Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > USA TODAY

Rodrigo Fonseca

Por lgarcia em 22/08/2001 na edição 135

31 DE FEVEREIRO

"Sociedade falida", copyrIght Jornal do Brasil, 18/8/01

"Carmem Miranda acaba de ser escolhida musa da capa da Playboy de setembro graças ao sucesso que alcançou como dançarina do grupo É o Tchan. (?) Já a dupla Pelé e Ronaldinho está prestes a conquistar a taça Jules Rimet. (?!) Enquanto isso, o líder revolucionário comunista Fernando Henrique Cardoso continua na prisão e será executado até o fim do ano pelas tropas do presidente Getúlio Vargas. (?!!) Calma, leitor! Você não está tendo alucinações. Quem as teve foi o cartunista André Diniz, que, interpretando a cultura de massa e todas as acusações de corrupção no governo brasileiro a partir de uma realidade paralela, foi responsável pelo louco, porém divertidíssimo roteiro da HQ 31 de fevereiro, lançada recentemente nas bancas cariocas. Desde já, um dos melhores gibis nacionais do ano.

É difícil atravessar as dez primeiras páginas sem um sorriso. Logo no começo, Diniz apresenta Cazuza, Herbert Vianna e outros ícones do RPB (Rock Popular Brasileiro) como símbolos da resistência a um governo ditatorial. Em sua realidade alternativa, nosso cinema conquista o exterior depois que o ator Matheus Nachtergaele se torna sucesso de bilheteria internacional como protagonista do filme O pagador de promessas.

Anjo Negro – Personagens da história política brasileira também entraram na brincadeira e acabaram tendo seus papéis misturados, na trama cruel, mas extremamente irônica de Diniz, autor do ótimo gibi Fawcett. Isso explica por que PC Farias virou o Anjo Negro de Vargas no lugar de Gregório Fortunato. Uma alegoria temporal testemunhada pelo protagonista da trama, que, já à primeira vista, é mostrado como alguém pouco convencional.

Viciado em drogas, portador do vírus da Aids e figurinha fácil em casas noturnas e zonas de meretrício, o travesti Gilda tem sua vida dissecada em 31 de fevereiro. Recém-saído da prisão, ele busca o auxílio de uma amiga das antigas noites boêmias, mas acaba encontrando uma fanática seguidora da Igreja Universal no lugar da tolerante prostituta que aprendeu a respeitar. Para piorar, acaba sendo obrigado pelo detetive Claudionor, seu ex-amante, a assassinar o inimigo número um do governo brasileiro: Carlos Lacerda.

Desenhando em jornal – Narrativamente criativo, graças ao uso de flash-backs e de um prólogo que trabalha bem com jogo de sombras, o thriller de Diniz também apresenta visual interessante. Os desenhos simples, bem característicos da atual geração de quadrinistas brasileiros, compõem uma combinação rica em contrastes. Um recurso interessante foi a opção de desenhar sobre imagens de arquivo fotocopiadas ou escaneadas. Tal idéia, que poderia poluir as páginas, acaba sendo resolvida pela esperta colagem de recortes, que se conjugam perfeitamente com as ilustrações do cartunista.

Pontuado pelo humor, 31 de fevereiro deixa claro um tom pessimista com relação aos problemas do país. Apesar da graça provocada pela desconstrução de ícones da cultura de massa, todos os personagens que cruzam o caminho de Gilda parecem ter trocado o próprio caráter por uma xícara de café no bar da esquina. O próprio anti-herói transformista é descrito como pária, capaz de magoar as pessoas para se satisfazer. Visão amarga, o panorama criado por Diniz é uma denúncia fiel do peso que a falência da sociedade pode ter sobre as aspirações pessoais do indivíduo."

USA TODAY

"Até ‘USA Today’ abre espaço para a crise da seleção, copyright O Estado de S. Paulo, 16/8/01

"A crise da seleção brasileira mereceu generoso espaço no USA Today, um dos mais importantes jornais dos Estados Unidos e que normalmente ignora solenemente o ?soccer”, como os americanos chamam o futebol. A exceção foi aberta na edição de ontem, dia em que o Brasil enfrentou o Paraguai pelas eliminatórias. Em reportagem que ocupou três quartos da página 3 do caderno de Esportes (com chamada na capa do caderno), o jornal repercutiu a dúvida que nos dias que antecederam à partida disputada no Estádio Olímpico tomou conta de muitos torcedores brasileiros: a Copa de 2002 terá ou não a seleção tetracampeã do mundo?

A matéria, assinada pela jornalista Traci Romine, não consegue fugir dos chavões, ao colocar que o futebol é o símbolo e a ?identidade” do Brasil e as copas do mundo se constituem num momento de alegria para um povo carente de heróis políticos e estrelas internacionais. Mas lembra que a seleção é a única que disputou todas as copas e tenta descobrir os motivos que a levaram a ficar tão ameaçada de não ir à competição a ser realizada no Japão e na Coréia do Sul.

Para refletir o atual momento de incertezas dos torcedor em relação à seleção, o USA Today cita reportagem do Estado, no dia seguinte à derrota do Brasil por 1 a 0 para o Uruguai, pelas eliminatórias, no mês passado.

O jornal conversou com pessoas ligadas ao futebol como Sócrates, Pelé e o fisiologista Turíbio Leite de Barros. Sócrates diz que ?será uma tragédia se o Brasil não se classificar”. Pelé repete que só a criação da liga poderá levar seriedade ao futebol brasileiro. Turíbio é mais contundente:

?Investigações detectaram linhas de corrupção em diferentes setores do futebol brasileiro, o que refletiu na desorganização do esporte e resultou na crise moral entre os jogadores”, afirmou ao USA Today. Também ouve um torcedor, que define o time como ?horrível” e considera que os jogadores perderam a identificação com o País.

O jornal coloca como data que marcou o início da agonia a final da Copa de 1998, quando a seleção perdeu para a França por 3 a 0. Lembra as sucessivas trocas de treinadores até a chegada de Luiz Felipe Scolari, o ?Big Phil”, e a sua promessa de classificar a seleção para o Mundial, feita ao assumir.

Para refletir bem o momento brasileiro, o diário escolheu a dedo três das quatro fotos que ilustram a reportagem e a chamada: numa delas, Belletti leva as duas mãos à cabeça ?num reflexo das dificuldades”, segundo a legenda; noutra, Cris olha para o chão, desolado, após o segundo gol de Honduras na partida que eliminou o Brasil da Copa América; a terceira Roque Júnior perde uma disputa de bola com Borgetti, autor do gol da vitória do México sobre o Brasil por 1 a 0, também na Copa América.

O USA Today também ?providenciou” um quadro que mostra todos os tropeços da seleção, incluindo os da equipe olímpica, desde 2000, a começar pela derrota por 3 a 0 para o Chile, pelas eliminatórias. E calcula em US$ 240 milhões o prejuízo apenas em campanhas promocionais caso o Brasil fique fora da Copa."

    
    
              

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