Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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Roberto Pompeu de Toledo

Por lgarcia em 20/06/2001 na edição 126

ASPAS


EXECUÇÃO DE McVEIGH


"Morte com platéia, TV e telão", copyright
Veja, 18/06/01

"Matar não era o bastante. Carecia oferecer ao público o espetáculo da morte. Fosse para intimidar, para acenar com o exemplo ou consagrar a autoridade dos detentores do poder, fosse por vingança ou para simples diversão do populacho, a execução da pena de morte não estaria completa se não contasse com platéia. Era assim quando a Inquisição queimava os infiéis na fogueira ou quando os revolucionários franceses perpassavam o pescoço dos inimigos na guilhotina. E é assim – espantosamente continua assim, em que pesem os progressos na arte de matar de modo rápido e limpo – nos Estados Unidos. Foi o que o mundo pôde comprovar com a execução, na semana passada, do ex-soldado Timothy McVeigh, autor do atentado terrorista de Oklahoma City, o maior da história americana, em que morreram 168 pessoas em 1995.

Trinta e duas pessoas assistiram, no próprio local, à execução de McVeigh. Como é praxe nas numerosas execuções que se sucedem nos Estados Unidos, foram convidados os parentes dos dois lados – da vítima, ou, no caso, das vítimas, e do condenado. Com perdão pela comparação, é como num casamento, em que se convida a parentela de ambos os consortes. Como nesse caso as vítimas eram muitas, houve sorteio para selecionar os dez parentes a quem caberia a honraria. No caso do condenado, à falta de familiares que se apresentassem, sua cota ficou reduzida a seus quatro advogados. A assistência era completada por dez jornalistas e oito funcionários dos sistemas judiciário e penitenciário.

Para evitar que as famílias, de um lado e de outro, se cruzem, há sempre cabines separadas para acomodá-las. De novo com perdão pela má comparação, é como nos chamados peep-shows, em que uma mulher se despe diante de uma platéia de marmanjos que, para se protegerem da vergonha de se darem a tais diversões, se refugiam em cabines individuais e espiam o espetáculo por uma pequena janela. Mas no caso do terrorista de Oklahoma, dada sua magnitude e sua ressonância, houve uma platéia suplementar. Na própria Oklahoma City, distante do local da execução, que foi uma prisão do Estado de Indiana, foi armado um telão para que a cena, filmada em circuito fechado de TV, pudesse ser acompanhada pelos parentes não contemplados no sorteio. Cerca de 250 pessoas compareceram, acomodando-se em fileiras de cadeiras brancas. Com perdão, pela última vez, pela comparação, foi como num show de rock, em que se providenciam telões para contentar os que ficam longe do palco.

Graças à existência de uma platéia, pode-se comentar, depois, à exaustão, tal qual à saída do cinema comenta-se o filme (perdão, não era a última das más comparações), o suspiro do condenado, ou a maneira como ele encheu as bochechas, a alturas tantas do efeito da injeção letal. Pode-se também tentar reproduzir com caretas os esgares do executado. O jornal francês Le Monde publicou, em paralelo ao noticiário sobre McVeigh, a história de uma repórter do Texas que, empregada num jornal da pequena Huntsville, onde fica a penitenciária em que são aplicadas as penas de morte do Estado, tem a seu cargo cobrir as execuções. Ela já assistiu a 45 ou cinqüenta delas – nem se lembra. Já viu condenados que morrem xingando com palavrões e outros que ficam em silêncio. Uma vez, emocionou-se com um que pediu perdão aos parentes da vítima e chorou. Outra, assustou-se com um que, mesmo amarrado, debatia-se desesperadamente enquanto protestava sua inocência. Michelle Lyons, este o nome da repórter, acumulou vasta experiência no quesito últimos momentos de um condenado. Detalhe: ela tem 25 anos. Vinte e cinco aninhos, e o dobro disso em acompanhamento de execuções! Diz ela que tal programa não lhe causa prazer nem desprazer: ?Faz parte do meu trabalho?.

Difícil eleger o mais bárbaro, se a pena de morte em si ou o voyeurismo em torno dela. Há muitos argumentos contra a pena de morte. Um, sua irretratabilidade, está na ordem do dia, depois que, nos últimos anos, se descobriram oitenta inocentes entre os 3.500 condenados que aguardam execução nos Estados Unidos. Outro foi apresentado por Alan Dershowitz, professor de direito de Harvard citado pelo correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Washington, Paulo Sotero. Pior para McVeigh, segundo Dershowitz, teria sido a prisão perpétua, que o obrigaria a passar o resto da vida numa cela, ?esquecido pelos americanos e pensando a cada minuto no que fez?. Mas fiquemos com um terceiro, que vale para a pena de morte como para sua promoção à categoria de espetáculo. Ambas essas coisas, este é o argumento, equivalem a fazer o jogo do inimigo. Matar é com os bandidos, como se sabe há tempo. Matar por exibicionismo, como se sabe há menos tempo, também é com eles. Ainda mais nos Estados Unidos, onde os chacineiros de supermercado, escolas ou pátios de estacionamento, bem como os assassinos de presidentes, não agem em regra por outro motivo senão o desejo de sair do anonimato. Dar-lhes platéia, câmara de TV e telão é preencher o maior de seus anseios."



"Rede de TV fará série com história
de terrorista", copyright O Globo, 16/06/01

"Poucos dias após a execução de Timothy McVeigh, autor do atentado a bomba ao prédio federal Alfred P. Murray, em Oklahoma City, em 1995, a rede de televisão americana CBS anunciou que comprou os direitos de um livro para filmar uma minissérie sobre o maior ato de terrorismo da história dos Estados Unidos.

A informação foi veiculada no jornal ?Daily Variety?, que não especificou o valor pago pelos direitos do liivro ?Terrorista americao: Timothy McVeigh e o atentado de Oklahoma City?, escritos por dois jornalistas que fizeram 75 horas de entrevistas com o criminoso.

O produtor da série, Gerry Abrams, assegurou que McVeigh não será o personagem central da história.

– Ao invés de falar dele, a série mostrará como pessoas aparantemente sem relação são envolvidas num episódio comum – explicou.

McVeigh foi executado na segunda-feira, com uma injeção letal. Sua morte foi assistida ao vivo por familiares das 168 vítimas do atentado, além de alguns jornalistas. As informações são da agência DPA."



"Execução virou show de mídia", copyright O Globo, 14/06/01

"No final, o terrorista Timothy McVeigh conseguiu a notoriedade que buscava e a plataforma que queria para espalhar suas idéias. Ontem, cerca de 1.400 jornalistas se encontravam em Terre Haute, no estado de Indiana, para noticiar a execução do homem que matou 168 pessoas inocentes em sua luta contra um governo que ele julgava opressor.

Nos últimos meses, McVeigh, que queria sua execução transmitida pela TV em horário nobre, tornou-se uma obsessão da mídia americana, com todos os aspectos de sua vida amplamente divulgados, sobretudo na reta final de sua execução. Fotos dele nas primeiras páginas dos jornais eram freqüentes. Ontem, a cobertura foi tão extensa que a morte de McVeigh foi a única cena a não aparecer nas telas. Algumas cadeias de TV interromperam a programação no momento da execução para dar a notícia. Em seguida, começaram a desfilar diante das câmeras as testemunhas que presenciaram a execução, dando detalhes de como o terrorista enfrentou a morte, aparentemente calmo e sem demonstrar arrependimento.

O jornal ?USA Today? alertou para ?a plataforma improvisada que se estava dando a McVeigh?, que se dizia martirizado pelo governo. ?Uma condenação à prisão perpétua lhe teria negado isso. Ele teria visto que o país segue adiante e compreendido a futilidade de seu ato demente. Teria sido um testemunho de si mesmo como alguém cada vez mais irrelevante, anônimo e patético, e, depois, teria morrido de qualquer jeito?, diz o diário.

Andrzej Rzeplinski, da Fundação Helsinki de direitos humanos, criticou a cobertura avassaladora da reta final do caso McVeigh pela imprensa.

– Essa divulgação poderá inspirar outros fanáticos ávidos de glória – argumentou.

Para o jornal austríaco ?KronenZeitung?, o mais lido no país, ?a agitação em torno da execução faz lembrar o ambiente de festa que acompanhava antigamente os enforcamentos públicos?."



"Pena de morte ?mancha? prestígio dos EUA",
copyright Folha de S. Paulo / The New York Times, 14/06/01

"Editorial do ?The New York Times? de ontem afirma que o presidente dos EUA, George W. Bush, poderá perceber, durante o giro que faz pela Europa nesta semana, que o fato de os EUA ainda aplicarem a pena de morte deve comprometer ?seriamente? a autoridade moral que o país tenta transmitir ao mundo.

Segundo o jornal, as críticas à execução do terrorista Timothy McVeigh -ocorrida segunda-feira, na mesma semana da viagem de Bush à Europa- acentuaram o fato de que a pena de morte em outras democracias é uma questão de ?direitos humanos?, não de ?justiça criminal?, como ocorre nos EUA.

A punição com pena de morte para impedir crimes é ?amplamente desacreditada? e precisa ser revista, até por ser uma questão também de política externa, como Bush ?está aprendendo?, diz o jornal.

Para o ?Times?, as conversações com os europeus sobre ?compartilhar valores transatlânticos? não devem ter efeito enquanto as execuções nos EUA forem mantidas.

O diário acrescenta que a pena de morte está ?manchando? o prestígio americano fora do país. Os europeus vinculam esse tipo de punição a Bush. Durante seu mandato como governador do Texas, Bush assinou a execução de 152 condenados. Nos EUA, desde que a pena de morte foi reinstaurada, em 1976, mais de 715 execuções foram realizadas.

No ano passado, somente China e Arábia Saudita realizaram mais execuções que os EUA. Incluindo o Irã, esses países são responsáveis por 90% das execuções."

    
    
                     

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