra. Geuza, ela não foi testemunha do fato narrado, tendo recebido informação de terceiros que poderiam ser verídicas ou não?. Além disso, apontou as referências ao nazismo, ?além de despropositadas?, como ?extremamente agressivas e ofensivas ao engenheiro chefe do Distrito Operacional de Quixeramobim?. Queixas de igual pertinência. Segundo Guaracy, os animais são apreendidos perambulando nas estradas e só os velhos e doentes são sacrificados. Os demais, afirmou, são mantidos pelo Dert, alimentados e medicados.

Não pude conferir a autenticidade de uma ou outra versão, mas repassei a mensagem a Valdemar Menezes no mesmo dia. Em resposta a Guaracy Aguiar, já na noite de segunda, o jornalista não reconheceu a falha de apuração ? não ter procurado ouvir todas as versões ? e disse que havia de concreto a representação da OAB e da Uipa. Era outro equívoco: na quarta-feira, uma matéria na editoria Ceará viria a informar que as duas entidades ainda não haviam encaminhado o caso à Procuradoria Geral da Justiça. Na sexta-feira, o Editorial do O Povo retomou o assunto, em tom bem mais ponderado, mostrando as duas versões e cobrando soluções. ?Evidentemente, enquanto a Justiça não se pronunciar sobre o caso estaremos apenas diante de uma acusação?, admitiu, tardiamente, o Editorial.

Ficaram, no entanto, as marcas de dois erros em relação à práxis jornalística: fez-se um julgamento precipitado e indevido e negou-se aos acusados o direito do contraditório. Quanto à comparação de servidores do Dert a servidores do nazismo, esta fabulosa e flagrante infelicidade não tem definição."

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