Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Roberto Maciel

Por lgarcia em 20/05/2003 na edição 225

O POVO

"Um erro grave e uma justificativa vazia", copyright O Povo, 18/5/03

"Um dos procedimentos mais rigorosos da Redação do O Povo é cuidar para não expor em matérias os nomes de suspeitos de algum delito sem que antes seja estabelecida prova contra eles. Isso se aplica também a episódios em que possa haver constrangimentos, como os recentes casos da senhora que foi presa porque o filho não havia pago a pensão alimentícia da neta e do pai submetido ao mesmo problema. O motivo maior é evitar danos à imagem e à honra das pessoas. Essa preocupação está inserida em todos os normativos que regem o jornalismo, entre códigos e cartas de princípios. Mesmo com tantos cuidados, no entanto, há deslizes que se registram eventualmente. É o que veremos.

Na edição de 19 de abril passado, sob o título ?Procurador é assassinado durante assalto no trânsito?, O Povo informou que ?a polícia prendeu dois suspeitos que estavam armados? ? os nomes dos detidos foram publicados na íntegra e não os reproduziremos por razões evidentes. Usaremos apenas as iniciais, o que deveria ter sido feito originalmente. Continuemos, então, com o trecho da matéria: ?J.L.A.S e V.A.S estão presos no 2? Distrito, na Aldeota, por terem sido autuados em flagrante por crime de extorsão. J.L. e V.A., também suspeitos de terem matado o procurador (nota: Luiz Albuquerque Souza, 72, advogado e procurador aposentado do Dert), haviam extorquido o comerciante de iniciais C.P.X.B., de quem roubaram o Suzuki Vitara de placas (…). O veículo foi abandonado na rua Joaquim Lima, no Papicu, onde a dupla foi presa. A Polícia espera que os dois possam ser reconhecidos por testemunhas como sendo responsáveis pela morte do procurador?.

Erramos feio. A constatação do erro era imediata ? a identificação dos suspeitos pelos nomes ?, mas a confirmação só veio terça-feira passada (13), com a notícia de que havia sido preso no bairro Lagoa Redonda um terceiro homem, sem relação com os dois outros, que confessou participação no crime. Apontei a falha no comentário interno de terça-feira. Na quarta, O Povo tornou a situação mais constrangedora: publicou matéria intitulada ?Dionísio Torres ? Vítimas reconhecem dupla por assaltos? com a foto dos dois homens inicialmente tidos como suspeitos. O texto referia-se a roubos dos quais eles eram acusados, na mesma área. Soou como uma justificativa para a divulgação indevida de seus nomes no caso do procurador. Só que eram casos diferentes. Escrevi, no comentário da quarta-feira, que ?os dois poderiam ter cometido mil assaltos e até os confessado?, mas, na condição de suspeitos da morte de Luiz Albuquerque Souza, jamais deveriam ter a identidade revelada pelo jornal. Não havia sequer indícios contra eles. Só uma suspeita infundada da Polícia.

Um factóide goela abaixo

O dicionário Aurélio registra assim o significado da palavra ?factóide?: ?Fato, verdadeiro ou não, divulgado com sensacionalismo, no propósito deliberado de gerar impacto diante da opinião pública e influenciá-la?. Frente a tão clara definição, cabe à imprensa acatá-lo ou rejeitá-lo. O Povo, na última quinta-feira, trouxe na página 4 a seguinte manchete ?Ciência e tecnologia ? Ceará pode ter pólo de microeletrônica?. A matéria informava que o ministro Roberto Amaral, da Ciência e Tecnologia, havia anunciado em um evento ?a idéia de idéia de construir no Ceará um pólo de desenvolvimento de microtecnologia e hardware?. Nada além de um factóide. Pelo menos por enquanto, considerando o que Amaral afirmou e foi reproduzido: ?O ministro, que é cearense, disse que ainda não tem nada definido e que a implantação do pólo dependerá de projetos?. O Povo, mesmo com essa cristalina admissão do caráter volátil da proposta, deu a ela um destaque imerecido. Engoliu e, pior, levou ao leitor o factóide ministerial.

A lista da previdência

Segundo o Ministério da Previdência Social, O Povo está entre as 10 empresas do Ceará com maiores dívidas com o INSS. A lista foi abordada esta semana pelo ?Diário do Nordeste? e pelo O Povo, que, com naturalidade, levou-a ao Editorial. Houve transparência na decisão do jornal de abordar o fato? Sim, é incontestável ? a empresa diz que os valores cobrados são alvo de ação na Justiça e questiona a forma como o governo federal tornou públicas as informações. No entanto, o assunto se impõe para agora como um desafio. E que deve ser encarado com serenidade. Primeiro, porque não pode simplesmente ser abandonado pela cobertura da imprensa ? ao contrário, exige aprofundamento. Segundo, porque sugere ações que favoreçam o debate público, em várias instâncias da sociedade. E, por fim, porque não se trata só do O Povo, não só de 13.476 empresas cearenses, não só de 176 mil empresas de todo o País inseridas na lista do INSS. O tema que se inclui na pauta do emprego, do interesse da Nação.

Decifra-me ou devoro-te

Jornalismo pressupõe clareza. No entanto, nada mais enigmático do que algumas notas publicadas em colunas sociais. Exemplo disso foi ?presenteado? ao leitor do O Povo na coluna Reportagem, do jornalista Lúcio Brasileiro, sexta-feira passada: ?Nas Palmas Pontuais, Roberto Farias pretende Teresa Ximenes, filha do campeão da contagem, Virgílio Távora, entregando troféu a Lúcio Alcântara, segundo lugar, líder dos vivos?. Uma esfinge de papel."

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