Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Roriz, Correio e a volta da censura

Por lgarcia em 02/10/2002 na edição 192

FAROESTE CANDANGO

Luiz Martins (*)

Impeachment. Esta palavra começa a freqüentar o noticiário sobre o envolvimento do governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, com uma quadrilha de grileiros de terras públicas. Líder nas pesquisas eleitorais que apontam como favorito para o Palácio do Burity, mas perdendo pontos que podem comprometer a sua outrora tranqüila vitória num primeiro turno, Roriz tenta, agora, de todas as maneiras, impedir que o Correio Braziliense prossiga com reportagens sobre o assunto, a cada dia com lances mais estarrecedores, como a troca de ameaças de morte entre “amigos” do governador.

Na noite de domingo (29/9), por volta de 23h30, o Correio recebeu a visita de um oficial de Justiça conduzindo uma liminar concedida pelo desembargador Jirair Meguerian, inicialmente proibindo a publicação de conversas telefônicas gravadas com autorização da Justiça e que fazem parte da ação penal em curso na 1? Vara Criminal de Brasília. Entrou em cena o advogado do jornal, Francisco Caputo, que telefonou ao magistrado e requereu uma solução intermediária: o jornal não citaria diretamente o governador. A edição foi refeita e reduzidas 5 das 14 páginas originais que davam suíte ao escândalo [veja remissões abaixo para matérias da edição 191 do OI].

Do outro lado do front, foram espalhados boatos de que Ricardo Noblat acabara de ser preso, por desacatar uma ordem judicial. Noblat não foi preso mas corre, de fato, o risco de ter de responder por ter divulgado, mesmo com uma liminar à sua frente, novos conteúdos do grampo. Como já aconteceu em outros momentos, em outros jornais e envolvendo outras personalidades (Antonio Garotinho, por exemplo), prevaleceu o bom senso da cultura profissional do jornalismo ? segundo a qual, nessas horas, deve prevalecer o interesse público sobre o direito à privacidade das pessoas públicas.

Bode expiatório

Na madrugada de domingo para segunda, portanto, a rotina produtiva da redação do Correio passou por uma reviravolta. O que prometia ser um costumeiro plantão modorrento, pelo dia e pela hora, transformou-se numa situação insólita: a volta da censura. Inicialmente, a decisão do diretor de redação Ricardo Noblat era a de publicar a edição de segunda-feira com um caderno de páginas em branco estampando o carimbo de “vetado” ? mal comparando, como as receitas e poemas publicados durante o regime militar para denunciar a censura. A edição de segunda circulou com o tal carimbo e com a advertência de que parte do material que seria publicado deixou de sê-lo por determinação judicial. Nada de páginas em branco.

Em sua primeira página de 30/9, o Correio estampou novos diálogos do grampo, comprometendo desta feita o secretário de Comunicação do GDF, o jornalista Wellington Moraes, que aparece tentando botar panos quentes entre os dois atores principais do racha entre dois amigos chegados do governador. Nas conversas, eles ameaçam resolver a pendenga no estilo do velho Oeste ? à bala.

Como no esmaecido estilo do coronelismo dos grotões, o estopim da rivalidade foi uma cerca derrubada. As gravações revelam, entre outros lances, a indignação de Pedro Passos com a ordem emanada do diretor da Terracap (a empresa distrital que disciplina o parcelamento do solo no DF), Eri Varela, para que os seus fiscais impedissem o loteamento de uma área situada no Lago Sul de Brasília, próximo à terceira ponte e a uma vista d?olhos dos palácios da Alvorada e do Planalto. Passos é há anos acusado de grilagem e agora candidato a deputado distrital. Sua campanha eleitoral tem o mote de “O amigo do governador”.

Na conversa grampeada pela Polícia Federal por solicitação do Ministério Público, cujo áudio foi divulgado em parte na edição online de domingo do Correio, Passos telefona para a residência do governador e expõe o problema. Pede a intervenção de Roriz para que o “vespeiro”, a “bomba atômica” seja contida, sob pena de muita gente envolvida, inclusive desembargadores (“que têm lotes, lá”) tenha os seus nomes manchados. A conversa de Pedro com Roriz se deu às 18h04 de 12 de agosto ? um mês antes de decretada a prisão preventiva do caçula dos Passos. O interlocutor do governador é tratado com intimidade pela secretária que atende a ligação e dela recebe a qualificação de “doutor Passos”. Travam um diálogo extremamente cortês, em que ela conta que estava conseguindo votos para ele.

No novo trecho da gravação, Pedro Passos fala ao governador de que Eri Varela estava dando uma de “mal servido”, já que havia recebido propina para não atrapalhar [a ocupação irregular de 221 hectares entre as quadras QIs 27 e 39 do Lago Sul]: “Eri recebeu lote na minha mão, recebeu chácara. Ele tá é mal servido, achando que gente ganhou mais”.

Sem qualquer estranhamento ante a tantas irregularidades, Roriz afirmou que iria, imediatamente “administrar” o assunto junto a Varela.

Um dos diálogos divulgados pelo Correio na edição de 30/9 é revelador da tensão reinante no círculo próximo ao governador, agora um reduto conflituoso em decorrência de ciúmes: ora de um ex-secretário que se queixa de que ganhou uma propina de apenas 50 lotes contra 300, que teriam ido para o presidente da assembléia legislativa distrital, ora por conta de ressentimentos causados pela ambição de Pedro Passos, que não se contentou com o seu enriquecimento pessoal com os “loteamentos”.

O empresário resolveu fazer carreira política e se beneficiar da imunidade parlamentare, tal como fica explícito num trecho do grampo divulgado pelo Correio, em que o porta-voz de Roriz dá conselhos a Pedro Passos: “Então libera, Pedro. Vá cuidar da sua vida (…). Zé Edmar [José Edmar; deputado distrital] não tem mandato e não resolve as coisas do jeito que ele quer? Então faz a mesma coisa: ganha seu mandato e depois cê barganha, negocia. Aí fica muito mais fácil”. Se for eleito, Passos será mais um voto na bancada majoritária de Roriz na Câmara Distrital, a mesma que impediu quorum para a “CPI da grilagem”.

Fácil teria sido a campanha de Roriz para o seu terceiro mandato (o primeiro, por indicação, o segundo, por eleição) não fossem as chantagens que partiram de Márcio Passos, de revelar todo o conteúdo de uma centena de fitas, mostrando que não estaria disposto a ser bode expiatório e sair nessa história como “bandido”, em vista de tanta gente envolvida. Fácil não será a nova administração de Roriz, a julgar pelos indícios de improbidade, já considerados por autoridades do Ministério Público como suficientes para uma investigação em torno do próprio governador. Quem já se adiantou com uma proposta de impeachment foi um dos candidatos ao Burity, o deputado distrital Rodrigo Rollemberg, um dos primeiros a levantar o assunto na Assembléia.

Força-tarefa

O escândalo das fitas, que a cada dia proporciona uma dose de denúncias em torno da “Conexão Passos”, radicalizou a rivalidade de anos entre o Jornal de Brasília e o Correio Braziliense. Na versão do primeiro, o assunto vem de longe e de outro grampo, divulgado há mais tempo por Germano Carlos Alexandre, outra figura acusada de grilagem. Tudo teria começado quando o então deputado distrital e agora candidato pelo PT ao Palácio do Burity, Geraldo Magela, teria sido o articulador da aprovação de um condomínio irregular, o Alto da Boa Vista, na Assembléia Distrital, em abril de 2001, com aplausos de toda a bancada oposicionista, que jogava para galerias lotadas de condôminos. O Jornal de Brasília acusa o Correio de parcialidade e omissão, por só denunciar o lado da grilagem que afeta o governador Roriz, descuidando de denúncias semelhantes quando o envolvido é o candidato do PT.

Em sua edição de 30/9, o Jornal de Brasília informava ter sido o único a publicar a derrubada das cercas e retirada dos piquetes do loteamento irregular do Lago Sul, por ordem do presidente da Terracap. Também noticiava que os irmãos Passos estão sendo alvo de vários processos na Justiça, movidos por Eri Varela e por deputados distritais que tiveram os seus nomes relacionados a subornos. Entretanto, no áudio divulgado domingo pelo Correio, o candidato Pedro Passos também pede a Roriz que interfira junto ao Jornal de Brasília de modo a evitar publicidade sobre o envio de fiscais da Terracap à área grilada. É quando ele sugere ao governador que se Varela quer brigar, que se limite à alçada da Justiça. E até adverte sobre a possibilidade de uma reação violenta: “Se ele continuar futricando, chega uma hora que a pessoa perde a cabeça, bate num fiscal lá no mato, vira uma confusão”. Ao que o governador responde: “Pode ficar tranqüilo que eu vou administrar para você isso agora”.

Calar o Correio Braziliense tem sido uma tentativa infrutífera de Roriz. Os ataques, até agora, têm surtido efeitos negativos e arranhões na popularidade do carismático governador, além de dois direitos de resposta no horário da propaganda eleitoral da coligação de Roriz. O primeiro deles constou de um pronunciamento do presidente do Correio e dos Diários Associados, Paulo Cabral. O segundo, de uma seqüência de letreiros e áudio, no gênero all type sobre fundo escuro, finalizando com um longo silêncio e a frase que o jornal adotou e que é um dos lemas do civic journalism: “O dever de um jornal é consolar os aflitos e afligir os satisfeitos”.

De sua parte, Joaquim Roriz sente-se vítima de um julgamento precipitado. De fato, isso poderá ocorrer se ele conseguir comprovar que a sua relação com os irmãos Passos não ultrapassa os limites de uma velha amizade entre criadores de cavalos; e que a promessa de repreender o presidente da Terracap não passou de um artifício para sossegar um amigo com a cabeça quente.

A Ordem dos Advogados do Brasil pediu ao Ministério da Justiça uma força-tarefa para investigar os indícios de que existe, no Distrito Federal, crime organizado e ligações deste com os poderes públicos, tal como ocorreu no Espírito Santo. A diferença é que em Brasília há, ainda, um quarto poder cumprindo com a sua tácita função fiscal dos três outros.

(*) Jornalista, professor da Universidade de
Brasília e coordenador do projeto SOS-Imprensa

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