Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > CAROS AMIGOS

Saindo do armário

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

CAROS AMIGOS

Carlos Brickmann (*)

Não faz tanto tempo: a partir de 1945, com a derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, o racismo ficou fora de moda (e fora da lei). Houve, nestes 58 anos, inúmeras vitórias: a mudança de regime na África do Sul, a batalha vitoriosa contra o racismo antinegro nos Estados Unidos, a guerra (que aos poucos vem sendo ganha) para eliminar a discriminação contra as mulheres. Falta muito, mas a trajetória é vitoriosa.

De repente, surge de novo o fantasma do anti-semitismo ? inicialmente disfarçado em anti-sionismo, com vestes de esquerda, mas sempre contra os judeus (que, entre todos os povos do mundo, seriam o único a não ter o direito de erguer seu Estado). Agora, a serpente saiu do ovo, os anti-semitas deixaram o armário: Mikos Teodorakis, excelente compositor (mas Wagner também o era, não é mesmo?), dizendo que os judeus estão na raiz dos males do mundo, o primeiro-ministro da Malásia repetindo os Protocolos dos sábios de Sion (obra de autoria da polícia secreta do Czar de Todas as Rússias), e uma revista no Brasil que se dedica à propaganda da judeufobia.

A revista, claro, é Caros Amigos ? que já publicou, entre outras pérolas, um artigo sobre a "bomba étnica", uma arma desenvolvida por cientistas israelenses que seria capaz de distinguir entre judeus e palestinos e matar apenas os palestinos. O disfarce é de esquerda; o conteúdo é nazista ? tão nazista quanto qualquer escrito do dr. Goebbels.

Na edição n? 134 da revista, a articulista Marilene Felinto, partindo de uma declaração do rabino Henry Sobel sobre o assassínio de Liana Friedebach e Felipe Caffé, colocou os judeus como estrangeiros e membros da classe dominante ? e, como tais, alvo lícito dos descendentes de portugueses, com nomes brasileiros, que seriam membros das classes oprimidas e teriam, por este fato, o direito de cometer crimes.

Vejamos: Sobel ? a quem este colunista só conhece socialmente, e com quem não tem qualquer ligação ? tem passado impecável na luta pelos direitos humanos no Brasil. Foi, ao lado de D. Paulo Evaristo Arns e do reverendo James Wright, um dos religiosos que mais contribuíram para a denúncia das torturas a presos políticos. Sobel, abalado com o assassínio brutal de Felipe e Liana ? cujos pais foi ele que casou ? defendeu a instauração da pena de morte para crimes desse tipo. Fez a ressalva: estava falando em nome pessoal, já que a religião judaica condena a pena de morte.

Este colunista acha que Sobel estava errado ao defender a pena de morte. Mas é seu direito defendê-la, e ao lado de muita gente que deve ser ouvida. Este colunista também acha que d. Aloísio Lorscheider se equivocou, no mesmo caso, ao defender a redução da maioridade penal ? mas também é seu direito defendê-la.

Que fez Marilene Felinto? Primeiro, ignorou a opinião do cardeal católico, fixando-se apenas na do rabino judeu. Transformou a opinião do rabino em opinião da comunidade judaica, condenando a todos indistintamente e legitimando-os como alvo de assassinos. E colocou-se ao lado dos assassinos, porque nasceram pobres (e porque não são loiros nem têm nomes "estrangeirados).

Simplificando: há órgãos de imprensa que se dedicam à promoção do racismo, há intelectuais que se dedicam à promoção do racismo. A opinião pública não pode ficar adormecida: tem de se organizar. A barbárie racista não nasce por acaso: alguém precisa estimulá-la intelectualmente.

(*) Jornalista; e-mail <carlos@brickmann.com.br>

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