Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Roberto Pompeu de Toledo

Por lgarcia em 06/06/2001 na edição 124

ASPAS

O CIRCO DA RENÚNCIA

"Notas para um dicionário brasileiro de política (6)", Veja, 4/06/01

"ACM – Iniciais que identificam um dos políticos brasileiros mais influentes e duradouros do último meio século. O costume de identificar políticos pelas iniciais começa com Juscelino Kubitschek (1902-1976), o JK. Com origem na imprensa, atende à necessidade de encurtar os nomes para fazê-los caber nas manchetes. Em princípio, ser popularizado pelas iniciais equivale a uma consagração. Supõe prestígio e alto grau de notoriedade. Os próprios aquinhoados assim o entendem, como demonstra o trecho em que, no discurso da semana passada, o político em questão, depois de pedir perdão pela ?imodéstia?, referiu-se à ?sigla ACM? como ?uma legenda viva, que ninguém vai destruir assim, sem mais nem menos?. No governo Collor, porém, as iniciais foram reservadas ao vilão-mor do período, o PC de famigerada memória. Já no atual governo, ao surgirem suspeitas envolvendo o assessor presidencial Eduardo Jorge, os adversários passaram a referi-lo por EJ, mesmo que nunca antes fosse assim designado, para aproximá-lo do outro. Tais exemplos indicam que aquilo que era uma honra pode resultar, em certos casos, numa pecha.

Bahia – Estado brasileiro que, já não fosse a anomalia ortográfica representada pelo ?h? sem função fonética no nome, apresenta igualmente uma anomalia política. No Império, nenhuma província produziu tantos e tão notáveis presidentes do Conselho, como eram chamados os primeiros-ministros – de Zacarias ao primeiro Rio Branco, de Saraiva a Cotegipe. Na República, o máximo que a Bahia conseguiu foi um vice-presidente que ocupou a Presidência longamente, por doença do titular – Manuel Vitorino, vice de Prudente de Moraes. Rui Barbosa candidatou-se à Presidência duas vezes e perdeu. E o único baiano que verdadeiramente chegou lá, Itamar Franco, se declara mineiro. A sina da Bahia tem sido a de chegar perto.

Bola da vez – Expressão emprestada ao jogo de snooker, ou sinuca, cujas regras impõem que o jogador, entre as diferentes bolas na mesa, se dedique a uma por vez. Começou a ser empregada em sentido figurado nas crises econômicas que, nestes tempos de chamada globalização, começam num país e contagiam outro, e outro. Assim, depois de um ataque especulativo contra a Argentina, a bola da vez seria o Uruguai, e, depois da Rússia, a Polônia. Na verdade, os países citados só o foram a título de exemplo, pois a verdadeira bola da vez, em crises como essas, surjam de onde surgirem, tem sido, lamentável e invariavelmente, o Brasil. No atual caso do Senado, como já há algum tempo há três bolas na mesa, encaçapadas duas, sobra uma. É a bola da vez.

Coronelismo – Fenômeno que caracteriza o exercício do poder, de forma pessoal e abusiva, por parte de chefes regionais ou locais, com recurso à proteção e aos favores, quando não ao terror, para exigir estrita obediência. O título de ?coronel? dado ao titular desse ?exorbitante poder privado?, para citar o livro clássico sobre o assunto (Coronelismo, Enxada e Voto, de Victor Nunes Leal), origina-se na patente de ?coronel? da Guarda Nacional que, no Império e na República Velha, era concedida a mandões paroquiais. O poderoso político que na semana passada se despediu do Senado foi freqüentemente apodado de ?coronel?. Na verdade em certos aspectos foi (é) mais que isso, e em outros menos. Mais problemático ainda é chamá-lo de ?último coronel?. O vezo retórico de qualificar alguém de ?último? – o ?último romântico?, o ?último trovador? – costuma ser desmentido com freqüência pelos fatos.

?Nos braços do povo? – Lugar-comum de que se socorrem os políticos para dizer de que forma voltarão, depois de, por alguma razão, serem afastados do jogo. Mesmo considerando que, segundo o Hino Nacional, o brasileiro tem ?braço forte?, há cargas que necessitam de braços em quantidade além da disponível.

Renúncia – Ato pelo qual o político abre mão do mandato. Fora do contexto político, o conceito de renúncia tem, com freqüência, conotação nobre. Renuncia-se ao trono pela mulher amada, como o duque de Windsor, ou à riqueza pelo serviço de Deus, como São Francisco de Assis. Na política brasileira, o mais célebre caso de renúncia, o do presidente Jânio Quadros, mistura tentativa de golpe, para voltar ?nos braços do povo? (vide verbete), e desequilíbrio emocional. No Congresso, numa sucessão considerável de episódios recentes, renuncia-se quando se divisa a inevitabilidade do mal maior – a cassação do mandato.

Vice-rei do Norte – Título pelo qual foi conhecido o militar e político Juarez Távora (1898-1975), destacada figura do chamado tenentismo e, depois da Revolução de 30, supremo manda-chuva das regiões Norte e Nordeste. Juarez Távora era cearense, mas, já não se estendesse sua influência também a essa região do país, valia chamá-lo ?do Norte? pelo fato de, à época, não usar dizer-se ?Nordeste?. O título de vice-rei do Norte (ou do Nordeste) esteve vago desde então. Nunca esteve tão vago quanto na semana passada."

"?Caetano é egocêntrico, mas tem talento?", Folha de S. Paulo, 2/06/01

"Político 24 horas, Antonio Carlos Magalhães não passa recibo sobre as recentes críticas recebidas de seu conterrâneo baiano Caetano Veloso. ?O Caetano é um egocêntrico. Mas tem um grande talento e sou seu admirador?, diz o ex-senador.

Em entrevista domingo ao jornal ?O Globo?, o músico -que hoje e amanhã faz ensaios abertos ao público carioca de seu novo show, ?Noites do Norte?- disse que a associação de seu nome a ACM é ofensiva e que nunca lhe prestou apoio político.

Na realidade, ACM enxergou elogio na entrevista. ?Ele fez também um elogio. Disse que mudei, acabei com o coronelismo na Bahia?, declarou ACM, no carro que o levou para assistir à posse de seu filho no Senado, quinta-feira.

Abalado pela renúncia no dia anterior, com olheiras profundas, ACM foi calmo e sarcástico ao falar de Caetano. ?Gosto mais da mãe dele, dona Canô, porque ela é mais sensata?, declarou.

A seguir, os principais trechos da entrevista de ACM sobre Caetano. Aliás, sua primeira depois de ter renunciado ao mandato.

Folha – Qual é sua opinião sobre Caetano Veloso?

ACM – O Caetano é um egocêntrico. Mas tem um grande talento e sou seu admirador. Apesar de já ter dito a ele que gosto mais da mãe dele, dona Canô, porque ela é mais sensata. Quando fez 90 anos, ela fez questão de entrar de braços dados comigo na igreja.

Folha – Mas qual é a sua opinião de fato sobre Caetano?

ACM – É um homem interessante. Inteligente. E, como todo gênio, é cheio de si.

Folha – Recentemente ele o criticou em uma entrevista…

ACM – … Mas ele fez também um elogio. Disse que eu mudei, acabei com o coronelismo na Bahia. Na Bahia, o coronelismo era mesmo comandado por Jutahy Magalhães. Nessa entrevista que você menciona, Caetano reconheceu que tenho grandes serviços prestados à administração pública da Bahia. É claro que numa reportagem o que fica é o título, como se ele só tivesse me criticado. Mas há elogios também.

O Caetano é uma estrela e não quer nenhuma outra estrela para ofuscá-lo. Ele se diz a estrela da Bahia. E eu não quero competir com ele.

Folha – Caetano está sendo preciso quando diz nunca tê-lo apoiado?

ACM – Ele nunca me apoiou mesmo. Ele já me elogiou, mas nunca me apoiou com o voto dele. O que não acontece com outros artistas da Bahia, como Bethânia e Gal, por exemplo. O fato é que Caetano tem de ser original.

Folha – O sr. gosta de Caetano Veloso e de sua obra?

ACM – Gosto dele, mas tenho mais ligação com Gil, Gal e Bethânia. Até porque ele (Caetano) ficou muito tempo fora da Bahia.

Folha – O sr. guarda alguma mágoa pelo fato de ele ter dito que nunca o apoiou, quase na véspera da sua renúncia?

ACM – Não. Guardei é a entrevista que ele deu, na qual também faz elogios a mim.

Folha – Como admirador de Caetano, como o sr. diz, qual canção dele o sr. diria que é a sua predileta?

ACM – Ah, assim de cabeça, eu não me lembro."

"Não houve gratidão na cobertura da Globo", copyright Blue Bus (www.bluebus.com.br), 4/06/01

"O ex senador Antonio Carlos Magalhaes deu uma longa entrevista neste domingo ao jornalista Boris Casoy, da Rede Record . No programa Passando a Limpo, foi perguntado como avaliava a cobertura da Rede Globo sobre o episódio que terminou com a sua renúncia na semana passada. Foi taxativo – ?Gratidão não existiu nesse episódio?.

Ao responder se continuava amigo da família Marinho, disse que é ?amigo do velho Roberto e dos filhos. Ainda hoje, o João Roberto me telefonou dizendo que vai a Bahia almoçar comigo para demonstrar a amizade da família. Nós somos amigos, tenho amizade fraterna com o dr. Roberto e manterei enquanto ele tiver vida. Com os filhos, tenho amizade também, mas não foram justos comigo. Foram injustos comigo, talvez até para mostrar que eram altamente independentes? – observou.

Em outro momento da entrevista, o ex senador pediu para fazer agradecimentos públicos a alguns jornalistas que ?ficaram com a minha causa? e citou Janio de Freitas e Carlos Heitor Cony, da Folha de S. Paulo, Miriam Leitão e Márcio Moreira Alves, de O Globo, e ainda Marcos Sá Correa, do JB.

A declaraçao que deve ter o impacto de uma bomba no mundo político aqui em Brasília nesta 2a feira foi a revelação surpreendente de que o apoio de ACM e do PFL a Paulo Maluf em 98 ocorreu a pedido do presidente FHC. Maluf (PPB) disputava com Mario Covas (PSDB) o Governo de São Paulo. Segundo ACM, ?uma estratégia inteligente?, porque o presidente, que tentava reeleição, seria beneficiado com os votos vindos de Covas (que era do mesmo partido de FHC), e de Maluf, porque recebia apoio do PFL, que faz parte da aliança de sustentação do governo federal. Sobre o episódio, ACM comentou – ?Eu até nem gosto de falar muito sobre isso porque o Covas, que foi passado para trás, está morto?".

    
    
                     

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