Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Roberto Maciel

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

O POVO

"A pressa é inimiga da precisão", copyright O Povo, 3/8/03

"Sob o título ?Prostituição – Ceará é a maior porta de saída do tráfico e exploração infantil?, O Povo publicou na página 2 de terça-feira matéria dando conta de que uma pesquisa da Organização dos Estados Americanos (OEA) indicava que 50 entre 241 rotas usadas por traficantes de mulheres e de adolescentes do Brasil para o exterior partiam do Ceará. Isso faria do Estado líder desse ranking pervertido. A matéria era assinada por Rodrigo F. Couto, da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). Fora a existência da pesquisa, que havia sido divulgada, na verdade, em fevereiro passado, as informações eram falsas. Não há tal ranking, assim como a atribuição da autoria era equivocada e a ag&eecirc;ncia não produzira a matéria – limitara-se, sim, a distribuir para seu público uma informação veiculada dias antes no jornal ?Diário de Pernambuco?. O Povo, talvez motivado pelo conteúdo aparentemente bombástico do texto, apressou-se em dar a notícia sem a devida confirmação.

Ainda na terça, os coordenadores locais do estudo negaram qualquer fundo verídico na história e indicaram um terceiro elemento: a agência de notícias denominada ?Nordeste?. Teria sido ela a fonte do ?Diário de Pernambuco?. A mesma agência protagonizara outros episódios de distorção. Em 2002, por exemplo, atribuiu ao ex-governador do Ceará Tasso Jereissati, então candidato ao Senado, críticas à atriz Patrícia Pillar, mulher do presidenciável e hoje ministro Ciro Gomes. Na seqüência, informou que Patrícia Pillar havia reagido e que se recusava a qualquer contato com Tasso. A rusga foi negada por ambos.

Em situações assim, em que há informações de caráter duvidoso, deve-se conferi-las com rigor. Essa prudência foi a opção do O Povo quando foram ?denunciadas? 239 mortes por falta de UTI na Santa Casa de Sobral. O jornal sabia da nota em que os médicos do hospital acusavam a crise, mas preferiu não levá-la a público – ao contrário dos outros jornais locais – até cotejar os dados. Agiu certo. O procedimento, no entanto, não serviu para balizar as ações em relação à pesquisa sobre tráfico de gente. O Povo tropeçou na pressa.

Barulho lá, silêncio cá

Exercício de memorização: conte nos dedos, leitor, as considerações contrárias ao Fortal, feitas por quem mora nas imediações da avenida Beira Mar, publicadas no O Povo nos quatro dias da micareta. E sobre o Halleluya, espécie de contraponto católico ao Fortal realizado no Parque do Cocó, mas igualmente barulhento e problemático? Uma, duas? Se tanto, será muito. O mesmo vale para o ?Diário do Nordeste?. Causas de transtornos vários, do cerceamento do prosaico direito de poder sair de casa e entrar na hora em que bem se entende à metamorfose de ruas em banheiros públicos, as festas encontraram na imprensa uma parceria plácida e, por isso, ideal para seus promotores. Os eventos têm suas vantagens? Sim, têm: o Fortal atrai gente de todo o Brasil, movimenta o turismo, proporciona dinheiro a atividades que incluem desde bem articulados empresários a ágeis camelôs. Já Halleluya é um ato religioso do Movimento Carismático que deve ser respeitado. Isso tudo precisa ser mostrado e valorizado. Mas também há o lado ruim. Primeiro, a privatização do espaço e de serviços públicos. Depois, o estrepitoso descaso com as leis que coíbem a poluição sonora. Há quem fale ainda – no caso, os críticos mais ferozes do Fortal – de bebedeiras, drogas, prostituição, acidentes de trânsito, brigas e assaltos. Mostrar as muitas faces da micareta e do Halleluya seria, no mínimo, atenção à eqüidistância e à pluralidade.

** Que se faça justiça. No O Povo, a coluna Política assinada pelo jornalista Fábio Campos deu-se a argumentar sobre os custos que os eventos impõem à cidade. Essa postura rendeu, ainda, cartas de leitores em apoio ao colunista. E por aí o jornal ficou. A cobertura da micareta pela Editoria Fortaleza trouxe, entre sexta-feira, 25, e segunda, 28, só uma – isso mesmo, uma – nota sobre o incômodo pespegado aos residentes na Beira Mar. Reproduzo-a: ?Transtornos, sim – O transtorno causado aos moradores da avenida Beira Mar durante a passagem dos blocos foi sentido ontem por quem precisou utilizar veículos para chegar em casa. Vários carros tiveram de cruzar a via entre os foliões do Babamania. A solução da direção do bloco foi afastar os foliões e pedir aos motoristas para dirigirem com cuidado?. O discreto texto saiu na sexta, ao pé da página 5, ao lado da foto de um carro disputando espaço com pessoas. Fora isso, só balanços de ocorrências policiais na sexta, sábado e segunda-feira. Quanto à folia carismática, nenhuma voz contrária. Na semana passada, algumas cartas de leitores sobre o assunto foram publicadas. O ?Diário? nem a isso chegou. Duas matérias daquele jornal, ambas segunda-feira, resumem um Fortal azul com bolinhas brancas: ?Organizado e tranqüilo – Foliões fazem avaliação positiva?, texto que não citou uma só estatística da Polícia ou queixa de morador das vizinhanças da micareta; e ?Fortal/2003 – Ficou a certeza de que foi bom demais?, frase atribuída ao cantor Bell Marques, do conjunto Chiclete com Banana.

** Para quaisquer empresas, fazer negócios é natural e legítimo. Das transações comerciais, é evidente, se tiram a indispensável sobrevivência e os necessários lucros. A área de comunicação não foge à regra, mas com especiais ressalvas. Tanto O Povo quanto o Sistema Verdes Mares investiram no Fortal. A Maxi Rádio, uma das emissoras FM do Sistema O Povo, era a ?rádio oficial do Fortal?. Já as rádios, TVs e o jornal ?Diário do Nordeste? do Grupo Edson Queiroz estavam maciçamente envolvidas. O mesmo se deu com a TV Jangadeiro, que transmitiu ao vivo a sempre igual folia dos blocos, e com a União, que fez flashes. Essa participação, contudo, não pode ser um bloqueio para análises desapaixonadas, imparciais. De outra forma, perde-se a legitimidade. Investimentos ou parcerias não devem encurralar o jornalismo. Negócios não podem negar ao público os direitos de se expressar e de ser bem informado. Mas, pelo que (não) se viu, o barulho dos trios elétricos abafou a comunicação isenta e cidadã."

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