Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Roberto Maciel

Por lgarcia em 19/08/2003 na edição 238

O POVO

"Temos os efeitos. E as causas?", copyright O Povo, 17/8/03

"Sábado, dia 9, O Povo publicou na Editoria Fortaleza a seguinte manchete: ?Boletim epidemiológico ? Mais uma morte e 845 novos casos de dengue? (página 3). Na matéria, um desfilar de números. E, entre as tantas estatísticas apresentadas, uma surpreendente constatação: a dengue no Ceará saltou de uma média semanal de 350 novos registros para 845. Isso mesmo. Um avanço de mais de 141% na quantidade de ocorrências ? percentual que não foi calculado por quem escreveu o texto. O jornal ficou limitado à frieza do boletim oficial, amarrado ao preto-no-branco contido em um fax. Não atentou para o fato de que o crescimento ali verificado era conseqüência de algo. E, por isso mesmo, não procurou conferir quais as razões da explosão de casos, não buscou explicações das administrações municipais, estadual e federal. É de se estranhar um crescimento de 141%, mas O Povo não estranhou. Por fim, deixou de levar ao leitor ? e, por extensão, à sociedade ? uma luz sobre a imensa fragilidade da população perante um mosquito.

Agressão às escondidas

O Povo publica semanalmente uma coluna intitulada ?Abidoral Possidônio?, no caderno Buchicho de domingo. O conteúdo visa a programação de rádios e televisões locais, enfocando-as e aos profissionais que a fazem com um misto de ironia, humor e crítica. A proposta é boa, devemos reconhecer ? não fosse por um desvio grave: a coluna não é assinada. E alguns textos são de incontestável acidez, descambando em certos casos para o mau gosto. Exemplo é a nota que recebeu o título de ?Bloco Mr. Babão?, inserida na edição da semana passada, para a qual uma leitora me chamou a atenção. Eis o teor: Triste o texto que chamou para matéria sobre o último dia do Fortal. A bela Cíntia Lima, no Jornal do 10, em tom ufanista, bradava: ?Mais um Fortal que vai ficar para a história! Quem escreveu tal absurdo deve ter estagiado na extinta Tribuna, onde o dono tinha a sua foto publicada todo dia nas páginas do jornal. Menos aos domingos, quando o matutino não circulava.

É no mínimo deselegante o tratamento dado à instituição que foi o jornal Tribuna do Ceará, assim como ao seu proprietário, o ex-banqueiro José Afonso Sancho. A mesmíssima consideração pode-se fazer em relação à forma como foram tratados os jornalistas do Canal 10. E igualmente incômoda é a forma desqualificante como a coluna ?Abidoral Possidônio? classificou o trabalho de jornalistas que atuaram na extinta Tribuna ? entre os quais profissionais que estão hoje no O Povo, como os diretores de Redação Arlen Medina e Carlos Ely, os editores-executivos Gualter George e Demitri Túlio, os editores-adjuntos Cláudio Ribeiro e Lúcia Galvão, o editor de Fotografia Alcides Freire, o colunista Jocélio Leal, as repórteres Ethel de Paula e Moema Soares, o ilustrador Carlus Campus e este ombudsman. Notas assim não têm vinculação nenhuma com o bom jornalismo perseguido pelo O Povo, assim como está completamente dissociada do que defende o jornal a publicação de textos assinados sob pseudônimos.

Espelho, espelho meu…

O título desta nota poderia ser ?Ode ao auto-elogio?. Ou ?Receita de Narciso?. Afinal, o que a vaidade tem a ver com o jornalismo? Mas, quem vem se dedicando a acompanhar este mês as colunas ?Reportagem? e ?Acontecendo?, assinadas por Lúcio Brasileiro ? a primeira de segunda a sábado; a outra aos domingos ?, deve ter se questionado sobre essa relação pouco conveniente e de quase nenhum interesse para o leitor. O colunista tornou-se o principal personagem de seus escritos. Tornou-se novamente, diga-se, observando que a cada férias que goza dá-se a contar casos de sua vida pessoal em colunas redigidas com antecipação. No dia 9 passado, por exemplo, elencando atributos e qualidades, apontou um rol de atividades que poderia exercer se não fosse jornalista: professor de Português ou de Matemática; gerente de hotel ou de cassino; relações públicas de uma grande organização; dono de galeria de arte; comentarista esportivo; ?diretor de retaguarda? de grande empresário crescente; e ?bom arquiteto?. Pouco antes, no dia 5, uma auto-entrevista era oferecida aos leitores.

Mas, surpreendente mesmo, foi o conteúdo da coluna publicada no dia 8. Está ali o exemplo pronto e acabado do que não pode nem deve fazer o jornalista. Do que deve evitar o profissional nas relações que tem com o poder. Peço licença ao leitor para reproduzir uma lista de solicitações, entre sinecuras e graciosidades, que o colunista admite ter apresentado ao longo de anos.

Governadores & Pedidos: A Parsifal Barroso, meu primeiro emprego, secretário da Comissão Dinamizadora do Porto do Mucuripe.

A Virgílio Távora, quando ministro, e através de dona Luíza, colocação pra meu pai nos Correios. Deferido.

A Virgílio Távora, governador, criação do Departamento de Turismo, que saiu Divisão, e hoje é Secretaria.

A César Cals, uma diretoria para membro de tradicional família política, que se atritara nas Docas. Atendido.

A Gonzaga Mota, que olhasse pra Orós, onde Elizeu Batista enfrentava algodoeiras dificuldades. Não atendido.

A Tasso Jereissati, Medalha da Abolição para figura maior da imprensa cearense, estranhamente não atendido.

A Ciro Gomes, honraria maior do Estado, para Manoel Dias Branco. Completamente atendido.

E agora, que vou pedir a Lúcio Alcântara? Nada, a não ser o que ele já me prometeu, quando anunciei, em primeira mão, aqui em O POVO, sua candidatura ao Senado, a volta do trem.?

Não se condena aqui o colunismo social, e o que escrevo a seguir é mera repetição do que tenho defendido. Há uma parcela do público interessada em tendências de comportamento, detalhes de bastidores, avaliações que só atentos observadores do que se passa no dito mundanismo são capazes de captar. No entanto, é necessário considerar dois pontos: 1) O anacronismo não cabe mais nos jornais. Existe a necessidade de se dinamizar as edições, tornando conteúdos e formas os mais atraentes possíveis; 2) Se usar de influência para conseguir benefícios já é criticável sob qualquer aspecto, revelar isso de modo tão despudorado chega a ser ofensivo à empresa, à categoria profissional a que se pertence e, principalmente, ao leitor que supõe haver o necessário e recomendável distanciamento entre jornalistas e governantes."

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