Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

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Só estamos acima do mal

Por lgarcia em 05/09/1998 na edição 52

Marinilda Carvalho

 

Q

ualquer jornalista que condene métodos pouco éticos de obtenção de notícias corre dois riscos: ser enquadrado entre as raposas que desejam mas não conseguem as uvas ou acabar tachado de incompetente e vacilão. É esse mesmo o clima nas redações: quem consegue um grande furo provoca excitação geral, sabe logo que subiu degraus extras na escada da carreira e que provocou inveja entre os coleguinhas. Uns disfarçam e elogiam, outros ficam quietos, remoendo a pior das dores – a inveja.

Por isso, a ânsia do furo é justa, faz parte da vocação. Não condeno absolutamente Marcelo Rezende, da TV Globo, por se fingir de contrabandista para denunciar piratas de CDs [ver remissão abaixo]. Não condeno quem se faz passar por usuário de um serviço com a intenção de flagrar irregularidades. As imobiliárias, por exemplo, são sempre visadas – e merecem, diga-se de passagem. Muitos repórteres já produziram grandes matérias desse tipo, ajudando o público a se conscientizar de seus direitos. Minha lista de exemplos não-condenáveis é enorme.

Mas o caso do motoboy – se aconteceu como dizem (e a Veja pouco está contribuindo para esclarecer a história) – é diferente. Um repórter não está acima do bem e do mal para conseguir seus furos – só do mal. Principalmente do mal da impunidade. Denunciar contrabandistas, imobiliárias desonestas, taxistas bandalhos, ladrões e até assassinos – isso tudo vale, em minha modesta opinião. Porque a denúncia está visando o tal do Bem – do leitor, do consumidor, do cidadão, das nossas condenadas almas.

O problema é que o motoboy já estava derrotado e preso. Era um Mal, pode-se dizer, vencido, denunciado por pescadores lá da fronteira final. Um preso – mesmo um ser repulsivo como esse motoboy – tem direito a conversas particulares com sua defesa – mesmo no Brasil, onde são poucos os direitos dos pobres (este episódio jamais ocorreria se o preso fosse da classe alta, certo?).

Mas falta saber muita coisa. A repórter omitiu mesmo sua profissão? A quem? Ao delegado? À advogada? Ao motoboy? Na minha opinião, pouco importa. Seja qual for a resposta, o cidadão – ou o tal do Bem – nada saiu ganhando com o furo, já que até nas barrancas do Rio Uruguai se suspeitava de que ele era o assassino. Ou alguém terá vibrado com aquelas revelações patéticas? Nem a Promotoria: em qualquer tribunal civilizado, aquela confissão seria excluída dos argumentos da acusação, e poderia resultar na anulação do julgamento. O presumido assassino, portanto, estaria de volta às ruas, e o suposto subterfúgio da repórter só teria servido à sua própria vaidade.

Foi engraçado observar a insistência com que o texto da Veja insistia em reiterar que a confissão era “informal”. Era óbvio o temor da revista quanto a conseqüências posteriores. O que evidencia que a redação da Veja deduziu que ultrapassara o limite do tal do Bem.

E isso é para preocupar mesmo. Se o tal do Bem não for o limite, o Mal vai ficar à vontade para usar – como já usou – qualquer meio para vencer. É como na tortura: informações são certamente obtidas. Mas servem ao tal do Bem?

Se um repórter puder se fingir de advogado para ouvir e publicar confissões furtivas de suspeitos, fica valendo tudo mesmo. Como naquele filme do fotógrafo que se especializou em flagrar a morte, e acabou gostando tanto que passou a matar para ter melhores instantâneos.

Isso não é jornalismo. É outra coisa.

 

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