Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > CAMPANHA NA TV

Rumo ao tetra

Por lgarcia em 10/07/2002 na edição 180

CAMPANHA NA TV

Ivo Lucchesi (*)

Recolhidos os adereços que decoraram o cenário para a épica chegada dos pentacampeões, a sociedade brasileira tem agora pela frente a "campanha do tetra": pela quarta vez, desde a fundação da Nova República, o eleitorado se prepara para escolher novo dirigente para o país. Os quatro principais candidatos, entre os seis apresentados, fazem os últimos acertos em suas respectivas "equipes", com o intuito de conquistarem o título. Na outra ponta, a mídia, diferentemente do empenho em tudo informar e cobrir no tocante à Copa do Mundo, permanece tímida e reticente quanto às abordagens atinentes à política.

Diz-se que agora terá início a verdadeira campanha eleitoral. Cada candidato já declarou o montante dos gastos previstos. São cifras alarmantes: R$ 60 milhões (José Serra), R$ 35 milhões (Lula) e R$ 25 milhões cada (Ciro e Garotinho). Os demais declararam a quantia mínima de R$ 200 mil, subvencionada pelo Estado. Por alto, portanto, a disputa presidencial movimenta a fabulosa verba de quase R$ 200 milhões. Some-se a esse quadro um montante ainda maior, se computadas as verbas para campanha de governadores, senadores, deputados. Sem dúvida, trata-se de um grande ramo de negócios. Provavelmente, em função de quem fatura, não se modifica estruturalmente a legislação eleitoral, ficando o cidadão-eleitor à deriva, como aliás (e merecidamente) ficaram frustradas multidões de "pentistas" à espera de um mísero aceno dos seus "ídolos de barro" que, no novo mundo marqueteiro, o carro oficial e tradicional do Corpo de Bombeiros, foi sumariamente entregue ao descaso, em troca dos trios elétricos regados a muita cerveja. Um dia, o povo ainda aprenderá a lidar com seus mitos.

Fuga do risco

Ao que parece, todos avidamente aguardam a entrada em cena da grandiosa deusa ? a televisão ? para se dar início oficial à abertura dos "jogos políticos". Segundo a própria mídia alardeia, a televisão fará vir à tona a diferença entre as candidaturas. É possível que sim. Afinal de contas, a julgar pelo dizem e têm feito, os candidatos passam a idéia de pertencerem todos a uma mesma agremiação. Afora um detalhe ou outro, até agora o cidadão-eleitor tende a comportar-se como torcedor de um time que, independentemente, de como se comporte em campo, deve vencer o jogo.

Lembrando passagens obscuras com as quais se pautaram as arbitragens durante a última "copa-fake", as tramas intra(e inter)partidárias não são menos expressivas. Praticamente, todas as candidaturas encontram profundas dissidências em suas bases. O fato demonstra a alta dose de inautenticidade com que foram articuladas as costuras político-eleitoreiras, demonstrando a fragilidade institucional dos partidos no Brasil. Alianças das mais estranhas povoam a caminhada para o Planalto, somadas a programas que se revelam um verdadeiro enigma para a imensa maioria da população.

Nunca uma eleição presidencial esteve revestida por tão alto grau de opacidade. É este, na verdade, o vetor que põe a situação futura do país em acentuada taxa de risco, a despeito da manipulação que em torno desse tema possa existir. Muitos observadores políticos estão afirmando que o risco provém da própria transição presidencial, independentemente de quem esteja liderando a preferência do eleitorado. Creio que tal ilação não seja das mais corretas. É mais adequado, talvez, compreender a instabilidade nos setores de investimento por conta dos discursos que, até o presente momento, não assinalam nada de efetivamente mais concreto quanto aos destinos que o Brasil poderá vir a traçar.

À mídia caberia o papel de forçar a explicitação de plataformas, principalmente tentando extrair dos candidatos, de forma objetiva e direta, as medidas com as quais pretendem realizar o que vagamente anunciam. Ou seja, a grande questão é sempre o "como fazer". A mídia, entretanto, ainda continua na sua atitude costumeiramente evasiva, limitando-se a divulgar agendas dos presidenciáveis, fofoquinhas de bastidores, gráficos das "científicas" pesquisas e outras firulas mais, além dos intermináveis capítulos de uma novela posta no ar pela nova eleição: o "vicenato".

Nunca se deu tanto destaque à figura do "vice" como nessa campanha. É bem verdade que muitos concorreram para tal fim. Os "enredos" realmente foram "escritos" com engenhosa astúcia novelística. Houve momentos apoteóticos, ou melhor, pífios. "A figura do vice tem de ser uma mulher"; "O vice deve representar o setor produtivo da sociedade"; "Ninguém melhor que um líder sindical para vice. Arrebanhará os votos da classe trabalhadora"; "Nova musa embelezará os palanques". Enfim, uma sucessão de gaiatices recebendo da imprensa o tratamento formal como se decisões graves estivessem sendo tomadas. A exemplo dos candidatos, a mídia também prefere não arriscar… e assim a vida segue.

Aprofundamento ou registro

Considerando-se a retórica dos candidatos, tudo se transforma num imenso nevoeiro. Na árdua campanha do "tetra", ninguém arrisca coisa alguma, com receio de perda de votos. Nesse caso, o mais atingido é curiosamente quem até aqui lidera: o PT. Com a mudança de imagem promovida no PT, a sociedade brasileira perde a última referência partidária que, bem ou mal, encarnava alguma transparência. Não bastasse a aliança cuja rentabilidade política não há quem a identifique, afora supostos ideólogos do partido, o PT entrou numa encruzilhada para a qual parece não haver escape: se o PT, no governo, fizer o que está dizendo, o partido estará historicamente traindo sua identidade. Se o PT, no governo, vier a fazer o que não diz, terá traído a confiança de seus novos eleitores. Em ambos os casos, uma traição está em curso, o que, em nada, colabora para o fortalecimento da democracia, além de projetar um cenário no qual a legitimidade de representação terá sido arranhada.

No caso do PSDB, o candidato permanece mudo (anda, mas não fala). Parece ainda não saber exatamente o que dizer (ou o que desdizer). Não deseja figurar como mero continuador do projeto ao qual ele próprio esteve atrelado. Por outra, também não pode negar a própria história. Será difícil a definição. Se não é igual, que fazia como ministro durante dois mandatos? Se era igual, como ser agora diferente? O impasse está posto.

Provavelmente, nenhuma eleição anterior terá abrigado internamente uma questão da mais alta gravidade: a rigor, o que está em jogo é o embate feroz entre dois modelos nos quais o substantivo "capital" aguarda a companhia de um adjetivo ainda indefinido: "financeiro" ou "produtivo". Todos os candidatos sabem que retoricamente devem prometer uma política em prol do "capital produtivo". O problema reside em como, uma vez finda a eleição, sair de um modelo para outro sem provocar convulsões. Todavia, essa é a chance última. O Brasil já estará décadas atrasado para redefinir o perfil societário voltado para um capitalismo produtivo. Pior ainda, se nem dessa vez…

Como se vê, não faltam temas a serem destrinchados, caso a mídia queira prestar um serviço público, a menos que ela continue optando pela cômoda postura de apenas "registrar" acontecimentos, deixando o (e)leitor livre (ou órfão) para a sábia decisão. Ao final, a foto emblemática na qual o vencedor erguerá o "troféu" da democracia no "vale-tudo" do um por um.

(*) Ensaísta, doutorando em Teoria Literária pela UFRJ, professor-titular da Facha, co-editor e participante do programa Letras & Mídias (Universidade Estácio de Sá), exibido mensalmente pela UTV/RJ

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