Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Roberto Maciel

Por lgarcia em 29/01/2003 na edição 209

O POVO

"Uma cadela incomoda muita gente", copyright O Povo, 26/1/03

"Um texto da repórter Ethel de Paula publicado no último dia 16 (sexta-feira), na página 4 da editoria Fortaleza, foi o estopim de uma série de reações de leitores. Intitulado ?Capitu dos olhos da Bia?, tratava do sumiço de uma cadela pertencente à jornalista Beatriz Furtado, integrante do Conselho Consultivo de Leitores do Povo, e continha impressões da autora sobre ter um animal de estimação. Breves exemplos da indignação:

– ?Não pude acreditar que um jornal com a qualidade d‘O Povo, com um corpo de jornalistas realmente competente, muitos deles meus colegas ainda no tempo de faculdade, abra espaço para matérias (?) do teor de Capitu dos olhos da Bia’. Tal atitude nos faz questionar se esse é realmente o jornalismo que merecemos e precisamos? – Wellington Júnior, professor do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará.

– ?Nem dá para aceitar que o jornal tenha gasto tanto espaço com tal assunto, considerando que existem tantos assuntos importantes a serem publicados. Está havendo uma inversão de valores? Onde vocês vão parar? Depois, entendi melhor, a tal Bia é Beatriz Furtado, jornalista. A autora da matéria, Ethel de Paula, amiga da citada e notória defensora dos animais. Mas, isso justifica? E o pior é que durante a semana, não apareceu nenhuma carta de leitor indignado. No fim de semana, o ombudsman não se dignou fazer uma auto-crítica (sic) do jornal. Será que só eu fiquei indignada? Acabo de renovar a assinatura do jornal e fico pensando se não fiz bobagem…’ – Virgínia Hiromi Fukuda Viana.

– ?Tive um espanto ao ver uma matéria de tão pequena importância para a vida da população como a publicada pelo O Povo no dia 16/01/03, na página 4 (…). A quem interessa uma matéria enorme dessas na página 4 do Povo? (…) Será que foi preciso muito tempo para elaborar a pauta; a equipe fotográfica foi acionada e houve discussão para saber se a matéria teria chamada de capa ou não? Onde vamos chegar com um jornalismo desse nível? Posso eu, cidadão comum (como a jornalista) e leitor do jornal, pôr uma pequena nota mostrando minha indignação por não ter dinheiro para ir ao Festival Vida e Arte? Se for possível, queria saber como fazê-lo? – Daniel Sampaio Sousa, estudante.

?Comovente, mas será que deveria ocupar aquele espaço e que precisaríamos ser informados daquela história toda que envolve em grande parte o relato da aquisição de um cachorro pela Ethel de Paula e seus traumas de infância? Aquele espaço todo não teria sido dado porque a Beatriz é amiga dos repórteres? Aliás é hábito do pessoal do caderno de cultura dar publicidade a suas experiências pessoais e aos feitos de seus amigos. Não vemos isso em jornal nenhum do mundo? – Ana Rita Fonteles, jornalista.

A repórter pediu para se pronunciar sobre o episódio. Segundo ela, classifica-se como crônica o que foi publicado – o que, acredita, a libera para flanar entre palavras e idéias. Ethel escreveu ao ombudsman um texto do qual excertamos o seguinte ponto de vista: ?Exercitar a veia cronista significa, antes de tudo, gozar de plena liberdade em relação ao tema e estilo adotados. Assim, quem escreve crônicas pode se deixar inspirar tanto pela árvore de seu quintal quanto pelo cinismo dos governantes do país. A reflexão gerada em torno do assunto é que é o pulo do gato. No meu caso, perdoem-me os pragmáticos já endurecidos, me comovi com a história da Capitu fujona, aproveitando para escrever sobre o quanto nos humanizamos em contato com os animais. A crônica está aí para tratar de subjetividades, compartilhar visões de mundo, lançar um olhar mais humanizado sobre fatos corriqueiros – graves ou banais. Penso que esse não é um jornalismo menos sério do que o investigativo. Apenas diferente. Mas tão comprometido com a afirmação da vida quanto?.

Há pelo menos dois equívocos da repórter. Primeiro: jornalismo não é casa de amigos. Segundo: mesmo uma crônica deve ser submetida a normas para ser publicada. E o texto, de fato, não se encaixa em procedimentos determinados pela Redação. Sequer está no caderno adequado para abrigá-lo, que seria o Vida & Arte. Apesar de não ferir o Código de Ética dos Jornalistas ou da empresa, a crônica tem conflitos graves com uma série de pontos da Carta de Princípios do O Povo. De início, o espaço do jornal foi usado com objetivo claramente pessoal – o benefício de uma amiga da repórter. Depois, ofereceu gratuitamente, sem nenhuma justificativa, um serviço normalmente comercializado. Não bastasse, um dos telefones da Redação foi incluído pela editora como número de contato para quem encontrasse a cadela desaparecida. Está claro não só o erro da repórter, mas também o da responsável pela página. A título de esclarecimento: o ombudsman esteve afastado do jornal entre 15 e 23 deste mês, daí não ter abordado o assunto na coluna do dia 19. Fica a apreciação, no entanto, ainda que tardia.

Festival

Esta semana, alguns leitores enviaram mensagens questionando o Festival Vida & Arte, que marcou, entre os dias 16 e 19 últimos, as comemorações dos 75 anos do O Povo. Uma parte reclamava da ampla cobertura que o jornal deu ao evento. Outra referira-se ao que classificou como ?confusão? entre notícia e ?interesses comerciais explícitos do jornal?. Um ou outro leitor demonstrou ter sido incomodado por espasmos de auto-elogio do jornal. Houve, sim, uma overdose de informações sobre o Festival, mas isso não desqualifica a pauta estabelecida para o evento. Há três pontos a serem destacados: 1) O evento celebrou uma data importante para a empresa. É legítimo; 2) O Povo jamais negou ou tentou escamotear a relação comercial entre o Festival Vida & Arte e seus patrocinadores. Por ser uma empresa comercial, essa relação também é legítima e foi tratada com transparência; 3) O Festival reuniu nomes importantes da cultura, o que, por si, é naturalmente noticiável.

Quem é o culpado?

Na coluna Política de sexta-feira (24), o jornalista Fábio Campos apontou como ?problemática? a posição de Fortaleza no ranking intitulado Índice de Exclusão Social (IES), elaborado por professores da Universidade de Campinas. O estudo avalia indicadores de pobreza, juventude, alfabetização, e emprego de 5.507 municípios brasileiros e mostra a capital cearense como 644? colocada.

Quem é o culpado? ? 2

O texto, apesar da boa argumentação, omite que Fortaleza reflete políticas do Governo do Estado e da União. Deixa, assim, a impressão equivocada de que a Prefeitura responde sozinha pela ?situação problemática?. São evidentes os problemas da atual gestão municipal, da falta de transparência a denúncias de corrupção, mas os governos estadual e federal também têm sua cota na posição ruim. Isso a coluna deixou em branco."

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