Segunda-feira, 25 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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S.A., Keila Jimenez e Marcos Pierry

Por lgarcia em 24/10/2001 na edição 144

SEM MEMÓRIA

"Riscado da memória", copyright O Estado de S. Paulo, 21/10/01

"Pela primeira vez na história da Justiça do Trabalho, uma novela foi dada como garantia para pagamento de dívidas. Em processo movido, em 1998, por funcionários da extinta Manchete contra os antigos donos da rede, a empresa Bloch Som e Imagem ofereceu Tocaia Grande (1995) como bem de penhora, avaliado em R$ 5 milhões.

A penhora é o mais novo capítulo de descaso e tragédia que assolam a preservação da TV. No dia 2, alunos da Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA) deram de cara com um incêndio. O arquivo do Núcleo de Pesquisa de Telenovela tinha material raro. Virou cinza.

Os dois casos reavivam o debate sobre como a TV é vítima de tragédias e do próprio desleixo. Regravação de fitas, arquivos deteriorados e falta de espaço foram mais lesivos que os 18 incêndios em canais por 51 anos. O acervo da Manchete, com hits como Pantanal (1989), é hoje parte de uma massa falida e empoeira depósitos. Mas a penhora de Tocaia Grande é novidade na tradição de descuido.

?É um procedimento inédito?, diz a advogada Cláudia Durães. Ela representa os sindicatos dos Jornalistas e Radialistas, do Rio, que movem ação contra a Manchete no valor de R$ 200 milhões. ?Estudamos pedir outras novelas como garantia?, diz Cláudia. ?Se eles deram Tocaia Grande é porque não é a mais valiosa.? Segundo ela, um canal entrou em contato querendo comprar a novela.

Mas onde está o acervo da Manchete? Sua concessão passou para a TV Ômega (RedeTV!). Já imóveis e equipamentos foram comprados, por R$ 12, pela Hesed Participações, de Fábio Saboya. Com eles, o acervo. Como a Bloch Editoras faliu, o prédio do grupo foi lacrado pela Justiça. Só uma pessoa pode, hoje, dizer o que há naquele prédio: o síndico da massa falida, Walter Soares.

Ele, porém, se recusou por um mês a atender o Estado. O lacre ocorreu quatro meses após a transferência da Manchete para a Ômega. ?Nesse período, as pessoas poderiam retirar de lá o que quisessem?, diz o advogado Arnaldo Blaischman, que lacrou o prédio, no Rio, em agosto de 2000.

Já Saboya diz que fazia auditoria para identificar seus pertences quando foi expulso do prédio. ?Aguardo decisão judicial para retirar o acervo?, afirma. Ele diz não saber em que consiste o acervo, quanto vale e em que condições é mantido. Semana passada, um dos seguranças do prédio informou que, no sexto andar, há equipamentos e fitas espalhados. Era ali que funcionava a TV.

Incêndio – Em São Paulo, o incêndio na USP deletou relíquias como a primeira sinopse de Roque Santeiro (1975), feita em cordel, e álbuns com histórico, fotos, depoimentos, roteiro de novelas como Irmãos Coragem (1970) e O Cafona (1971). Sumiram reportagens desde 1964, roteiros, boletins do Ibope e pesquisas da ECA. Viraram pó 700 fitas com novelas e entrevistas, mil pôsteres, 2.224 registros bibliográficos, 122 discos de novelas e mais 1.500 fotos. O consultor da Globo, Mauro Alencar, lamenta ter emprestado ao Núcleo material de sua coleção de 3 mil fitas. O fogo levou álbuns seus, de Bebê a Bordo (Globo, 1988) e Vitória Bonelli (Tupi, 1972).

Vilões – Não são os incêndios nem as pendengas judiciais, no entanto, os vilões dos acervos. O diretor Maurício Sherman (Zorra Total e Domingão do Faustão) lembra que ainda hoje canais como Globo apagam fitas de programas para gravar novas atrações. ?Só a estocagem custa muito dinheiro.? A prática foi comum após a chegada do tape no Brasil, em 1962. Preservação só passou a interessar aos canais por causa da exportação de novelas. Boa parte da memória da TV depende de colecionadores, como Sherman. Ele guarda 400 peças de 20 anos de carreira.

Há roteiros da primeira Gabriela, Cravo e Canela (Tupi, 1961), com Paulo Autran, Grande Otelo, Glauce Rocha e Milton Moraes. ?Tenho os 35 capítulos?, orgulha-se. Já Ricardo Xavier, roteirista do Video Show e autor do livro Almanaque da TV, reclama da contradição dos depoimentos dos pioneiros, da escassa bibliografia e da quase ausência de imagens.

?A TV não toma jeito porque despreza sua memória?, diz. Para Rixa, preservação pode dar lucro e audiência. Há quatro meses, o Video Show veicula mais material de arquivo e reduziu externas. ?Subimos de 11 para até 23 pontos de audiência.?"

 

TV PAGA

"A TV que não é TV", copyright O Estado de S. Paulo, 21/10/01

"Tenho amigos que usam a televisão só para ver filmes. Entraram na TV a cabo, ou via satélite, para ter um cinema em casa. Dão uma espiada no noticiário, ignoram olimpicamente as novelas, detestam os shows ditos cômicos, reclamam dos comerciais – ainda mais nos canais pagos, porque afinal de contas já quitam uma mensalidade, por que além disso ver propaganda?

Essa transformação da TV em cinema me intriga. É claro que esses espectadores especializados não gostam da televisão. Porque, quando falamos nela, pensamos em atores, em shows, em muita coisa – mas não na mera retransmissão de uma mídia feita para outro espaço, outro equipamento, outro convívio social.

Sabemos que ir ao cinema deixou de ser um programa refinado e complicado. Nos primórdios, a sala de cinema era como um teatro em miniatura. Havia intervalo e bebidas; homens e mulheres se vestiam com esmero, quase a rigor. Quem, hoje, iria a um Cinemark de terno e gravata? Mesmo assim, ir ao cinema é diferente de ver filmes em casa. Meus amigos usam o equipamento da TV – o tubo, a caixa quadrada, a tela de pequenas dimensões – para ver outro produto cultural. Seqüestram o televisor, para ter um cinema em domicílio. Isso traz vantagens: é mais seguro, mais barato, as opções são talvez mais numerosas. E desvantagens: o ambiente é menos acolhedor. No escuro do cinema, eu mergulho na história que estou vendo. Não sou interrompido por comerciais, telefone ou família. É mais fácil me concentrar. Já quando vejo filmes pela TV, o tempo todo os outros me invadem ou eu mesmo me distraio.

Sim, há prós e contras. Mas queria chegar a uma questão. Se ver só filmes na televisão não é ver TV, então o que é, mesmo, a televisão? De acordo que o cinema não é TV, mas então o que é ela? E aqui as coisas se complicam. Porque qualquer resposta vai ser incompleta.

Poderia dizer, por exemplo, que a TV está nas novelas, ou seja, na dramaturgia. E é claro que esta, que nasceu como teatro, mudou muito em meio século de TV. Não temos mais Grande Teatro ou Teleteatro. Novelas e minisséries não são um teatro televisado. Poucas têm recorte literário. São gêneros que cresceram muito, primeiro na rádio, depois na televisão. Porém, mesmo assim, a TV não é só novela.

Como também não será só show, ou só humor… ou só cinema. Ela é tudo isso. E esse é o ponto curioso. A televisão é um dos gêneros mais contaminados, mais mistos que existem.

Apenas dois séculos atrás, Victor Hugo nascia para a fama, liquidando, com sua peça Hernani, uma velha doutrina teatral que proibia juntar o sério com o engraçado, a tragédia com a comédia. Ou tínhamos uma peça de teor elevado, nobre, que afetava o espectador em seus sentimentos mais profundos – ou uma comédia descontraída, que dava prazer e distração a um público sem interesse na profundidade.

Victor Hugo causou escândalo misturando rei e plebe, choro e riso. Pois a TV radicaliza essa mistura que o poeta francês inventou. Uma novela só dá certo se ela mostrar todas as classes sociais e toda sorte de emoção. Há personagens cômicos e trágicos, há alegrias e tristezas. A TV não pode fazer apartheid entre os sentimentos.

Mas, por isso mesmo, a TV deveria ser mais variada do que é. Mesmo com mais de cem canais a cabo, tudo ainda é bastante parecido. A programação cultural, em particular, é escassa. E é por isso que há bastante espectador que se especializa em ver, na TV, o que não é televisão: por falta de opções."

    
    
                     
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