Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Roberto Maciel

Por lgarcia em 19/02/2003 na edição 212

O POVO

"Crime na manchete", copyright O Povo, 16/2/03

"O assassinato de um flanelinha por um empresário, terça-feira passada, dia 11, levanta uma discussão sobre o aprofundamento da cobertura policial dos jornais. No dia seguinte ao crime, O Povo trouxe uma ampla matéria abordando o caso e a tornou sua manchete principal. Não sem razão, levando-se em conta a soma do fútil com o brutal que envolveu o crime. Mas o jornal mereceu questionamentos de leitores, alguns apontando a falta de informações que achavam importantes sobre a vítima, José Humberto Gomes da Silva – que também era vigilante, empregado em uma empresa de prestação de serviços -, como sua convivência com a família e vizinhos e quantos filhos tinha, e sobre o assassino, Paulo Expedito Rebouças, como se ele já estivera envolvido em outra ocorrência policial.

Apesar das lacunas, O Povo foi mais além do que o Diário do Nordeste na quarta-feira, ouvindo a viúva de José Humberto e testemunhas da barbaridade. O Diário limitou-se às informações dadas pela Polícia. Na quinta-feira, o Núcleo de Cotidiano do O Povo (no qual se insere a cobertura de assuntos policiais) articulou um material mais abrangente, inclusive com aspectos relacionados à atividade de flanelinha – que não é regulamentada pelo poder público e, por isso, não sofre fiscalização. Respondeu, dessa forma, uma série de perguntas para as quais o leitor ainda não havia tido retorno e ofereceu dados adicionais. Mais do que isso, foi na quinta-feira a única opção nesse sentido, já que o jornal concorrente continuou restrito às informações fornecidas pelas fontes da Polícia.

Mas o que se põe em xeque, como foi escrito antes, é o aprofundamento das coberturas policiais. Os dois principais jornais de Fortaleza costumam deixar falhas quando têm de ir além das paredes das delegacias. No caso de terça-feira passada, os jornalistas deixaram de atentar para o lado humano da pauta e, como de costume, deram prioridade ao boletim de ocorrências. Há um verdadeiro histórico de episódios nos quais há semelhanças na cobertura. Cito aqui três exemplos: 1) O assassinato da bailarina Renata Braga pelo universitário Wladimir Magalhães Porto, na avenida Beira Mar, em 28 de dezembro de 1993, após um acidente entre os carros onde estavam o executor e a vítima. O caso ganhou manchete, mas, no primeiro momento, foi tratado com superficialidade; 2) O assassinato do comerciante José Wildson Saraiva Belém pelo advogado Victor Quinderé Amora, a golpes de chave de fenda, após uma discussão de trânsito no dia 8 de agosto de 2001. A mesma superficialidade foi dedicada ao crime na edição de 9 de agosto; 3) O assassinato do estudante Gianfranco Gasparini Filho por um colega de iniciais G.A.M., menor de idade, no dia 3 de abril do ano passado. O crime aconteceu a poucos metros do colégio Ary de Sá, onde ambos estudavam, e foi presenciado por vários alunos. Apesar da brutalidade – G.A.M. matou Gianfranco com a força das mãos – e de o fato envolver dois adolescentes, O Povo não deu manchete para o assunto no dia 4. Somente em edições posteriores, conseguiu-se responder dúvidas e apresentar versões mais definidas dos fatos.

Quem fiscaliza o que

Quarta-feira última, a matéria ?Alternativos – Vans são 28% do transporte da Região Metropolitana? trouxe uma frase do governador Lúcio Alcântara: ?Após o acidente (em Quixadá, no dia 20 de janeiro, em que morreram 23 pessoas) o papel do Estado é fiscalizar esse tipo de transporte?. Engano do governador. Desde sempre essa função é do Estado. O repórter que fez a matéria, no entanto, deixou de contestar o que preferimos classificar como ?lapso?.

Questão de DNA

O trompetista Miles Davis fundou o cool jazz, uma das muitas vertentes jazzísticas. É a história. No caderno Vida & Arte da última quarta-feira, na matéria ?Música – Choro livre?, foi-lhe atribuída a paternidade do free jazz – outro ramo. No comentário interno, expus o equívoco. No mesmo dia, recebi do repórter Felipe Araújo uma extensa resposta, na qual foi escrito que a preocupação do ombudsman era ?preciosismo?, visto que Davis é apontado como uma das influências do criador do atonal free jazz, o multiinstrumentista Ornette Coleman. Contra-argumentei que o fato de Miles Davis ter influenciado na composição não só de Coleman, mas de gerações seguidas de jazzistas não confere a ele o título de ?pai? de estilos que possam ter bebido na fonte de seu cool jazz. Não se trata de preciosismo, portanto. A questão é a informação correta, que não foi dada ao leitor.

Um discurso faminto de respeito

Anote a frase: ?Se eles (os nordestinos) continuarem vindo para cá (o Sudeste), vamos ter de continuar andando de carro blindado?. Cunhada pelo ministro José Graziano, a quem o presidente Lula encarregou da sensível tarefa de combater a fome, a declaração preconceituosa foi dita no último dia 7, para um auditório repleto de empresários paulistas. O colunista Fábio Campos tem sido uma exceção à apatia de parte da imprensa local, se dedicando nos últimos dias a mostrar reações à fala de Graziano. Os escritores João Ubaldo Ribeiro e Zuenir Ventura já tiveram sua indignação reproduzida na Coluna Política do O Povo. O deputado federal petista João Alfredo, idem. Nenhum, porém, lembrou ainda que a essência dessa frase também exala das palavras de ordem de grupos neonazistas que lotam a periferia de grandes cidades, como São Paulo."

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