Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

PRIMEIRAS EDIçõES > CANIBALIZAÇÃO, TRAGÉDIA EM 3 ATOS

Réquiem para uma Bolha

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

CANIBALIZAÇÃO, TRAGÉDIA EM 3 ATOS

Alberto Dines

Informa o insuspeito O Estado de S.Paulo (sábado, 8/3, pág. B 4) que estão em fase final as negociações para uma "associação" entre a Gazeta Mercantil, octogenário jornal de economia, e a Marítima Engenharia e Petróleo, comandada pelo empresário German Efromovich. Qualquer que seja o rumo das negociações estamos diante do mais dramático episódio da mais grave crise econômica que se abateu sobre a imprensa brasileira desde o início do século 20.

O desabamento da Gazeta não aconteceu da noite para o dia, não foi fruto da flutuação cambial, conjuntura internacional ou alta dos juros. A Gazeta não despencou porque fez contratações infelizes ou tomou decisões desastrosas na esfera editorial. Isto aconteceu em outros casos, não aqui. Embora empresa familiar, absteve-se de intervenções na linha editorial e, assim, manteve rara qualidade e raríssima coerência. Os acionistas reservaram para si a esfera administrativa e financeira.

Essa a desgraça: de nada adiantam a profissionalização e a qualificação editorial se os mesmos padrões de competência não são adotados na operação empresarial.

O primeiro ato da tragédia acaba aí: o personagem impôs a sua vontade, escolheu o seu destino. Agora terá que pagar por isso. No segundo ato (sempre de acordo com o paradigma do teatro grego) entram em ação as vontades e desígnios dos outros, as forças externas. Começa o conflito. Em cena três entes invisíveis e diabólicos: o delírio da hegemonia, a dinâmica da concentração e a compulsão de macaquear.

Em outubro de 1999, o Grupo Globo e o Grupo Folha, gigantes que digladiavam-se há alguns anos, fizeram as pazes em silêncio e, para comemorar, anunciaram um banquete público onde seria servida a apetitosa Gazeta Mercantil, prato único e requintado que só as economias desenvolvidas têm condições de criar.

Não pareciam preocupados, funcionavam a todo vapor com luz verde em todas as operações. Pouco antes, em seus respectivos diários, haviam obtido tiragens fenomenais com a mágica dos brindes. Tudo dava certo, nada poderia falhar. Gigantes efetivos, conscientes do seu poder. Imbatíveis.

Inspirados pelos diabinhos da ambição, concluíram que a disputa era inútil e tiveram a luminosa idéia de juntar forças ? dividir o bolo, isto é, o mercado brasileiro. Cada um ficaria com a sua parte, os outros comensais que se danassem. Se no exterior as palavras de ordem eram "fusão", "concentração" e "diversificação" aqui não adiantaria reinventar a roda ? a receita deveria ser a mesma.

A única diferença seria a substituição de "fusão" por "parceria". Em vez de juntar o que já existia ? processo demorado, perigoso e ostensivo ? juntaram-se para produzir algo que ainda não existia. A desculpa era boa: uma injeção de 50 milhões de dólares, algumas centenas de postos de trabalho a mais e um concorrente para liquidar (Gazeta Mercantil) que, embora dona do mercado, patinava na beira da insolvência.

O diário Valor Econômico começou a circular na terça-feira, 2 de maio de 2000, editado por uma empresa cujos acionistas (em partes iguais) eram os grupos Globo e Folha. Nota tragicômica: na primeira página da primeira edição estampava a seguinte chamada ? "FHC e Lula dão receitas para o país crescer mais".

Receitas equivocadas, não apenas dos articulistas convidados para prever o futuro do Brasil mas também do grupo proprietário, logo apelidado de Grupo Bolha.

O carrasco da Gazeta tem desde o início um alto padrão editorial, é o jornal dos que tomam decisões e fazem opinião ? um sucesso. Em compensação, a empresa proprietária, símbolo da nova economia, patina num perigoso impasse. Os gigantes [glo]Bo & [fo]Lha tornaram a brigar, o negócio não prosperou como fantasiavam e, esgotados por outras infelizes miragens, estão sem caixa para investir ou comprar a parte contrária.

O terceiro ato já começou. Como em muitas tragédias (clássicas, elisabetanas ou modernas) corre o risco de não terminar ? por absoluta falta de personagens. Os que começaram estão caídos no palco, exangues, entregues ao Destino.

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