Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Roberto Maciel

Por lgarcia em 22/07/2003 na edição 234

O POVO

"Lixo e futebol no mesmo nível", copyright O Povo, 20/7/03

"Na querela jurídica em torno da tarifa do lixo, chegou-se a um ponto que, se ainda não é definitivo, é pelo menos o fato que nos próximos dias repercutirá no bolso dos fortalezenses. Terça-feira última, o juiz Luiz Alves Leite, da 4? Vara da Fazenda Pública, revogou a liminar que havia concedido suspendendo a cobrança. Inegável o peso da decisão, sobretudo por três motivos: 1) Os custos no orçamento dos cidadãos; 2) O juiz reviu uma determinação que ele mesmo havia expedido; 3) Os desdobramentos que terá nos confrontos jurídicos e políticos entre oposição e governo municipal. Para O Povo, especificamente, há um quarto ponto: a cobertura do assunto até então se revestia de uma exemplaridade incontestável. Somados os quatro fatores, o que se poderia imaginar é que a revogação da liminar seria a manchete natural do jornal de quarta-feira. Não foi. Optou-se pela matéria sobre o indiciamento de suspeitos de irregularidades na gestão do estádio Castelão e do desvio de dinheiro das bilheterias.

Enquanto O Povo não deu o devido tratamento à questão do lixo, contrariando a postura que assumira diante do caso, com a qual havia se mostrado antes um atento e equilibrado fiscal do poder público, os outros dois jornais locais a estamparam em suas manchetes principais. Soou desafinada, assim, a decisão de dar ao assunto função secundária na primeira página. Considere-se que a manchete é o maior apelo de venda do jornal e que, para defini-la, avalia-se a interface de alguns pressupostos ? dos quais a relevância da notícia para a sociedade tende a ser o mais expressivo. Imagine-se o leitor, então, diante das atribuições de discutir, interferir e escolher a manchete do jornal entre a tarifa do lixo, tema que interessa a todos os moradores desta cidade e que representa um gasto a mais no orçamento de famílias e empresas, e o indiciamento pela Polícia de suspeitos de fraudar a renda do Castelão. Haveria vacilação?

Em se plantando tudo dá

Pode parecer exagero legalista da minha parte, mas recorro outra vez ao Guia de Redação e Estilo do O Povo para justificar uma análise. Antes, comparemos duas notas publicadas no início desta semana em diferentes colunas do O Povo. Domingo, sob o título ?Tititi?, veiculou-se o seguinte na coluna Sônia Pinheiro: ?Está em todas as boquitas: parte da bancada federal cearense que compõe a base de sustentação do governo Lula prepara abaixo-assinado à direção nacional do PT, pedindo que encaminhe documento silicitando (sic) que o presidente da sigla no CE, edil Airton Cirilo, pare de voar tanto(!) ao DF para assistir audiências requisitadas pelos parlamentares em questão.

É que, segundo as más-línguas (péssimas, aliás), Cirilo andou dando uma de ?penetra? em encontro agendado por um deputado com o ministro Luís Gushinken, deixando o requerente constrangido, já que não quis ser grosseiro, vetando a presença do vereador no meeting. Daí que a idéia é persuadir Airton a pintar apenas nas audiências marcadas por ele e que este se dedique mais ao seu mandato na CMF…?.

No dia seguinte, a coluna Vertical, de modo menos detalhado mas igualmente ácido, publicou uma nota intitulada ?Ponte aérea?. Eis o texto: ?Colegas de José Airton (PT) lamentam que ele, no primeiro semestre de Câmara Municipal de Fortaleza, apareça entre os que mais faltaram ao trabalho. A mesa diretora da Casa não informa se houve descontos. Aliás, Airton vive na ponte aérea Fortaleza-Brasília?. Em ambos os casos, um alvo só ? o vereador petista José Airton Cirilo ? e a mais absoluta imprecisão sobre quem reclamava dele. Mais ainda: nenhuma das colunas se preocupou em ouvir o parlamentar sobre as acusações. Coincidência? É pouco provável. Mas também não se pode dizer que haja a participação dos colunistas em uma ação organizada para ?fritar? José Airton. Para isso, há apenas uma designação no jargão jornalístico: notícia plantada.

É aí que entra o já mencionado Guia de Redação e Estilo. Estão nele, em um só verbete, definição e procedimento diante de casos assim. ?Notícia plantada: Informação dada para atingir certos objetivos com sua divulgação em veículo de comunicação. Cada jornalista deve estar atento às informações que lhes chegam para que não sejam utilizadas em nome de privilégios de pessoas, empresas ou instituições. O cruzamento de informações é a prática sugerida para evitar esse tipo de notícia?. Por fim, eis o que sintetizam os itens ?Cruzar informações?, ?Denúncia/Acusação? e ?Ouvir o outro lado?: Notícias improcedentes podem comprometer ou até destruir a reputação das pessoas envolvidas. Em alguns casos, o jornal deve recusar-se a qualquer divulgação, estando convencido de que não há fundamento na informação ou que ela visa a alcançar certos objetivos. O remédio é simples: ouvir mais de uma fonte, buscar o contraditório, conferir se são verdadeiros os fatos ou legítimos os propósitos de quem os repassa.

Os obstáculos do pensar

Opiniões ? repito o que já escrevi nesta coluna ? são patrimônios pessoais e intransferíveis. Em respeito a isso, portanto, o ombudsman do O Povo não deve se pronunciar sobre elas. Mas há deformações de fatos que impõem reflexão. É o caso do artigo ?Os obstáculos do Ceará?, assinado pelo professor de Ciências Políticas Pedro Henrique Antero e publicado em Opinião, quinta-feira. Antero escreveu o seguinte: ?Até o início da década de 80, o Ceará era um dos maiores produtores de algodão do Brasil (…). Tudo acabou, quando dois males cresceram em nosso Estado: a corrupção e o esquerdismo demagógico?. Observei à Redação que tal consideração não encontra respaldo nos livros da História, da Agricultura ou da Economia do Estado. O que perpassou todo o artigo, a partir do trecho mencionado, nada mais foi do que a pura desinformação. Não se trata, pois, de opinião, mas de um preconceito caquético e, imagino, de um desconhecimento estróina. Nesses casos, mesmo sendo o professor um articulista fixo do jornal, caberia ao O Povo recusar-lhe o texto. Seria uma prova mínima da máxima atenção para com o leitor."

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