Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Roberto Maciel

Por lgarcia em 05/02/2003 na edição 210

O POVO

“Ano após ano, as mesmas tragédias”, copyright O Povo, 2/2/03

“A imprensa, em seu papel de refletir demandas da sociedade, depara-se não raro com a repetição de pautas. E ao leitor acaba restando aquela impressão: ?Acho que já vi esse filme?. Esta semana, O Povo trouxe matérias sobre a cada vez mais ameaçadora sombra de uma nova epidemia de dengue que paira sobre o Ceará. Dessa vez agravada pela forma hemorrágica da doença, conforme alerta do médico sanitarista Ricardo Pontes (edição de quinta-feira, 30). É um noticiário que se reproduz ano após ano, independente de quem esteja no poder. Da mesma forma podem ser tomadas matérias sobre prejuízos causados por chuvas. Ambos os casos são, em primeira análise, a sinalização da miséria, da ineficácia de políticas públicas e, tão incômodo quanto, da pouca capacidade de promover a mobilização da comunidade que parecem ter hoje os meios de comunicação.

Em 11 de novembro do ano passado – ainda na gestão FHC, portanto -, O Povo já trazia como manchete principal uma advertência do então ministro da Saúde, Barjas Negri: ?Ministro alerta – Brasil terá nova epidemia de dengue?. Entre uma e outra edição, passaram-se exatos 81 dias. O aviso estava dado. Mais um, aliás, considerando-se o histórico sobre a dengue. Nada, ou muito pouco, foi feito. Nesse cenário, a imprensa perdeu uma oportunidade ímpar de conferir o impacto das informações que processa para a sociedade, sua credibilidade e, como escrevi antes, seu poder de mobilização. Antes da era da TV, eram comuns grandes e bem-sucedidas campanhas viabilizadas pelo rádio e pelos jornais. Hoje, com todo o aparato a serviço da comunicação, não se consegue pressionar o poder público a tomar providências razoáveis, por exemplo, em relação à dengue. Nem sensibilizar a sociedade para o prosaico e saudável direito de se indignar.

Na contramão

Ainda no capítulo das tragédias, morreram até a tarde de sexta-feira mais duas vítimas do desastre com duas vans em Quixadá. Não obstante os muitos alertas dados pela imprensa desde quando se instalou o leva-e-traz de passageiros por topics e similares, nas estradas e em Fortaleza, nada foi feito pelas autoridades para prevenir acidentes como aquele. Pelo contrário, a disputa por votos nas eleições passadas acabou servindo de estímulo para uma atividade perigosa e clandestina. É certo que, paralelo a matérias veiculadas na imprensa, há um forte mas até agora frustrado lobby de empresas de ônibus regularizadas junto ao poder público, que se vêem prejudicadas pelos topiqueiros. Isso, no entanto, não tira a legitimidade das informações e análises que questionam o transporte dito ?alternativo?. O Povo, aliás, não tratou os topiqueiros como ?coitadinhos? nem os empresários como ?sacrificados?. Mostrou dois ângulos. Não julgou nem condenou.

Uma curva no meio do caminho

Um leitor, Herialdo Matos (que definiu-se como ?ex-assinante?), enviou um e-mail indignado no último dia 24. ?Toda a minha tribo (eu incluso) fez um pacto de greve geral em relação a O Povo enquanto seus colunistas insistirem em denominar a sede do Governo do Estado de ‘Palácio da Curva’…?, escreveu. Segunda-feira passada (27), a Coluna Política assinada por Arlen Medina repetiu a expressão. Na terça, na Coluna Política de Fábio Campos, o professor Diatahy Bezerra de Menezes considerou ?molecagem? o apelido dado ao Palácio de Iracema, onde agora funciona o gabinete do governador Lúcio Alcântara, entre outros argumentos. Fábio externou na mesma edição seu ponto de vista, classificando como inadequada a designação que está se popularizando. Quinta-feira (30), o publicitário Ricardo Alcântara, assessor especial do governador, teve publicado artigo na página de Opinião no qual observou que ?o Governo acolhe com naturalidade as críticas sobre a mudança de endereço? e que o ?Palácio? não passa do que é: ?Só o lugar onde o governador trabalha?. Não se pode, nesse caso, questionar análises pessoais de quem quer que seja. Mas também não é possível deixar de notar a ironia (não tão fina, alguns certamente dirão) e o ?molho? contidos na dita curva.

Joio e trigo

É atribuída ao jornalista norte-americano Charles Dana (1819-1879), editor do New York Sun, uma definição cortante: ?O jornalista separa o joio do trigo. E publica o joio?. O Povo cumpriu a máxima. Em matéria sobre o porta-aviões São Paulo, que esteve ancorado no Porto do Mucuripe, informamos segunda-feira que 20 mil pessoas haviam visitado a embarcação até domingo. Mas a matéria enfocou só o coro dos descontentes que não conseguiram ir a bordo. Nenhum dos 20 mil que puderam conhecer o São Paulo foi ouvido.

Dia de cão

Há discussões permanentes na imprensa sobre normas éticas. Quando se entra no campo da cobertura policial, esse debate tende a ser mais delicado. Na matéria ?Jurema – Assaltantes fazem 20 reféns e levam R$ 90,00 de mercadinho? (editoria Fortaleza, terça-feira, 29), O Povo informou que um rapaz foi preso como suspeito do crime e autuado em flagrante, sem, contudo, citar as razões disso. Não há referências a passagens pela polícia ou se ele foi reconhecido pelas vítimas. Se não havia provas ou testemunhos, deveria ter sido omitido o nome do rapaz e explicado isso aos leitores. Se havia, que fossem listados.”

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